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04 de Fevereiro de 2014 - 07:00

Financiamento coletivo é alternativa para realizar projetos culturais, desde que sejam bem escritos e divulgados

Por BÁRBARA RIOLINO

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Cantores, atores e produtores de entretenimento começaram a enxergar uma luz no fim do túnel nos últimos anos. A popularização de uma ferramenta chamada crowdfunding, ou financiamento coletivo, permitiu a viabilização de projetos culturais a partir de apoios financeiros sem a participação do governo. Muitos viram nesta iniciativa a solução para toda a burocracia existente em cadastro de projetos de leis de incentivo nas instâncias municipal, estadual e federal. Por outro lado, o financiamento coletivo requer divulgação contínua dos projetos.

Esta realidade é confirmada pelas estatísticas. Dados do Catarse, uma das plataformas brasileiras no seguimento de crowdfunding, apontam que, nos três anos de atuação, dos 1.585 projetos que passaram pelo site, 56% alcançaram a meta de financiamento, o que resulta em um montante de R$ 13,4 milhões financiados por mais de cem mil pessoas. O fracasso do restante se deve exatamente à falta de divulgação, como apontam 22% dos entrevistados, segundo recente pesquisa realizada pelo Catarse sobre o tema.

"O principal erro é não entender e estudar a ferramenta, achando que é só colocar o projeto no ar que magicamente o dinheiro aparecerá. O financiamento coletivo é mais ágil, mais independente e menos burocrático que outros meios, mas é tão trabalhoso quanto qualquer outro", explica o coordenador de comunicação do Catarse, Felipe Caruso. Ainda segundo ele, a maioria dos não contemplados não preparou bem o projeto nem fez campanha de divulgação. "Para viabilizar um projeto, é preciso aquecer, mapear e mobilizar a rede de contatos em que está inserido, criando um meio de comunicação com os apoiadores e potenciais apoiadores. É importante formar uma comunidade antes de partir para a campanha em si. Isso exige estudo da ferramenta, planejamento e execução da campanha e comunicação".

 

A falta de divulgação, apontada por Caruso, foi a principal causa do não financiamento da temporada carioca do "Como fracassar na vida e ser infeliz no amor", espetáculo solo de Gueminho Bernardes, orçado, em 2012, em R$ 17.550 pelo Catarse. Os outros dois projetos que não alcançaram a meta foram o Conexão Eletrônica e o Concurso de piano e música de câmara Eduardo Tagliatti.

Mesmo sem atingir o objetivo, o ator e diretor juiz-forano Gueminho Bernardes considera a ferramenta uma ideia genial, por ser rápida, prática e segura para quem contribui. "O site permite o contato com pessoas do meio a fim de facilitar as iniciativas, mas percebo que existe uma tendência neste tipo de segmento que me incomoda um pouco: a de a arte estar atrelada à filantropia. Tudo precisa ter uma contrapartida social para conseguir apoio, sendo que a gente ainda precisa conviver com a ditadura da meia entrada", ressalta o ator e diretor.

Na luta por recursos para realizar o Conexão Eletrônica, voltado não só ao estilo, mas também para a conscientização dos jovens quanto a Aids e doenças sexualmente transmissíveis (DST), o gestor cultural e presidente da Associação Cultural Jotaefe Crew, Marcelo Telles, esperava mais da ferramenta. "Acho que estas plataformas deveriam não só hospedar os projetos, mas auxiliar os autores na divulgação." Para realizar o evento, ele precisou buscar outros patrocínios para acontecer. "O problema é a mentalidade em Juiz de Fora, que não se abre para coisas novas. Quem sabe no futuro possa ser uma ferramenta melhor utilizada", comenta.

 

Das seis propostas juiz-foranas cadastradas no Catarse, três conseguiram atingir a meta de financiamento: o Festival Mulheres ao Volante, o jogo de tabuleiro e cartas inspirado na mitologia nórdica, "Midgard", e o CD "Patuá", idealizado pela Banda Matilda. Este último utilizou o crowdfunding para financiar parte do projeto que não foi contemplado pela Lei Murilo Mendes. Para Fabrícia Valle, integrante da Banda Matilda, utilizar o Catarse para obter o montante de R$ 11.235 para complementar os 85% do recurso concedido pela lei, foi a saída encontrada pelo grupo para não perder o projeto.

"Foi uma ação inovadora, mas exigiu muita divulgação, diferentemente do que acontece quando se inscreve o projeto em um edital", comenta. Como o projeto do "Patuá" tramitou nos dois formatos, a artista ressalta que o processo desenvolveu dois tipos de ansiedades, uma quando se aguarda o resultado, o que é normal na visão dela, e outra relacionada a uma nova rotina, a de divulgar diversas vezes por dia o projeto nas redes sociais. "Foram dois meses de campanha para conseguirmos bater a nossa meta", conclui Fabrícia. O CD "Patuá" está em fase de finalização, e o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2014.

Neste mês, o designer gráfico Cristiano Cuty, coautor do "Midgard", espera comercializar os primeiros exemplares do jogo, financiado com recursos obtidos exclusivamente por apoiadores. Ele e o amigo, o engenheiro Fernando Cheker, conseguiram mais da metade do montante inicial, que pulou de R$ 16.500 para R$ 35.500. "Foram dois meses divulgando o projeto pelo Facebook e Twitter. O crowdfunding é uma das ferramentas de publicidade mais eficazes para tornar uma ideia real. O interessante foi ver que os apoiadores entenderam o projeto e se sentiram parte integrante dele", comenta.

O recurso inicial financiaria apenas o jogo na modalidade básica, mas, com o aumento, permitiu o desenvolvimento de quatro expansões. Serão disponibilizadas no mercado mil unidades, sendo 300 direcionadas aos apoiadores, que terão descontos nos valores na hora da compra. "Aprendemos muito com esta ferramenta e nos surpreendemos com o retorno, por se tratar de um produto voltado para o mercado de nicho, e não de massa", explica. O "Midgard" é um jogo físico, mas os criadores estão desenvolvendo um projeto para transformá-lo em aplicativo para celular, permitindo a interação pela internet.

 

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