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04 de Maio de 2014 - 06:00

Exposição em comemoração aos 164 anos de Juiz de Fora homenageia os pintores que, nos últimos 74 anos, modificaram a paisagem artística local

Por MAURO MORAIS

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Fani e Carlos estão casados há 46 anos e se conheceram no Castelinho
Fani e Carlos estão casados há 46 anos e se conheceram no Castelinho

Por trás de cada quadro com a assinatura de um dos Bracher, há trechos do vasto repertório da família. Num tempo em que, sob a égide do inovador e do contemporâneo, faltam referências, o domínio teórico e prático de Waldemar, Hemengarda e seus filhos Décio, Celina, Paulo, Nívea e Carlos prova que, em determinados momentos, o passado se revela insuperável. Vinda de Belo Horizonte, a família reescreveu a história da arte de Juiz de Fora em seus últimos 74 anos, dos 164 que a cidade completa no próximo dia 31. Para além da pintura dos filhos do casal e da arquitetura da casa onde moraram por mais de meio século, os Bracher representam os discursos que proferiram e ainda proferem, defendendo o patrimônio, a liberdade criativa, a igualdade e, principalmente, a poesia inerente à vida. Em homenagem ao clã, que se desdobrou em muitos outros nomes, de sangue ou de afeto, e comemorando o aniversário da cidade, será inaugurada, na próxima terça, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, às 20h, a exposição "Os Bracher".

Reunindo obras de Décio e Nívea na galeria Heitor de Alencar e do casal Carlos e Fani na galeria Celina Bracher, a exposição revisa a grandeza de quatro nomes da família cujo histórico é repleto de devotados às artes. "O Tio Lico (Frederico Bracher) foi quem imprimiu esse gosto da pintura em nós. Como o Décio foi aluno dele, acabou passando para os outros irmãos", conta Carlos, o caçula. "A exposição é um registro dos quatro. Para contar a história toda, somente esta casa", acrescenta Fani, sua esposa. "Eles são artistas comprometidos com o seu tempo e com as causas de seu tempo. A recente perda de Nívea e Décio deixou mais à vista a importância dos dois como referência nas artes juiz-foranas e nos debates culturais. Ficam a obra e o legado artístico. E Carlos e Fani são exemplos vivos de uma grandeza de resistência", defende o curador da mostra, o jornalista e pesquisador Jorge Sanglard.

Seja na casa situada no número 300 da Rua Antônio Dias Tostes, seja na Galeria de Arte Celina, que ocupou salas na galeria Pio X, a família incentivou, vivenciou e registrou a efervescência cultural de Juiz de Fora, bem como defendeu tudo o que nela foi construído, como a Capela Galeria de Arte (antiga capela do Colégio Stella Matutina), uma das mais fortes bandeiras de Nívea. "Belo Horizonte nunca teve um 'Prêmio de Viagem ao Exterior', mesmo sendo a cidade de Guignard. Juiz de Fora teve Edson Motta, Jayme Aguiar, Inimá de Paula - que começou a pintar aqui - e, por acaso, eu. A cidade, sem uma escola, recebeu quatro prêmios. Sempre tivemos uma tradição na pintura", reflete Carlos, apontando para um dos momentos mais marcantes de sua carreira. "Esse prêmio todo mundo queria. Era um salão muito difícil, muito concorrido. Quem já havia ganhado era Pancetti, Victor Meirelles, Pedro Américo, Portinari, ou seja, os grandes pintores."

A arte da entrega

Quando Carlos decidiu se inscrever para o Salão Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, sua primeira opção foi uma pintura inspirada no banheiro do Castelinho, tendo o vaso sanitário ao centro. Como sugestão do irmão, desistiu da ideia e inscreveu outro quadro, com dois túmulos em primeiro plano, que se sagrou o vencedor do "Prêmio de Viagem ao Exterior". Estava ali, assim, confirmado o talento do mais jovem fruto. "Carlos Bracher faz parte de uma família de pintores que se inicia com Grunewald, Rembrandt, Goya, chegando a Van Gogh e aos expressionistas alemães do início desse século. A pintura de Bracher é exorcista, e por seu intermédio extravasam emoções, individuais e coletivas. Embora muito bem camuflados, existem em Bracher conteúdos tensos, ansiosos, obsessivos", cravou o crítico de arte Olívio Tavares de Araújo em 1989, quando o artista já gozava de prestígio internacional.

Ao lado de pigmentos sobre papel, lonas, óleos sobre tela, bordados, de diferentes séries, como as pinturas de ossos, todos assinados por Fani, Carlos apresenta, na exposição, séries de pinturas nas quais retrata Brasília e Ouro Preto, onde se radicou. "É o que estou fazendo agora, o fim de minha vida", emociona-se Carlos, dono de um vigor singular. A Brasília de tintas fartas, de pinceladas robustas, é visceral como a expressão do autor, um homem eloquente, saudoso das recentes despedidas. Décio, seu irmão e mestre, também era homem de retratos sensíveis da paisagem urbana. Na mostra, é possível observar o "pintor das demolições", o fotógrafo que, em pincéis, registrou destruições como a de um imóvel na esquina das ruas São João e Batista de Oliveira. "Décio era uma espécie de meu pai. Foi um pintor que teve formação acadêmica, o que eu e Nívea não tivemos. Foi um bom pintor, que desenhava maravilhosamente bem, e depois começou a abrir mão do academicismo", afirma o irmão.

Da mesma forma, Nívea, por muitas vezes, abre mão da técnica, de maneira consciente, em prol de outra linguagem, própria e inegavelmente coerente. Aos que bradam a originalidade da utilização de vestígios da memória nos dias de hoje, Nívea já o fazia nos anos 1970, quando coletou ladrilhos hidráulicos do Colégio Stella Matutina, antes que o imóvel fosse demolido, fazendo daquilo seu trabalho artístico, poético e indignado. Ela também - e os espectadores poderão ver -, transitou pela paleta mais escura e, aos poucos, foi abrindo mão de tal recurso. Para Carlos, ela soube, como poucos, navegar nas águas do soviético Malevich. "O princípio da pintura da Nívea era denso, forte, de cores negras, pinceladas fortes. Aos poucos, ela foi clareando, clareando, clareando. Ela foi diluindo. Quase chegou ao branco sobre branco. É o prazer do branco. Como em uma música, ela fez uma pintura do silêncio. Quase uma memória do inexistente."

 Detalhe de "Ossos", de Fani

'Não tenho o sangue, mas tenho a cumplicidade'

Fani não se lembra do momento exato de quando pintou seu primeiro quadro. Recorda-se de que era 1967, pouco antes de se casar com Carlos Bracher, seu então namorado. O ato de mover o pincel sobre uma tela era algo tão habitual no Castelinho dos Bracher, que ela guarda na memória, apenas, a naturalidade com que começou a conceber, de suas mãos, a pintura. "Na vida da gente, as coisas vão acontecendo", reflete ela, que nasceu em 1947, sete anos depois do marido. Na época em que segurou, pela primeira vez, a própria paleta diante de uma tela em branco, Fani já guardava consigo as lembranças por ter trabalhado como diretora administrativa na Galeria de Arte Celina. Entrava, então, para a história cultural de Juiz de Fora sem se dar conta e sem se assumir artista. "Foi um movimento que não imaginávamos que seria tão importante para Juiz de Fora. Quando estamos envolvidos, não temos a dimensão daquilo para o futuro, só aprendemos quando ficamos mais velhos", comenta.

Antes de chegar ao maior empreendimento da família Bracher, Fani conheceu a filha homenageada com um espaço cultural em seu nome. "Fui fazer o vestibular da Faculdade de Filosofia para o curso de comunicação social, e o Décio é quem dava aula no cursinho. Ao mesmo tempo, faziam a prova comigo o Paulinho e a Celina, que escolheram história. Depois fiquei amiga dela, e vinha com constância ao Castelinho. No dia da morte dela, estranhamente, fiquei conversando com o Carlinhos e começamos a namorar dessa data em diante", traz à memória. "Eu não tinha absolutamente nada a ver com ele, nem com a família dele, que era de pessoas ligadas à cultura e às artes. Venho de uma família de fazendeiros de Piau. Nasci em Coronel Pacheco, na Estação Experimental de Água Limpa, hoje Embrapa, onde meu pai era botânico", conta. "Sou de fazenda, de roça. Estudei em escola rural. Quando comecei a namorar o Carlinhos, um novo universo se abriu na minha vida", completa.

Graduada jornalista, ela casou-se e logo se transferiu para a Europa, acompanhando Carlos, que acabara de receber o "Prêmio de Viagem ao Exterior". As montanhas de Minas, as paisagens de uma Coronel Pacheco de terra batida, davam, então, lugar a um circuito de grandes museus, obras de arte consagradas e históricas. Apesar do desejo de se profissionalizar em TV educativa, passou a se dedicar ao mesmo ofício do marido, enviando seu trabalho aos salões de arte - quando já havia se radicado em Ouro Preto - e recebendo prêmios que lhe serviram como estímulo e prova de uma criação original. "Saí desse universo rural e caí em um universo de minerações, do dióxido de ferro. Falo que sou da BR-040, já que comecei me despedindo da Zona da Mata, até Barbacena, e só depois entrei na parte de minerações, que é característico do quadrilátero ferrífero de Ouro Preto. Depois pintei pedras e, em seguida, passei por uma fase pintando ossos durante cinco anos. Já trabalhei com lonas, bordados e outros suportes além da tela. Hoje colho terras em Piau, que chamo de 'Terras da minha terra', um novo trabalho que tenho feito."

 

'À mostra o que é permanente e universal'

De maneira quase inconsciente, Fani Bracher demonstrou, em sua obra, um distanciamento do lugar em que havia surgido. O universo de sua terra constituía-se em formas simples, em cores sóbrias, em pinceladas sutis, diferente da energia e dos excessos de Carlos e de Nívea. "A minha grande digital no trabalho é não ter a ver com o trabalho do Carlinhos. É uma influência diária, convivemos 24 horas por dia, tenho meu ateliê, e ele vai lá ver - ele dá palpites, e eu acato, porque sei que é o olhar de um amigo e de um artista -, mas o trabalho dele e da família não me influenciou no que faço. Isso para mim é muito bom, porque eu não gostaria de ter sido uma cópia", afirma, pontuando, em seguida, as referências que lhe foram mais caras. "Eles são muito ligados à Europa, e minha vertente de pintura são os Estados Unidos e o Canadá. Gosto muito de uma pintora norte-americana chamada Georgia O'Keeffe, que trabalhou durante muitos anos com ossos. Também trabalhei com ossos influenciada por ela, mas as fazendas, onde têm a cabeça de boi nas porteiras, para espantar os maus espíritos, sempre me atraíram. Nunca tive os ossos como algo ligado à morte, acho o osso uma escultura maravilhosa. E isso tenho dentro de mim."

Segundo o companheiro, a diferença do casal, que os une dia a dia, também está expressa nos quadros, o que também os une. "Cada um é o que é. A arte revela a expressão do humano, o eu, os desígnios totais, a dinâmica, a natureza e a espiritualidade. A arte é o exercício da vida. A arte da Fani revela a vida que ela é. Ela teve uma emoção espiritual nesta casa, mas fez o próprio caminho. O fácil seria ela ser uma seguidora de nós", emociona-se Carlos. "Em seus quadros, a impressão que se tem é de que o tempo não flui, e que cada casa, cada tronco, cada flor parecem recortados do espaço natural e fixados numa dimensão em que nada se deteriora. Mas é exatamente nesta busca do permanente que se revela a inquietação da artista e que, em que pese as aparências, está presente em seus quadros, nos elementos objetivos e subjetivos que os constituem. De fato, essa busca do permanente é também, em Fani, a busca da própria linguagem pictórica, ou seja, ela procura eliminar de seus objetos temáticos o que é circunstancial e particular, a fim de pôr à mostra o que é permanente e universal", destaca o escritor e crítico de arte Ferreira Gullar, em texto para a exposição "Fani Bracher: pinturas", de 1988.

Poético e certeiro, o crítico de arte Frederico Morais diz da mulher e da artista, ao mesmo tempo, apontando para uma descrição objetiva como ela. De acordo com ele, Fani tem "uma visão uterina do universo", o que, verdadeiramente, representa-a em sua objetividade, em seus gestos contidos, em sua praticidade para revisar a própria vida e, principalmente, falar da subjetividade presente em sua arte. "Sou muito prática, objetiva, sou geminiana. O Carlinhos é mais sonhador, mas daqueles que sonham e realizam. Acredito que a mulher seja mais prática, faz mais coisas ao mesmo tempo, sabe ser mais organizada", reconhece. "No seu modo espartano de ser, descarta o fácil e o dócil da arte - fútil da vida. Quer o difícil, o dútil. Repete sempre: gosto das coisas que se bastam, autossuficientes, que não deixam sobras nem se perdem em excessos retóricos e ornamentais. Na paisagem quer o pétreo. Ou a nuvem, mas imobilizada, contida em seu movimento. Entre as cores, prefere, de saída, o preto - tão limpo quanto o branco", reflete Morais, em texto presente no livro "Fani Bracher", vencedor do Prêmio Jabuti em 1995, na categoria melhor livro de arte.

'Ela veio me renovar uma casa'

Quando se iniciou na pintura, Fani Bracher dividia o ateliê com o marido. Ela pintava na mesa - como sempre fez - e, a alguns centímetros, Carlos trabalhava com o cavalete. Quinze anos depois, ela passou a utilizar um quarto da casa e, em seguida, optou por um espaço mais amplo, fora de sua residência. Ainda assim, a proximidade do grande incentivador sempre se fez, em comentários que também ecoavam do Castelinho, pelos olhares atentos de Décio e Nívea. "A importância do Carlinhos na minha vida é total. Se não fosse ele, talvez eu nunca mexesse com pintura. O Carlinhos é artista, eles são artistas. Eu não sou artista. Digo que quando você não consegue viver sem aquela coisa, você é aquela coisa. Eles não conseguem viver sem arte, eu não, eu faço arte. Consigo viver sem, mas hoje já estou entranhada disso tudo", diz, para logo comentar da maternidade.

Quando nasce a primeira filha do casal, a jornalista Blima Bracher, faz-se, então, o cordão sanguíneo que liga Fani aos Bracher. "A Blima e a Larissa têm o sobrenome e o sangue Bracher. Eu não tenho esse sangue, mas tenho a cumplicidade. Minhas filhas são muito Bracher. Ser Bracher é muito complicado. É um núcleo de pessoas, uma tribo. Me tornei parte disso desde a Galeria de Arte Celina. Fiquei tão 'da tribo' que virei pintora. Não sou mais jornalista, sou artista plástica." Para Carlos, Fani - a artista que, ao contar a própria história, confirma a dimensão do Castelinho de número 300 da Rua Antônio Dias - é a extensão da casa onde foi criado: "Não sou um camarada de grande talento, mas essa casa me imprimiu um tal fôlego de mim mesmo que me mantém até hoje. Há mais de 40 anos me mantenho fora da casa, e é muito difícil viver fora de um lugar que é meu grande centro, meu cerne. Essa casa está em mim até hoje. Quando me casei com a Fani, veio um complemento. Ela veio me renovar uma casa que eu não tinha. Fizemos, então, um novo centro, em Ouro Preto."

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