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23 de Março de 2014 - 06:00

Relatório revela que literatura estrangeira encabeça a preferência do público juiz-forano que frequenta o setor de empréstimo da Biblioteca Municipal Murilo Mendes

Por MARISA LOURES

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"A menina que roubava livros", de Markus Suzak, está entre as dez obras mais emprestadas pela Biblioteca Murilo Mendes
"A menina que roubava livros", de Markus Suzak, está entre as dez obras mais emprestadas pela Biblioteca Murilo Mendes

Cerca de cem leitores circulam de segunda a sexta-feira pelo setor de empréstimo da Biblioteca Municipal Murilo Mendes (BMMM). Porém, somente 10% se detêm diante das ficções brasileiras. Estas, na maioria das vezes, ficam restritas a um público que quer atender uma demanda escolar. Segundo levantamento realizado pela direção da instituição, a pedido da Tribuna, dos dez livros mais emprestados nos anos de 2012 e 2013, dentre os 37 mil disponíveis para esse fim, apenas dois são de autores nacionais. A obra mais procurada por leitores juiz-foranos é "A cabana", do canadense William P. Young. Ela deixou as estantes 138 vezes no período pesquisado. Lançado em 2007, o livro, identificado nas prateleiras como autoajuda, logo encabeçou a lista das publicações mais vendidas no Brasil. Segundo a campanha de marketing em torno do best-seller, a obra apresenta uma história que pode transformar a vida de quem folheia suas páginas.

O relatório de empréstimos segue com "Cilada", de Harlan Coben (91 vezes); "O símbolo perdido", de Dan Brown (89); "Não conte a ninguém", de Harlan Coben (85); "A menina que roubava livros", de Markus Suzak (77); "O mundo de Sofia", de Jostein Gaarder (75); "Anjos e demônios", de Dan Brown (68); e "O caçador de pipas", de Khaled Hosseini (67). Os únicos brasileiros são "1822", de Laurentino Gomes, em sexto lugar (77), e "Dom Casmurro", de Machado de Assis, na décima posição (67).

Na visão da diretora da BMMM, Gerda Juliana, o grande investimento das editoras na divulgação dos lançamentos estrangeiros colabora para o êxito na procura por alguns títulos. "Também tem a motivação da mídia que explora a lista dos mais vendidos. Como acontece em todos os segmentos da sociedade, o povo é influenciado por propaganda, massificação de informação." Gerda ainda destaca o pouco interesse dos professores em indicar autores com uma linguagem "mais adequada aos jovens".

Endossando a opinião da bibliotecária, estudo realizado pela GfK, quarta maior empresa de pesquisa de mercado do mundo, revela números a respeito do varejo de livros no Brasil em 2012. Apesar de a literatura brasileira ter crescido, passando de 3,6% em janeiro para 4,4% no final do ano, o produto de fora foi responsável por 31,2% do total de livros vendidos em 2012, sendo que, em 2011, era de 22%. A pesquisa ainda aponta que o consumidor final prefere pagar mais caro por um título do exterior, que custa entre R$ 30 e R$ 50, do que por um nacional, cujos preços são bem menos elevados: um terço do total, 29%, estava sendo comercializado por menos de R$ 20 no ano pesquisado.

"Quando o livro chega aqui no Brasil, já foi muito divulgado lá fora, foi para as redes sociais e já tem fã. Alguns até já foram vendidos para filme. O nacional, praticamente, tem que cavar o leitor do zero, não tem aquela propaganda boca a boca. O Eduardo Spohr, com a 'Batalha do apocalipse', esteve entre os mais vendidos em 2010, mas, antes, ele já tinha comercializado três mil cópias só pelo site. A propaganda faz toda a diferença", opina Carol Sabar, autora de "Azar o seu" e "Como (quase) namorei Robert Pattinson".

Marina Colasanti levanta a questão da predominância cultural do país dominante, fenômeno que, na visão dela, sempre existiu. Antes com a França, hoje com os Estados Unidos. "O problema não é a nacionalidade. Mas a que fatia de mercado editorial pertence o livro. Se estivessem pedindo nas bibliotecas os Proust da modernidade, tudo bem. Mas não, estão querendo livros feitos em série. O autor faz logo sete. Estão pedindo livros de distração e não de reflexão", assevera a escritora, detentora do prêmio "O melhor para o Jovem", da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, pela publicação de "Uma ideia toda azul".

 

Total desconhecimento

Na última quarta-feira, durante os cerca de 40 minutos em que a reportagem esteve na Biblioteca Municipal Murilo Mendes, a maior procura foi por obras espíritas e estrangeiras. Também tinha mãe fazendo cadastramento para os filhos pegarem títulos indicados pelos colégios. Houve quem demonstrasse completo desconhecimento por obras brasileiras. Daniele Alves, 16 anos, começou a ter contato com a ficção nacional quando se deparou com a listagem de obras exigidas pelo Programa de Ingresso Seletivo Misto (Pism). Afirmou ter gostado dos clássicos, como Machado de Assis e Clarice Lispector, e até do contemporâneo Caio Fernando Abreu, mas, neste dia, não queria outro além de "Mentes perigosas - O psicopata mora ao lado", de Ana Beatriz Barbosa Silva, vendido nas livrarias como psicologia, comportamento e autoajuda. "Prefiro os estrangeiros, mas achei legal a forma como a história dos romances brasileiros é construída", diz, revelando o motivo de ela e seus amigos terem predileção pela ficção produzida lá fora. "Gostamos das sagas, porque contam uma história de um mundo inalcançável", observa a adolescente.

Nascida em Tabuleiro, mas moradora de Juiz de Fora desde que optou pelo município como local de estudo, Damires Oliveira Braz, 18 anos, foi pela primeira vez à biblioteca na quarta-feira. Ela levou para casa um livro didático de matemática, mas garantiu voltar para olhar as opções de ficção nacional. Amante do gênero ação, com preferência para as traduções de língua inglesa, Damires passa longe do que é produzido na contemporaneidade no Brasil e tem uma explicação para isso. "Os melhores livros são os dos autores antigos. Acho que as pessoas não gostam muito da literatura atual porque não procuram se informar sobre ela", disse a estudante.

Ao contrário de Damires, o músico e mecânico Vicente Reis, 70 anos, é frequentador assíduo do espaço. Segurando nas mãos a biografia do sanitarista brasileiro Osvaldo Cruz, ele conta vir de Magé/RJ três vezes na semana e aproveita para fazer suas leituras. "Gosto dos autores brasileiros em geral, principalmente, de Graciliano Ramos por ser um escritor que trabalha o social", comenta Vicente, que não se cansa de fazer uma busca pelo poético "Eu", de Augusto dos Anjos, em falta na BMMM.

 

 

'Os livros estão chegando surfando numa onda de moda'

Em duas estantes do corredor lateral do setor de empréstimo, destacam-se publicações indicadas como leitura pela instituição. Dentre os títulos, estão os brasileiros "Passageira em trânsito", de Marina Colasanti; "Um lugar ao sol", de Erico Verissimo; e "Benjamin", de Chico Buarque. "Como brasileira, acho que, se os leitores lessem um autor tão bom quanto eu, ficaria feliz. Mas deixar de lado boa literatura brasileira para ler best-seller é triste", diz a escritora Marina Colasanti. "O mercado americano não deixa as coisas soltas. Quando o escritor estrangeiro vem para a Flip (Festa Literária Internacional de Parati), ganha um espaço três vezes maior que o brasileiro. Tudo isso vai alimentando o desejo de posse do leitor. Já aconteceu comigo mais de uma vez. Lancei o livro e não saiu uma linha na imprensa sobre ele. Como o leitor vai chegar à biblioteca e dizer que quer lê-lo? Os livros estão chegando surfando numa onda de moda."

A expectativa é de que, brevemente, outras obras sejam incorporadas ao acervo. A Murilo Mendes foi agraciada com R$ 84 mil a serem utilizados para melhoria na infraestrutura e compra de novos livros. O recurso chegará por meio de dois projetos inscritos pela Funalfa e contemplados com recursos do Fundo Estadual de Cultura, viabilizado pela Secretaria de Estado de Cultura, por meio da Superintendência de Fomento e Incentivo à Cultura. De acordo com a assessoria da Funalfa, a parte de documentação foi resolvida, e o dinheiro pode ser liberado a qualquer momento. Serão adquiridos 321 títulos.

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