Reunião noturna com propósitos literários. É mais ou menos assim que qualquer dicionário apresenta o significado da palavra sarau. Se a intenção é parar por aí, pode-se afirmar que o projeto "Eco performances poéticas" encaixa-se na definição. Mas quem disse que os poetas locais querem saber de inércia? Há quatro anos, a iniciativa abre o microfone uma vez por mês para sutis subversões. Uma delas, a oposição à ideia clássica - e por vezes, chata - de um sarau. Na edição comemorativa desta quinta, não espere tomar um chá entre uma leitura e outra. Não espere sequer leituras comuns. O nome já avisa: elas serão performáticas. E falarão muito sobre a produção atual.
O termo eco foi oferecido por Juliana Magaldi logo após o surgimento casual da proposta em 2008. Ao lado do marido, o poeta e professor Anderson Pires, ela participou de uma versão do "Café filosófico", evento promovido pelo Mezcla. O escritor André Capilé também esteve presente, dando voz às criações de Anderson. Até que veio a pergunta: por que estacionar? Sem respostas, o grupo começou a formatar a estreia oficial. Segundo o discotecário Pedro Paiva, que assumiu o som da empreitada a partir da segunda edição, o terreno local estava pronto para ser cultivado. "Era uma necessidade da arte e do público." Conforme acrescenta Pires, durante muito tempo, os poetas da cidade produziram de forma reclusa, presos ao papel - ou ao computador. "A coisa se encerrava no lançamento de livro pela Lei Murilo Mendes", assevera Anderson, doutor em literatura. Cerca de 70 convidados já passaram pelo evento.
Ao que parece, um hiato se estendeu do movimento que contou com o folheto "D'Lira" e a revista "Abre-alas", na década de 1980, até o palco do "Eco". Assim menciona o poeta e jornalista Luiz Fernando Priamo, incorporado à trupe na metade do caminho. "Hoje, a ideia da leitura permanente, da performance, está mais forte", comenta o jornalista. Mas as pequenas publicações, tão comuns no passado, continuam circulando.
Aliás, Priamo é um dos fundadores do "Caderno Encontrare", um impresso de bolso. Hoje, a equipe produtora do livreto e as meninas do blog "Geleia geral" (geleiageral001.blogspot.com) também capitaneiam o "Eco". Ao todo, são nove os organizadores. "Estamos mesmo na contramão. Com o tempo, pessoas foram chegando e não saindo. Não existe o dono da bola", observa Pires, ressaltando a importância da troca no fazer poético. "Minha escrita deu um salto qualitativo."
Outra noção dissolvida pelos poetas é o contraste entre as gerações. Segundo Anderson Pires, escritores como Fernando Fiorese e Iacyr Anderson Freitas, que já foram seus professores, participaram do evento. Por outro lado, as editoras do "Geleia geral" abusam das redes sociais para divulgar a proposta. "Buscamos a pluralidade", apregoa Pedro Paiva, defensor também da entrada gratuita.
Se as portas estão escancaradas para a plateia, acontece o mesmo com o microfone. Depois da apresentação de 15 minutos de cada poeta, qualquer um pode se arriscar sobre o tablado. "Isso traz proximidade", salienta o discotecário. A análise de seus parceiros segue na mesma direção. Para Luiz Fernando Priamo, o tipo de relação entre artista e espectador estabelecido pelo "Eco" despe a poesia de qualquer traço sagrado. "Ela sai do gabinete", complementa Pires. Por muito tempo, o escritor acreditou não haver público para o gênero por aqui. Ledo engano. De acordo com ele, as edições estão sempre lotadas (cerca de cem pessoas) e reúnem, além de leitores, ouvintes entusiasmados. E muitos são jovens.
O garimpo de interessados foi acompanhado por outro, de fazedores. Conforme lembra Pedro Paiva, muitos começaram a criar versos, inspirados por outras vozes. "Até eu já fiz uma antiode ao 'Eco'." Alguns iniciantes foram, inclusive, chamados para comandar o barco. É o caso do poeta e historiador Tiago Rattes de Andrade. "Quando ele leu a primeira vez, eu e André Capilé (um dos fundadores) pensamos: 'o cara é bom, vamos ter que fazer melhor'", conta Anderson Pires, que já queimou um poema em cena e prepara novo livro, "Poesia em chamas". A trupe também planeja uma publicação coletiva.
Sem roteiro, as apresentações são pontuadas por um mestre de cerimônias bem-humorado. A intenção é deixar o ambiente cada vez mais descontraído e propício para experimentações. Tanto que já houve participações inusitadas, como a de um rapaz anônimo, com uma grande máscara de minotauro, que entrou e saiu sem dar explicações. Artistas de outras áreas também costumam fazer suas misturas, comprovando uma tendência dos tempos atuais. "Já tivemos filme, dança e música, além de muitos letristas ao microfone", contabiliza Luiz Fernando Priamo, informando que o grupo esteve no Rio, no último dia 25, para entoar seus versos no "Cep 20.000 - centro de experimentação poética", evento de poesia promovido há 20 anos pelo artista Chacal. "Ele já aceitou o convite para vir ao 'Eco'. Agora, é só conseguir recursos", encerra Priamo.
ECO PERFORMANCES POÉTICAS
Hoje, às 20h
Mezcla
(Rua Benjamin Constant 720)
Fechou
A firma é forte e o bando passa em passo lento
"ao assalto" grita à frente, um mais afoito.
Corrige ginga, afia a língua, acerta o prumo,
com pouco é muito, em concisão, oitenta é oito.
Pra ver se é esperto o que nos ouve, faz-se a graça,
bocas comprovam que a palavra ainda cola.
Possível é o bicho rir de si fazendo o verso,
sem lero-lero, o papo é reto, mas rebola.
O ambiente aprova o disco, nunca o arranha
baila o ouvido, aperta o mic e goza o som.
Desprevenido é o que ainda espera o chá,
passou das cinco, o Eco é hoje, chérie, pardon.
Luiz Fernando Priamo



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