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21 de Maio de 2014 - 06:00

Entrevista / Sylvia Cyntrão, pesquisadora

Por JÚLIA PESSÔA

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Sylvia Cyntrão analisa as canções de Chico Buarque em seu teor poético
Sylvia Cyntrão analisa as canções de Chico Buarque em seu teor poético

Com os olhos brilhando, típicos de quem fala sobre algo que ama, a professora da UnB Sylvia Cyntrão explica seu objeto de pesquisa, algo precioso não apenas para a fruição acadêmica, mas caro a qualquer dono de um bom par de ouvidos: a obra de Chico Buarque. "Estudamos a relação entre o texto poético e sua relação com outras artes, no caso, a canção popular, com foco na carreira de Chico", conta a pesquisadora, que ministrou, neste mês, um minicurso sobre as áreas de interface entre a canção e o texto literário, com atenção especial às composições de Chico, a convite do Programa de Pós-graduação em Letras - Estudos Literários da UFJF.

Em seus estudos, Sylvia aborda a canção popular como veículo do imaginário coletivo, além de enfatizar a importância dos artistas como veículos deste imaginário. "A partir principalmente da década de 1960, as canções ganharam um status de poesia, que acabou sendo ainda mais fortalecido com a publicação dos encartes dos vinis com as letras, algo que ainda não era comum na época. E Chico foi um dos primeiros artistas a dar importância a isso", comenta a docente.

Dentro da vasta obra de Chico Buarque, Sylvia trabalha com as diversas facetas do artista: o político, o lírico-amoroso, o sambista, entre tantas outras. "A obra dele conta a história do Brasil dos últimos 50 anos, a partir de letras que são preciosas narrações, e também resgata da tradição lírica símbolos nacionais e universais, como o amor, comum a todas as culturas", observa a especialista.

Em Juiz de Fora a convite do poeta e professor da UFJF Fernando Fiorese, parceiro acadêmico de longa data, Sylvia retribuiu prontamente a gentileza. Fiorese será um dos participantes do evento poético, musical e de atualização crítica da obra de Chico, "Quem canta comigo? Chico Buarque, sinal aberto!", que será realizado em setembro de 2014 na UnB. O simpósio comemora os 40 anos do disco "Sinal fechado", que traz, entre as composições, "Acorda, amor", composta sob pseudônimo de Julinho da Adelaide, para driblar a censura do período da ditadura. Em entrevista à Tribuna, a pesquisadora falou sobre a poesia na obra musical de Chico e confessou um certo "medo" de se aproximar daquele cuja obra lhe é tão íntima.

Tribuna - De que forma, no Brasil, a canção popular se relaciona com a poesia e com a construção de uma identidade nacional?

Sylvia Cyntrão - Desde 1920, quando sugiram artistas brasileiras como Donga e Pixinguinha, a canção passou a dar voz aos pobres, ao morro, aos desvalidos. Desde então, a própria sociedade acabou integrando essas vozes por meio da canção popular. O samba, por exemplo, foi a grande identidade cultural do país em um determinado momento. A partir de 1950/60, o samba foi perdendo força, o país, com a industrialização dos anos 1950, passou a conhecer outras culturas e incorporá-las. Ao mesmo tempo, a bossa nova começou a mostrar que outros segmentos da população poderiam ser ouvidos, e isso poderia ser uma forma de protesto. Com isso, a classe universitária passou a ter um papel importante na cultura a partir dos anos 1960 e falar dos problemas sociais no país. Nesta época, a ditadura militar limitou o espaço da poesia impressa, e a canção popular foi ocupando este espaço fundamental, um vazio deixado pelo lirismo da poesia. A música passou a falar mais da relação entre as pessoas, de seus valores, e isso é uma parte essencial da construção social. Quando surgiram as canções de protesto, isso é ainda mais evidente: muitos problemas nacionais foram discutidos pela via musical. Neste coro de descontentes, Chico Buarque foi um deles, no grupo que também tinha Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré e muitos outros. Mas a obra do Chico, com cerca de 500 composições amplamente conhecidas, não se restringe a isso.

- Como você aborda esta obra tão ampla em seus estudos?

- Em primeiro lugar, analiso o papel do compositor popular a partir do conteúdo poético de suas letras, sobretudo a partir dos anos 1960, quando a publicação dos encartes dos discos passou a se tornar popular - e Chico foi um dos pioneiros dessa prática. Para estudar a obra de Chico, uso o termo 'cancionista' - em vez de compositor - que é quem tem consciência de sua composição, sabe que o peso da letra se iguala ao da melodia e das harmonizações e também é ciente de sua função: sublinhar sentido, sejam eles sociais, existenciais, enfim, quaisquer. Trago o olhar contemporâneo sobre canções que retratam um momento no passado, que o Chico mesmo considera datado. Mas talvez porque ele, Chico, não se reconheça mais naquelas letras, porque ele é um artista que incorporou a passagem do tempo.

- De que forma essa relação com o tempo aparece no trabalho dele?

- O tempo sempre marca presença ao longo da obra do Chico. Por exemplo em "Baioque" (1972), quando ele diz: "Quando eu canto, que se cuide quem não for meu irmão/ O meu canto, punhalada, não conhece o perdão", isso é o retrato de uma época de rebeldia, do jovem artista que ele foi. Mas esse espírito é, de fato, inerente aos jovens, que têm energia para contestarem a conformidade. O Chico pode não se reconhecer mais neste espírito, mas a canção em si não ficou atemporal. Já no fim dos anos 1980, ele fala, em "Todo sentimento", "Te encontro com certeza/ Talvez num tempo da delicadeza". Quando é que um jovem de 18, 20 anos vai ter a serenidade para falar em tempo da delicadeza? Então, na obra do Chico, este traço é muito visível. Há, nas letras, uma grande intensidade, uma urgência, algo mais passional, até mais ou menos os anos 1980 e depois uma certa tranquilidade em sua lírica, só possível devido a um amadurecimento dele próprio como sujeito existência, que se refletem também em seu amadurecimento como artista.

- Isso parece ser ainda mais claro no seu último disco, "Chico", de 2011...

- E é! Neste disco, em "Querido diário", ele toma uma voz lírica como se estivesse escrevendo um diário, algo normalmente atribuído às mulheres, sobretudo mais jovens. No entanto, ao longo da letra, descobrimos que o eu lírico é um homem. Isso também mostra que a tão falada compreensão de Chico sobre o universo feminino vai além de meramente utilizar um eu lírico feminino, mas de se debruçar sobre a sensibilidade e o universo da mulher mesmo, ainda que não esteja se posicionando poeticamente como uma. Outra canção interessante é "Barafunda", em que ele brinca como esquecimento de fatos, inerente ao avanço da idade, em versos como "...Foi na Penha, não, foi na Glória/Gravei na memória, mas perdi a senha / Misturam-se os fatos, as fotos são velhas...". Também em "Essa pequena", ele brinca com a diferença de idade entre ele (de 70 anos) e a namorada (a cantora Thaís Gulin, de 33 anos), para quem escreveu a canção: "Meu tempo é curto/O tempo dela sobra/ Meu cabelo é cinza/O dela é cor de abóbora". Então o que vemos é um homem de 70 anos que se reconhece como tal e tem passagem do tempo inspiração para sua poética. É muito interessante observar esta evolução da relação com o tempo ao longo dos anos na obra de Chico.

- Chico possui também algumas "personas" poéticas: político, lírico, sambista etc. Isso também está relacionado à passagem do tempo?

- Não necessariamente. Estava pensando sobre isso outro dia, e acho que essas facetas se misturam. O Chico apareceu para o país com uns 20 anos, cantando "A banda", considerada um tanto alienada para o período, em plena ditadura. Só que, nesta época, ele já tinha composto "Pedro pedreiro", que fala da classe trabalhadora. "Construção", um dos ícones desta temática, só foi composta muitos anos depois. Então não dá para dizer: primeiro veio o "Chico político", depois o "Chico lírico". Essas personalidades musicais se misturam ao longo dos anos e da obra, ele não assume uma só de forma exclusiva em momento algum.

- Em estudos anteriores, você propôs que, a partir de um determinado momento, Chico deixou de ter uma postura moderna e passou a se posicionar como pós-moderno. De que forma?

- Em "Baioque", por exemplo, ele renega o espaço da tradição e manifesta o desejo de participar de um novo mundo, que não é o que ele vive, ao som de "Ipanema, cinema e televisão". Ele refuta o tradicionalismo do "Baião" e quer o "Baioque", baião com rock, algo distinto da tradição de onde vem. Isso é uma característica clara dos modernistas, a antropofagia. Já em "Paratodos" (1993) o movimento é inverso, de inclusão. Na letra da canção-título do álbum, ele inclui artistas de tendências diversas ligados à canção brasileira, diversas origens que formam sua identidade como sujeito e como cidadão ( O meu pai era paulista/Meu avô pernambucano/ O meu bisavô mineiro/ Meu tataravô baiano...), e esta inclusão está ligada ao pós-modernismo, ao "tudo ao mesmo tempo e agora".

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