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15 de Junho de 2014 - 06:00

Projeto de exibição de curtas-metragens locais nas praças de Juiz de Fora alcança novo público e pode voltar a acontecer ainda este ano

Por JÚLIO BLACK

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Equipe grava depoimento de Luzia, que contou várias histórias
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Abordado pela diretora Cláudia Rangel, João vive na Praça da Estação
Abordado pela diretora Cláudia Rangel, João vive na Praça da Estação
Há mais de dez anos na rua, Marcão foi um dos entrevistados de "Habita-me se em ti transito", que tem na produção Big Charles (som direto e trilha sonora)
Há mais de dez anos na rua, Marcão foi um dos entrevistados de "Habita-me se em ti transito", que tem na produção Big Charles (som direto e trilha sonora)
A última exibição do "Cinema na praça", em maio, reuniu cerca de 60 pessoas no Bairro Santa Luzia
A última exibição do "Cinema na praça", em maio, reuniu cerca de 60 pessoas no Bairro Santa Luzia

Os moradores de Juiz de Fora tiveram a oportunidade, em maio, de conhecer um pouco mais da produção audiovisual feita na cidade, com a exibição de diversos curtas-metragens por meio do projeto "Cinema na praça - mostra de curtas locais", integrante da iniciativa "Maio cultural".

Vinte curtas foram apresentados nas quatro exibições, realizadas nos bairros São Mateus e Santa Luzia e Centro da cidade (praças da Estação e Antônio Carlos). De acordo com a produtora cultural da Funalfa, Giovana Bellini, a primeira exibição, no São Mateus, foi a de melhor público, com cerca de 120 pessoas, com as demais oscilando entre 50 e 80 espectadores, o que leva a Funalfa a estudar a possibilidade de repetir, em breve, o projeto.

"Não esperávamos alcançar tanta gente", diz Giovana, acrescentando que a participação dos diretores foi essencial para levar o público até as exibições em locais escolhidos não só pela estrutura, mas também pelo grande movimento. "Muita gente sem ligação com o cinema compareceu, como moradores das localidades e a população em situação de rua, que muitas vezes não têm condições de ir a uma sala de exibição. Também tivemos pessoas que costumam ir ao cinema mas não assistem a curtas-metragens, inclusive aquelas que sequer sabiam que havia essa produção em Juiz de Fora. Uma senhora que conversou comigo no São Mateus, por exemplo, não sabia que existiam os curtas."

Ter o trabalho produzido em Juiz de Fora, explica Giovana, era um dos critérios para que os filmes de curta duração pudessem ser exibidos. Dos selecionados, foi possível conferir as produções de Weiller Vilela, Diego Casanova, Cassinho, Adriana Barata, Alfredo Suppia, Léo Ribeiro, Nilson Alvarenga, Rodrigo Brandão, Marcos Bertoni, Mariana Tavares, Vanessa Resende, Guilherme Landim e Cláudia Rangel, entre outros, desenvolvidas por meio da Lei Murilo Mendes ou de forma independente.

 

 

Aprovado por todos

A última exibição do "Cinema na praça" foi realizada na Praça Padre Geraldo Pelzers, no Santa Luzia, no dia 26 de maio, e acompanhada pela Tribuna. No início, às 19h, o público ainda era pouco, mas aos poucos a plateia foi aumentando, e, meia hora depois, cerca de 60 pessoas assistiam aos curtas, seja nas cadeiras oferecidas pela produção ou sentadas nos bancos da praça, à distância. Fã de cinema, a estudante Tamara Martins, 18 anos, viu nos trabalhos um incentivo para que os jovens participem também como criadores, e não mais como espectadores. "E deveríamos ter cursos para cinema, teatro, na cidade, ir além", defende.

Acompanhada do marido, a professora Cristina Rogério Toledo, 59 anos, comparou o evento à ocasião em que assistiu a um filme ao ar livre no Rio de Janeiro. "Gostei de assistir ao cinejornal do Carriço, é bom para manter viva a nossa história. Vou recomendar para os outros", afirmou. Quem também elogiou a iniciativa de não se deixar a história de Juiz de Fora cair no esquecimento foi o aposentado Nélio Rogério Pinheiro, 60 anos. "É um projeto de muita importância para a vida cultural do bairro e da cidade, ainda mais com o resgate da memória do nosso município, pois o povo esquece de tudo muito fácil. Sem história não há memória."

Integrante da equipe do produção da Funalfa presente no local, Marcelo Gama destacou que projetos do tipo já são realizados em cidades como São Paulo, Ouro Preto e Rio de Janeiro. "Buscamos exibir filmes que não passam em cinemas e também não são encontrados em locadoras. O objetivo é trazer o público aos poucos, lapidar essa proposta e continuar a apresentar a produção local", disse ele. Segundo Giovana, há o desejo por parte da Funalfa de continuar com o projeto. "Vimos que funciona. Queremos colocar a mostra em outros bairros, com produções que não entraram desta vez. Vamos pensar em como colocar essa iniciativa dentro da nossa programação do restante do ano."

Para Rodrigo Brandão, que produziu ao lado de Gabriel Almeida e Weiller Vilela o curta "Um de nós morre hoje", de 2013 - e que foi exibido na Praça da Estação -, a mostra permitiu levar a produção independente que, muitas vezes, fica à margem do grande público. "Estive em todas as exibições da mostra e foi diferente, pois costumamos ter oportunidade apenas em festivais. Tem muita coisa que ainda não é conhecida." Weiller Vilela compartilha do entusiasmo do colega. "A iniciativa ajuda a promover os curtas-metragens da região e aumenta o contato com o público acostumado apenas com os cinemas de shopping centers", argumenta o cineasta, que também tem no currículo (com Rodrigo) os curtas "A maleta", "Era dos mortos" e "Entrega especial". Além disso, a dupla já está na pré-produção de "1996", misto de ficção científica e suspense que pode ir um pouco além e virar média-metragem.

 

A rua que fingimos não existir

Há um verdadeiro universo paralelo nas ruas, calçadas e praças das grandes cidades que muitos fingem não existir, formado por gente como a gente que, por algum motivo, deixou seus lares, vidas e entes queridos, preferindo ou precisando encarar a chuva, o frio e as doenças ao preço de sua dignidade. São essas pessoas "invisíveis" e os conceitos de "habitar" e "transitar" os temas do documentário "Habita-me se em ti transito", produzido em Juiz de Fora através da Lei Murilo Mendes pela estudante de comunicação social Cláudia Rangel e Guilherme Landim, formado no mesmo curso, e lançado no "Cinema na praça".

O trabalho é o resultado de dois anos e meio de pesquisas, entrevistas e filmagens com a população em situação de rua da cidade, além da edição de todo o material. Em pouco mais de 20 minutos, é possível conhecer um pouco da difícil vida de dez pessoas que sobreviviam enfrentando as duras condições da cidade grande, em depoimentos ora tristes, ora chocantes e até mesmo bem-humorados, mas que servem para o espectador refletir sobre o mundo em que vivemos.

De acordo com Cláudia, a primeira questão que levou a dupla a pensar o documentário foi a relação deles com os espaços urbanos - observado anteriormente em "Getúlio, que horas são?", sobre uma das principais vias da cidade (a Getúlio Vargas). Para ela, havia a necessidade de abordar outras temáticas relativas ao tema, questão também reconhecida por Guilherme. "A gente tinha essa pesquisa relacionada aos espaços urbanos e pensou na população em situação de rua como aquela que melhor poderia apresentar esse espaço", diz Guilherme, ressaltando que foram realizadas pesquisas bibliográficas, de campo e filmográficas antes de as câmeras serem ligadas, junto a entrevistas com assistentes sociais e contatos com o sistema de assistência social do município, para saber o que leva tanta gente às ruas.

Eles participaram ainda, por um ano, das reuniões mensais do Fórum Municipal de População de Rua, implementado pelo Governo Municipal. A dupla ressalta a pouca visibilidade desse grupo, que não é contado pelo IBGE por não possuir residência. "Identificamos que existe pouco material relacionado à população que vive nas ruas", acrescenta Cláudia.

O passo seguinte - saber quem entrevistar - teve momentos distintos, com algumas da pessoas procuradas sendo receptivas à equipe e outras que se recusaram a ser entrevistadas - entre outros motivos, por vergonha da exposição. "Entrevistamos 18 pessoas no decorrer do trabalho e escolhemos dez. Foi um pouco difícil o primeiro contato, mas procuramos estabelecer uma relação amigável, não chegávamos gravando na hora. Fazíamos o contato, acompanhávamos os entrevistados por um tempo, e só depois acontecia a gravação, no momento oportuno, para que as entrevistas fossem mais espontâneas", conta Cláudia. Segundo ela, uma das questões primordiais para o sucesso na relação entre eles foi nunca imaginar a casa como "a situação ideal", enquanto a rua seria o errado. "Alguns deles conseguem levar até uma vida na rua. Eles têm outras expectativas, diferentes das nossas, às vezes devido ao crack, à bebida, muitos tiveram toda uma história familiar, econômica, que os levou a essa situação."

 

 

Realidade sob outro ponto de vista

Mesmo após a finalização das filmagens, Cláudia e Guilherme mantiveram contato com parte dos entrevistados, o que permitiu saber que dois deles saíram da situação de rua - mesmo que, ressaltam, nem sempre essa situação seja definitiva. "Com alguns, temos até uma certa amizade. Sempre encontramos o João na Praça da Estação, conversamos com ele, comemos um lanche juntos", diz Guilherme.

Nem todas as histórias, porém, têm um final feliz, caso de um dos "trecheiros" (andarilhos) que aparecem no documentário. "Dizem que o Emerson faleceu, mas não temos certeza. Não encontramos registro do óbito. O amigo dele, Fabiano, saiu de Juiz de Fora há algum tempo, mas parece que já voltou", relata Cláudia. "A gravação do filme terminou há um ano, e nesse tempo temos observado a decadência cada vez maior por parte deles. Eles estão expostos a condições de frio, doenças, e muitas vezes as drogas fazem com que percam essa sensibilidade (quanto à situação)", acrescenta Guilherme, que aproveita para questionar se a sociedade está preparada para trazer a população em condição de rua para o nosso universo "convencional". "Para muitos deles, a rua é a metáfora para a liberdade, mesmo que o vício esteja atrelado a isso. A rua pode ser o vício, também. A gente levava contato do albergue, de instituições que muitos deles já conheciam, mas eles reclamavam dos lugares devido à liberdade que têm na rua. Não querem ter horário para tomar banho, comer, nesse locais não podem fumar ou beber, e nas ruas é o oposto. Mas esses locais são muito procurados quando chega o frio."

 Reações

As histórias dos entrevistados podem impressionar muitos - e isso tem sido observado nas exibições, assistidas por mais de mil pessoas em Juiz de Fora. Cláudia conta que muitas pessoas ficam chocadas com os depoimentos. "Isso até pode fazer parte da realidade delas, mas é ignorado. Recebemos elogios pela espontaneidade das falas, pelos temas trabalhados. Isso suscita discussões sobre problemas que estão enraizados, como o racismo, a marginalização", acredita. "Esperamos que a segurança pública e a sociedade pensem nessa população que vive nas ruas como gente comum, que tem suas histórias antes de chegar àquele ponto, sua vivência, seus direitos, mesmo onde estão."

Para alcançar o resultado, o trabalho foi elaborado tendo o estilo etnográfico de documentário como inspiração. Com isso, foram descartados elementos conhecidos como a narração em off ou a participação de especialistas para explicar ou apresentar soluções. Na tela, apenas os entrevistados aparecem contando suas vidas ou como percebem suas situações e o mundo. "'Habita-me...' é resultado da nossa relação com eles e as histórias que passaram para nós naquele momento. É a imagem que eles querem passar com a história que a gente teve com os entrevistados. Entramos no 'tempo' deles, ouvindo, e isso é muito importante, porque eles querem ser ouvidos. Quebramos muitos tabus nossos", disse Guilherme. "Às vezes, na universidade, vivemos num contexto de discussões, utopia, a coisa poética; você chega na rua, e é outra história, você tem o cheiro, a violência, o sangue. Você fica exposto ali, com a câmera, não está mais pesquisando no seu quarto, no ar-condicionado da faculdade". "Foi um grande aprendizado, que nenhuma universidade daria", acrescenta Cláudia.

O próximo passo da dupla de documentaristas é lançar o trabalho em DVD, participar de festivais nacionais e internacionais e, futuramente, disponibilizar "Habite-me..." na internet. Quem quiser obter mais informações sobre o documentário pode acessar o site www.habitame.com.br ou a página criada pelos dois no Facebook (www.facebook.com/Habitame?fref=ts).

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