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25 de Maio de 2014 - 06:00

Livro resgata tradição do cineclubismo em Juiz de Fora, que influenciou diferentes gerações de cinéfilos, intelectuais e realizadores

Por JÚLIA PESSÔA

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Augusto, Neusa Dutra, Walter Sebastião e Décio Lopes na X Jornada de Cineclubes de Juiz de Fora
Augusto, Neusa Dutra, Walter Sebastião e Décio Lopes na X Jornada de Cineclubes de Juiz de Fora
Alceu (de pé), Milton Dutra , Fernando Camarota (sentados) e Décio Lopes em frente ao cartaz com colagens de jornal em tamanho de tela de cinema
Alceu (de pé), Milton Dutra , Fernando Camarota (sentados) e Décio Lopes em frente ao cartaz com colagens de jornal em tamanho de tela de cinema
Christina Musse é coautora de livro que resgata história do cineclubismo
Christina Musse é coautora de livro que resgata história do cineclubismo

"As teorias e as utopias circulavam, apesar das turbulências políticas, e nos sentíamos seus cúmplices ou parceiros. São lembranças marcadas por um cenário em que nossas atividades eram também uma forma de viver perigosamente." Cinema, resistência, amizade, engajamento, idealismo. É passeando por tais referências que o jornalista e professor da UFRJ Rogério Bitarelli recorda seus tempos, em plena ditadura militar, no Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), importante cineclube e polo de difusão cultural que operou em Juiz de Fora entre 1957 e 1977.

"Meu ingresso ocorreu no final de 1965, e fiquei até 1971. Foi um momento decisivo e muito importante em minha trajetória intelectual, que começava a se desenvolver. Para nós, o cineclube era um ambiente de formação cultural e política. Dividíamos as funções de dirigentes com as de estudiosos e pesquisadores e promovíamos a apreciação dos filmes por meio da análise de seus conteúdos, com uma busca de valores éticos e estéticos", comenta Bitarelli, que foi um dos dirigentes do CEC, ao lado de Décio Lopes, Milton Dutra e Reuder Teixeira.

Fundado pelo escritor Affonso Romano de Sant'Anna e Luiz Affonso Pedreira, o CEC foi criado com o objetivo de ser uma entidade cultural voltada para o estudo e a apreciação do cinema como arte. A ideia para a criação do cineclube veio de um bate-papo de seus dois fundadores, após uma sessão do Cine Palace. Essas e outras histórias do CEC, do cineclubismo e da tradição do cinema em Juiz de Fora são contadas no livro "Memórias do cineclubismo- A trajetória do CEC", de Haydêe Sant'Ana Arantes e Christina Musse, lançado na próxima terça no Fórum da Cultura.

Segundo a professora da UFJF Christina Musse, a intenção da publicação, que é parte da tese de mestrado defendida por Haydêe, foi resgatar a importância do movimento cineclubista para a história cultural de Juiz de Fora, indo além dos registros oficiais de sua atuação na cidade. "Existem determinados períodos da história que não podem ser contados apenas pelo documento, não basta. O silêncio fala, a emoção fala, e, por meio de personagens que vivenciaram aquilo, consegue-se chegar a uma riqueza enorme de informações sempre contaminada por sentimentos, pelos afetos, por uma reconstrução que abarca a lembrança e o esquecimento inerentes à memória", destaca a professora.

Entre os personagens que participaram da vida cultural do CEC, que em muitos dos anos de seu funcionamento confunde-se com a da cidade, está a jornalista Neusa Dutra, casada com o já falecido jornalista e crítico de cinema Décio Lopes e que frequentou muitas sessões no início dos anos 1970. Nesta época, o CEC estava em seu auge, situado na Galeria de Arte Celina, ponto de efervescência cultural e encontro de artistas, intelectuais e diversas pessoas ligadas de alguma forma à cultura naquele momento. "Foi uma revolução cultural que transcendia o cinema, e deixou para outras gerações o legado de que o cinema de arte não é algo inalcançável, e que é possível raciocinar, discutir o que se passa na tela sem que aquilo perca seu poder de entreter", observa Neusa.

Para a jornalista, hoje com 70 anos, entre as memórias do período, está a liberdade com que se podia debater cultura, ainda que em meio às restrições impostas pelo regime ditatorial. "Éramos nós que realizávamos aquele debate. Tínhamos apoio da universidade, da Prefeitura, da Aliança Francesa, do DCE, que são órgãos que até hoje promovem a cultura, mas, naquela época, eram apoiadores. O encontro intelectual e social só acontecia porque não estava ligado a instituições oficiais. Os melhores debates aconteceram com seus participantes sentados no chão, a altas horas da madrugada."

 

Resistência e o espírito libertário

Para a professora Christina Musse, o CEC é um retrato de algumas gerações para as quais o cinema era um importante espaço de convivência. "O cineclube e mesmo os grandes cinemas foram muito importantes para aquela juventude que via na sétima arte uma possibilidade de conhecer e vivenciar o mundo, em uma época em que a TV tinha alcance restrito e viajar era muito mais difícil. Para estas gerações, o cinema teve um papel pedagógico, muitas vezes libertário, que despertou uma série de atitudes que comungavam com os ideais que eles viam nas telas", observa a pesquisadora.

Integrante da diretoria do cineclube entre 1960 e 1970, o produtor cultural Milton Dutra (irmão de Neusa) era um dos que tiveram seus horizontes ampliados pelas projeções em 16mm dos filmes exibidos no CEC por meio de um projetor emprestado pela Aliança Francesa. "O cineclube era só um reflexo de um movimento cultural muito significativo e que tinha um grande fluxo de conhecimento entre pessoas e expressões artísticas. Foi uma época muito produtiva do teatro com o Grupo Divulgação e o Teatro Universitário, o "Som aberto", projeto musical da UFJF, a produção de artes plásticas da Galeria Celina, entre várias outras produções culturais. Acho que tudo isso tinha uma repercussão proporcionalmente maior em relação ao que se faz hoje em dia, porque a cidade tinha cerca de 200 mil habitantes, vivíamos em um período de censura e não tínhamos recursos financeiros ou tecnológicos para a difusão de ideias e ideais", observa.

Segundo Milton, embora o CEC não tivesse uma atuação política propriamente dita, as atividades lá realizadas - entre exibições de filmes, realização de cursos, festivais e debates - representavam, de certa forma, uma oposição ao regime militar, o que rendeu aos dirigentes algumas convocações ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops) para prestação de esclarecimentos. "Na concepção da ditadura, nossa atividade era claramente subversiva, porque promovíamos a ampliação das liberdades intelectuais, inconcebível para aquele regime opressor. Além disso, tínhamos contato com as embaixadas de países comunistas e socialistas que tinham uma produção cinematográfica expressiva no período, como a Polônia e a Iugoslávia, e, embora nosso interesse fosse só nos filmes, isso era tido como afronta."

Entre as memórias do CEC como instrumento de resistência, o jornalista Rogério Bitarelli destaca a realização de dois festivais de cinema brasileiro em 1966 e 1977, que transformaram o cineclube em reduto do Cinema Novo, com a exibição de filmes como o clássico "Terra em transe", de Glauber Rocha, que discutia o explosivo contexto político latino-americano. "Tínhamos uma crença muito grande no Cinema Novo, aquela possibilidade dadivosa de construir obras, leituras e indagações sobre a realidade brasileira. Tudo o que se buscava estava no imaginário de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos e de outros cineastas que adotavam, através de uma nova linguagem audiovisual, uma visão etnográfica e sociológica do homem brasileiro e uma discussão mais ampla da situação política e cultural da América Latina", diz Bitarelli.

 

Legado para outras gerações

Durante seu período de atuação na cidade, o CEC promoveu o acesso a importantes vertentes da cinematografia nacional e mundial, como a Nouvelle Vague francesa (Godard, Resnais, Truffaut), a eclosão do cinema moderno europeu (Antonioni, Fellini, Visconti, Bergman) e o Cinema Novo brasileiro ( Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Cacá Diegues, Walter Lima Jr., Leon Hirzsman), acervos normalmente obtidos junto a embaixadas de países estrangeiros, ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e mesmo a locadoras da cidade que possuíam filmes em película. "Isso tudo é o apogeu do cinema moderno, das propostas inovadoras nos domínios do estético e do ideológico", opina o Rogério Bitarelli.

O CEC também impulsionou a produção local, já que membros como Décio Lopes, Eugênio Malta e Marcelo Mega chegaram a produzir alguns filmes em Super 8. Para a professora Christina Musse, toda esta contribuição do CEC, segundo maior cineclube de Minas Gerais, perdendo apenas para a capital, fortalece a tradição de Juiz de Fora na sétima arte, marcada por momentos como a primeira exibição cinematográfica do estado e o pioneirismo das sessões de João Carriço com seus cinejornais. "O CEC acaba, mas a tradição - que o antecede - continua, com a fundação de outros cineclubes e de iniciativas como o Festival Primeiro Plano, a criação do bacharelado de cinema no Instituto de Artes e Design da UFJF. Juiz de Fora nunca se conformou em ser uma cidade de passagem, sempre buscou afirmar uma identidade, e a cultura tem um papel muito importante neste processo", analisa a professora.

 

Mantendo a tradição

Para Marília Lima, coordenadora de mídia e divulgação do Festival Primeiro Plano, uma das contribuições mais importantes do cineclubismo em Juiz de Fora para as gerações atuais é a formação histórica de público para o cinema, composto por espectadores que não apenas assistem aos filmes, mas os discutem e analisam. "Isso aproxima o cinema do espectador. Deixa de ser um entretenimento para ser algo que gera discussões tanto de conteúdo do filme quanto de sua forma narrativa, e é a mesma motivação que leva as pessoas para os festivais como o Primeiro Plano, criado justamente com o interesse de aprofundar o debate acerca da arte cinematográfica", observa ela. "O próprio Luzes da Cidade - Grupo de Cinéfilos e Produtores Culturais, que produz o festival, já realizou várias mostras de cinema no formato de cineclube", completa Marília.

Um dos fundadores e mantenedores do Cineclube Bordel Sem Paredes, que tem sessões semanais atualmente exibidas no CCBM, Daiverson Machado destaca a importância de estreitar ainda mais a relação histórica de Juiz de Fora com o cinema. "O Festival Primeiro Plano é o maior evento de cinema atualmente, mas é sazonal. Sentia falta de algo periódico, que promovesse uma relação que começou lá atrás e tocasse a memória afetiva das pessoas, oferecendo filmes que fogem ao padrão comercial, permitindo que as pessoas vejam o cinema como uma forma de reflexão do mundo. Certamente os movimentos históricos abriram caminho para que isso continue acontecendo."

Na opinião de Haydêe Sant'Ana, a maior herança que o CEC deixou para a cidade foi o despertar de novos olhares para a cultura em Juiz de Fora, legado que contribui, inclusive, para abertura de importantes espaços e movimentos culturais da história local, como a criação do Espaço Cultural de Artes & Livros, em 1982, por Rogério de Campos Teixeira, na tentativa de reviver a ambiência da Galeria de Arte Celina. "As pessoas que passaram pelo cineclube são imbuídas de uma sensibilidade pela cultura. O CEC deu origem aos mais diversos tipos de profissionais: jornalistas, críticos de cinema, artistas plásticos, músicos, poetas, entre outros. E foram pessoas engajadas no cineclube que continuaram escrevendo a história da cultura da cidade."

 

"Memórias do cineclubismo"

Lançamento de livro

 Dia 27, às 20h

 Forum da Cultura

(Rua Santo Antônio 1.112) 

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