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18 de Maio de 2014 - 06:00

Obras de arte de Murilo Mendes, doadas à UFJF em 1993, ainda estão em Portugal e configuram impasse duradouro

Por MAURO MORAIS

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Murilo Mendes: obras são alvo de polêmica na família
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Guache de Magritte, que pode valer mais de R$ 1,5 milhão, está entre os trabalhos que o atual reitor espera conseguir com urgência
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"Nunca me ocupei com essas coisas, parecia-me vaidade, mas agora atingi 70 anos, a coisa mudou, e não tenho filhos. Estou cercado de papel por todos os lados, de escritos (meus) inéditos, para não falar da quadraria. Quando desaparecermos, Saudade e eu, não sei onde irá parar tudo isso", escreveu Murilo Mendes em 6 de dezembro de 1971, em carta endereçada a Laís Corrêa de Araújo, amiga brasileira e também escritora. Já no fim da vida, o poeta juiz-forano se preocupava com o que colecionara durante toda a vida. Para os livros, determinou que, ao partir, fossem doados à UFJF, sobretudo a literatura estrangeira. Quanto à porção brasileira de sua biblioteca, desejou que fosse transferida para a Universidade de Roma, da qual foi professor. Contudo, sua pinacoteca - a quadraria a qual se refere na missiva -, não foi alvo de indicação referente à sua destinação após a morte do escritor que, ao longo da vida, estreitou seus laços com o universo dos pincéis. Vinte e nove anos após sua despedida, e passados 21 anos da doação da coleção pictórica de Murilo à UFJF, alguns dos trabalhos continuam em Portugal, terra de sua esposa e lugar de sua morte. Apesar de pertencerem à universidade, as obras não integram, ainda, o acervo de arte do poeta, alocado no museu que leva o seu nome. Mais que financeira, já que em termos de valor de mercado orbita em milhões de reais, a ausência se configura como importante lacuna afetiva no projeto de reunião do legado do autor de "A idade do serrote".

Segundo o reitor da UFJF, o professor Henrique Duque, todas as tentativas de negociação amigável já foram esgotadas. Agora, o caso envolvendo um dos maiores ingressos de obras de arte internacionais no Brasil, na década de 1990, deve ganhar novos contornos. "Iremos à Brasília conversar com Angelo Oswaldo, presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), para que acionemos a justiça internacional. Ele acompanhou os trâmites da doação e já demonstrou interesse em nos ajudar. Isso é nosso e deve estar aqui", afirma Duque.

Firmado em 13 de setembro de 1993, na Embaixada do Brasil em Lisboa, o contrato de transferência do acervo de arte de Murilo foi assinado pela então herdeira e esposa Maria da Saudade Cortesão Mendes e pelo pró-reitor de planejamento da UFJF na época, professor Evandro Maia Costa, com a ciência e incentivo do Ministério da Educação e do Desporto, comandado, durante o Governo Itamar Franco, por Murílio Hingel. Envolvendo cerca de 150 obras, o contrato, o qual a Tribuna teve acesso, previa um pagamento simbólico pelas obras de artistas estrangeiros, avaliadas pelo arquiteto José Sommer Ribeiro - diretor do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, uma das mais respeitadas instituições do mundo - em pouco mais de US$ 1 milhão na época.

De acordo com o professor do Instituto de Artes da UFJF José Alberto Pinho Neves, responsável por acompanhar as negociações e todos os trâmites envolvendo o acervo, o desejo da viúva era de que a universidade lhe oferecesse uma espécie de pensão vitalícia pela coleção. Porém, como tal gesto era impossível, foi negociado um valor que possibilitasse a ela uma vida digna em solo português, o que justifica o depósito em uma conta suíça, já que todo o montante estaria livre dos grandes impostos portugueses. Pagos no mesmo ano, através de repasse do Ministério da Educação e do Desporto, os U$ 500 mil aceitos por Maria da Saudade significavam, no Brasil, uma quantia alta, porém bem menor do que os atuais empreendimentos da universidade, além de não representar o preço real das peças. Segundo dados do Banco Central do Brasil, U$ 1 equivalia a CR$ 105,86 (cruzeiros reais, moeda em vigor) quando foi realizada a assinatura do contrato. Corrigida segundo o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), a quantia valeria hoje pouco mais de R$ 2,6 milhões.

Patrimônio público

Conforme indica o parágrafo segundo da cláusula quinta do documento, Maria da Saudade teria o "direito de conservar e reter em sua posse, até quando desejar, as obras relacionadas em anexo, parte integrante do acervo, ora transacionado, no 'Centro de Estudos Murilo Mendes' da UFJF". De valor afetivo para a viúva, as 24 obras que não chegaram ao Brasil decoravam seu apartamento e não possuem avaliação atual. "Quando foi para a casa de repouso, não tivemos mais aproximação com a Maria da Saudade. As questões eram tratadas pelo advogado. Foi quando começamos a esclarecer pontos divergentes", aponta José Alberto Pinho Neves, recordando-se da disposição das obras nas paredes da residência do casal e assinalando que todas as diferenças nunca configuraram descumprimento do acordo.

Conforme aponta o reitor Henrique Duque, o testamento da viúva ainda não foi fechado justamente pelo imbróglio. Os seis herdeiros, sobrinhos de Maria da Saudade, alegam que a universidade já recebeu as obras e a todo momento questionam a lista anexa ao contrato. Feita a partir de um catálogo de uma exposição realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a antiga lista acaba de ser revisada pela UFJF. Encadernado e contendo muitas fotos, o calhamaço descreve tudo que chegou e tudo que permaneceu em solo português, incluindo duas obras que foram incendiadas em um quarto da residência, quando a viúva ainda era viva. "Fomos a Portugal e nos reunimos com os herdeiros e o advogado. Foram dois dias de um grande embate. Eles querem negociar o que é nosso, e isso não pode acontecer", defende Duque.

A viagem feita pela universidade se deu logo depois que Maria da Saudade partiu, em 2010. Nos anos finais da viúva, ela já não habitava mais a casa onde ficavam os quadros, e, por isso, a universidade tentou negociar a vinda das obras restantes, sem sucesso. O impasse, cuja duração caminha para uma década, é reforçado pela valorização dos 24 trabalhos que estão em Portugal. Entre eles, está um guache e aquarela sobre papel da série "Le séducteur", assinado pelo surrealista belga René Magritte. Em 2010, uma das maiores casas de leilões do mundo, a Christie's, leiloou uma obra semelhante, da mesma série, por £421.250,00, o equivalente a aproximadamente R$ 1,5 milhão. "A valorização do mercado de arte foi muito diferente da valorização da moeda. Aí é que está a grande jogada da universidade. É como se a UFJF tivesse feito um investimento, mas isso representa muito mais, significa uma ação em determinado momento que nenhuma outra universidade no Brasil fazia", comenta Pinho Neves. "Não norteou a universidade o valor comercial dessas obras, mas o valor afetivo, de memória, de arquivo, com a possibilidade de investigação que isso pode representar", completa Pinho Neves.

Das outras obras que constam entre as 24 ainda em Portugal, estão uma litografia seriada de Marc Chagal, pinturas e um prato de cerâmica de Vieira da Silva, retrato de Murilo feito por Arpad Szenes, uma aquarela que reproduz a silhueta do poeta executada por Ismael Nery, entre outros de valor menor que o de René Magritte, mas significativo da relação do escritor com as artes plásticas. "Obviamente que todas as obras resgatadas pelo Brasil é uma forma de não apenas valorizarmos, como completarmos esse acervo. Dentro do princípio arquivístico, devemos visar a maior completude possível", pontua a professora e pesquisadora Marisa Timponi, coautora, ao lado de Leila Barbosa, do livro "Ismael Nery e Murilo Mendes - Reflexos". "Isso é um bem da universidade. A recuperação dessas obras é de extrema importância para a coleção. Temos muita esperança de ver tudo isso sendo mantido e preservado com o mesmo cuidado e profissionalismo que as demais também recebem", assinala Nícea Helena Nogueira, diretora do Mamm. "Tenho urgência em resolver esse assunto, é justo com a instituição", acrescenta Pinho Neves, que defende, ainda, a reunião e uma possível recomposição de uma parcela do acervo do poeta que ficou no Museu de Arte Moderna do Rio, mas foi, aos poucos, vendida pelo próprio Murilo, além da aquisição de cartas e outros vestígios da realidade do poeta.

Procurados pela Tribuna, os herdeiros não quiseram se pronunciar. Também contatado, o advogado da família, João Laborinho Lúcio, responsável pelo setor de propriedade intelectual do Pedro Raposo & Associados, respondeu dizendo que os integrantes do escritório não estão "mandatados para prestar qualquer informação sobre este assunto".

Herdeiros (apenas) das lembranças

"Tio Murilo morreu meio que de repente. Ele sentiu que estava na hora, não iria viver muito mais, e quis voltar ao Brasil. Ele e a Saudade pararam em Portugal, e, em trânsito, ele acabou morrendo. Como ele se foi, ela ficou responsável, e como ela não tinha muita relação com a família dele, passou para quem era próximo dela", afirma a sobrinha-neta de Murilo Mendes, Rachel Mendes Stephaich. Em carta endereçada à escritora Laís Corrêa de Araújo, em 8 de setembro de 1975, a viúva Maria da Saudade Cortesão Mendes relata a aporia existencial que seu marido vinha sofrendo nos meses que precederam sua despedida: "Ele morreu duma síncope cardíaca, em poucos minutos, e penso que não teve tempo de sofrer, mas sofreu antes, durante meses, por sentir-se mal". Um dos questionamentos que o escritor juiz-forano fazia referia-se ao vasto material que reunira na casa em Roma, na Itália.

Herdeira do marido, naturalmente, Maria da Saudade, ao morrer, deixou seus bens aos sobrinhos, já que não tinha filhos. Os seis sobrinhos que hoje representam a obra de Murilo também são responsáveis pela obra do avô, o escritor e historiador português Jaime Cortesão, da mãe, a professora e ecologista Maria Judith Zuzarte Cortesão, do pai, o ensaísta e poeta português Agostinho da Silva, e da tia Saudade, que também deixou livros escritos. A grande demanda que recai sobre os herdeiros talvez tenha sido um dos motivos pelos quais a viúva resolveu doar a coleção do marido. De acordo com o cunhado Paulo Torres, marido da irmã caçula de Murilo, em seu livro de memórias "Trevo de quatro folhas", em 1988, o Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, interessou-se pela aquisição da pinacoteca do poeta, mas "por motivos de entraves burocráticos, não se concretizou".

Para ver todo o acervo reunido e, juntando a isso o fato de estar perto de parentes próximos do marido, Maria da Saudade resolveu por transferir as obras para a terra natal de Murilo. "Ela ficou feliz. Colocou várias restrições como, por exemplo, não queria que se chamasse 'museu'. Ela achava que parecia muito fúnebre e preferia 'centro de cultura'. Outros lugares do Brasil já haviam oferecido a ela trazer as obras e, em troca, fariam uma ala dedicada a ele. Mas ela não quis, desejava um prédio dedicado somente à produção dele. Ela tinha uma preocupação normal, queria o nome dele mais em evidência", comenta Rachel. "Na época, ela queria que eu ficasse sempre envolvida, para ver se eles estão preservando, cumprindo as cláusulas do contrato. Ela chegou a falar que queria que eu fosse a curadora. Eu não sabia se estava disposta a isso, talvez porque eu não precise dos frutos da obra, mas isso me faria conduzir uma gestão mais imparcial, pensando mais na obra."

Convidada e indicada pela viúva, Rachel integra a primeira formação de um conselho responsável por acompanhar a gestão do Museu de Arte Murilo Mendes. "Essa estruturação de conselho, de 2008, não está pronta até hoje e precisa passar pelo Conselho Superior da UFJF. Parei de me envolver e, passados seis anos, aguardo que isso seja implementado", lamenta a sobrinha-neta do poeta. Segundo José Alberto Pinho Neves, que acompanha o caso, um novo regimento do espaço prevê a atuação da família, mas ainda depende de trâmites burocráticos da UFJF.

Questão amarga

Hoje, todos os cinco irmãos de Murilo Mendes já se foram, mas diversos sobrinhos ainda residem na cidade, como Teresinha Mendes, que guarda na memória uma admiração presente desde os tempos de infância. "Quando morava no Rio de Janeiro, ao vir para Juiz de Fora, ele ficava hospedado na casa dos meus avós, onde eu morava. Tínhamos bastante contato. Depois que ele foi morar na Itália, nos víamos menos. Ele era muito espirituoso, engraçado, fazia sempre muitos gestos. Era diferente, até fisicamente: muito alto, calvo", diz. Onofre Mendes casou-se com Elisa Valentina Monteiro de Barros, com quem teve três filhos, entre eles Murilo. Com a morte da esposa, em 1902, Onofre casou-se novamente e teve mais três filhos, um deles era José Maria Mendes, pai de Teresinha, que viveu longos anos ao lado dos avós.

Sobrinha de Teresinha, Rachel Mendes Stephaich foi quem fez a mediação entre Murílio Hingel e Maria da Saudade em um jantar no dia 12 de maio de 1993. "Éramos bastante próximas. Ela tinha muita confiança em mim, dizia: 'todos os dias levanto as mãos para o céu e agradeço a Deus por ter me trazido você', com aquele sotaque português", lembra. Em 1996, Rachel organizou uma reunião da família Mendes, quando a viúva veio a Juiz de Fora e visitou o Centro de Estudos Murilo Mendes, local do encontro do clã. Apesar da cordialidade, a proximidade entre os Mendes e a esposa de Murilo não era tão grande. A partir do momento em que os sobrinhos de Maria da Saudade assumiram os diálogos, mais escassos foram os contatos. "Fui visitar a Carlota, sobrinha dela, uma vez, e ela me disse que não havia sumido nada. Ela me disse que um ou dois quadros foram roubados dentro do armário, e disse, ainda, que havia colocado algumas obras no banco, por medo de ficar em casa", comenta.

Mostrando-se indignada com um impasse aparentemente simples mas extremamente moroso, Rachel considera ser difícil reaver as 24 peças. "Não sei o que acontece. Acho que Carlota começou a colocar empecilhos. Cadê as obras? Alguma parte foi vendida para cobrir custos da doença da Saudade? Não sei. Quando falo com a Carlota nem toco mais nesse assunto, sei que é uma questão amarga", diz. Questionada sobre a possibilidade de os Mendes responderem tanto pelos direitos autorais de Murilo Mendes, quanto pelos outros assuntos que envolvem a herança intelectual do poeta, a sobrinha-neta é sincera: "Agora que a doação está feita, acredito que um dos Mendes desejaria muito mais promover o nome dele. Talvez fosse melhor, porque não há como estar pior, já que estão bloqueando tudo."

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