Publicidade

12 de Junho de 2014 - 06:00

ENTREVISTA/ Mauro Mendonça, ator

Por MARISA LOURES

Compartilhar
 
De passagem por Juiz de Fora, o ator global Mauro Mendonça passou pela redação da Tribuna
De passagem por Juiz de Fora, o ator global Mauro Mendonça passou pela redação da Tribuna

O senhor de cabelos brancos, bonachão e piadista, que esteve na Tribuna na tarde da última sexta-feira e parou para fotos com todos da redação, nem de longe lembrava o mau-caráter Rui, de "Anjo mau", e o trambiqueiro Evaldo, de "Água viva", produções globais reexibidas recentemente pelo Canal Viva. "O Evaldo era um cafajeste, e eu sou um cara tão certinho, tão comportado", brincou, provocando risos ao se recordar de ter dado vida a inúmeros "delinquentes e safados" da obra de Nelson Rodrigues. "Tenho muita facilidade para fazer cafajeste, mas, em compensação, também sou chamado para fazer homens ricos, poderosos, como rei, embaixador, presidente e senador. Acho que é por causa do meu biotipo", acredita Mauro Mendonça. O ator conversou com a Tribuna por aproximadamente uma hora antes de seguir o passeio por Juiz de Fora, Ibitipoca, Muriaé e Ubá. "Se as duas senhoras artroses que me perturbam me deixarem em paz, vou até Andrelândia."

Mauro também é filho das montanhas de Minas Gerais. É ubaense nascido em 1931. Depois de deixar a terra natal, foi para o Rio de Janeiro, onde se matriculou na escola do Serviço Nacional de Teatro. Nutria o sonho de fazer cinema. Embora seguir carreira na sétima arte fosse a meta, conquistou grandes papéis nas telinhas (no total foram 59 folhetins) e poucos de destaque nas telonas. "Mas fiz 'Dona Flor e seus dois maridos' e ganhei prêmio de melhor ator por esse personagem", conta o eterno Theodoro, um dos maridos da protagonista de Jorge Amado, para em seguida opinar sobre uma possível remontagem do filme dirigido por Bruno Barreto em 1976. Especula-se que a produção que foi recordista de público no cinema brasileiro por 34 anos, sendo desbancada somente por "Tropa de Elite", em 2010, voltará às salas de exibição do país em 2014. "Eles não têm coragem. Sem Wilker (José Wilker), Sônia (Braga) e Mauro Mendonça, vai ser péssimo. É a mesma coisa que refazer 'O bem amado'. Outra pessoa no lugar do Paulo Gracindo? Não dá. Tentaram fazer, mas não dá."

Tribuna - Tem projetos para a televisão?

Mauro Mendonça - Não sei o que está acontecendo comigo. Tanto falei quando me perguntavam: "você vai fazer uma novela agora"? E eu respondia: "vou sim: 'Tenho direito ao descanso'". Fiz tanta coisa. O pessoal ouviu isso e agora me deu um descanso enorme. Tenho um pouco de preguiça de fazer teatro. Já fiz muita peça e sofri muito, sou um cara sincero. Teatro não é verdade, mas é próximo da verdade, então é verdade. É um pouco de sadomasoquismo, quanto mais você for sincero, mais o público acredita, mais você sofre. Você sofre por uma coisa imaginária. Na televisão, o pessoal me falou que estou sendo cogitado para vários papéis, mas ainda não tem nada certo.

- Qual foi a última peça que fez?

- A última peça foi "Um barco para um sonho" (2007). Finalmente consegui trabalhar com a Tônia Carrero. Eu era doido para trabalhar com ela, mas ela não estava com muita saúde não. Várias vezes, quase caía. Tinha que ficar o tempo todo ajudando, segurando. Ela não fez mais nada depois.

- Você acabou de ser visto no Viva em "Anjo mau". Lembra de algum caso dessa época?

- Aconteceu uma coisa muito engraçada. O Carlos Manga era o produtor da novela e falou: "Mauro, se alguma figurinista quiser te dar alguma roupa, você não aceita, me chama". Ele vigiava toda a minha roupa. Tinha que ser absolutamente de acordo com o que ele imaginava.

- Você já disse que gostaria de ter feito mais cinema. Por que não fez?

- Porque eu queria continuidade. Eu trabalhava no Laboratório Americano em 1954, ganhava muito bem com comissão sobre venda e salário. Quando eu ia entrar para o teatro, o Jackson de Souza e o Modesto de Souza (atores) começaram a discutir. O Jackson falou: "dei seu nome para o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) para viajar com a peça 'Santa Marta Fabril S.A.'". Aí virou o Modesto: "Que é isso rapaz, não aceita, você vai passar fome. Estou falando por experiência própria", ao que o Jackson respondeu: "Que isso compadre, ele é moço, a televisão está aí". Fiquei ouvindo os dois discutirem, fui fazer o teste e passei. Assinei um contrato de dois anos. Larguei o Laboratório. E aí comecei, fiz televisão, isso lá pelos idos de 1955. Felizmente, a televisão, com o advento das novelas, abriu o mercado para muita gente. Nós, os atores, frequentávamos um restaurante lá em são Paulo chamado Gigetto, e todo mundo ia para ver os artistas. Inclusive, eles penduravam a conta, trocavam cheque para gente e até emprestavam dinheiro. Era um negócio de louco, tudo na confiança. Eu conquistei cedo o fato de ser o primeiro ator de teatro.Trabalhei com Antunes filho e Ademar Guerra.

- Você também já falou que o cinema brasileiro era muito ruim...

- A profissão da gente era muito incerta. Quase larguei e fui trabalhar numa agência de publicidade. Mas, de repente, o d'Aversa (Alberto d'Aversa, diretor) me chamou para fazer "Seara vermelha" (1964). O cinema da Vera Cruz pifou. O sonho da gente de fazer cinema foi por água abaixo, mas aí estava começando a televisão. Mal ou bem, o teleteatro na segunda-feira dava para complementar o salário. A Excelsior veio e profissionalizou a televisão. Ela deixou de ser uma coisa artesanal e passou a ser um veículo de comunicação. Contratou os melhores comediantes do Rio e as melhores garotas propagandas. Formou um "elencaço" e produziu vários programas.

- O que acha do cinema brasileiro hoje?

- Com o Cinema Novo, surgiu muita gente boa fazendo ótimos filmes. Veio gente mais séria. De repente, o Bruno (Barreto) faz 'Dona Flor' e acontece internacionalmente. O pessoal amadureceu. Não tem que fazer um cinema político, tem que contar uma história bem contada, e isso está acontecendo. Seja moderno, seja coisa do passado, tem que comunicar, tem que pegar as pessoas.

- Qual filme recente você indicaria?

- "SOS mulheres ao mar" (dirigido por Cris d'Amato). É um filme muito benfeito com a Giovanna Antonelli.

- Você gosta de fazer novelas?

- Há autores ótimos. Nós começamos com textos cubanos e portenhos, depois veio a fase dos autores de rádio - Janete Clair, Dias Gomes e a Ivanir Ribeiro em São Paulo -, mas tendo que adaptar o texto, porque o negócio estava ficando mais moderno. Tiveram que tirar as besteiras de rádio e fazer uma coisa mais enxuta, mais de acordo. Depois vieram os autores brasileiros. A Excelsior era responsável por lançar muitos autores, porque ela fez um teleteatro só com peças brasileiras. Ali estrearam Lauro César Muniz, Renata Pallottini, Walther Negrão e outros. A partir do momento que eles começaram a escrever, as coisas melhoraram. Um melhora, os outros pegam o exemplo, e as coisas vão evoluindo. Hoje, os textos são gostosos. Aliás, hoje já é preciso ter cuidado porque tem uma turma que está escrevendo muita babaquice. Estamos precisando voltar um pouco ao passado para retomarmos as características de novela: credibilidade, sensibilidade e emoções verdadeiras.

- A forma como as pessoas encaram a carreira de ator mudou...

- Quando eu comecei, as pessoas falavam: "artista é boêmio, malandro ou gay. As amigas da Rosamaria (Murtinho, atriz e mulher de Mauro Mendonça) hoje falam: "Não sei porque não segui a carreira artística". Antes todo mundo esnobava. A única atriz brasileira que não fez novela é Bibi Ferreira. Paulo Autran, Fernanda (Montenegro), Nathalia (Timberg), todo mundo fez. Acabou o preconceito. Quem gosta, tem vocação, talento e saco, vai em frente. Agora, quem é bonitinho, só quer aparecer e não tem estofo, dança.

- Lida bem com a internet?

- Sou completamente analfabeto, estou aprendendo, tecnologia não é comigo. Gosto muito de falar. Fico injuriado quando quero falar, e todo mundo está no telefone. Dessocialização humana é o fato agora.

- Como lida com o envelhecimento?

- A única coisa que está dizendo a minha idade é o corpo, porque a cabeça está ótima. Graças a Deus. Sou uma pessoa de fé, oro, trabalho, brinco. A vontade de fazer alguma coisa já está demais, então fico mexendo com as pessoas, principalmente no Rio.

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você acha que a realização de blitze seria a solução para fazer cumprir a lei que proíbe jogar lixo nas ruas?