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13 de Abril de 2014 - 07:00

Especialistas destacam edificações e debatem a arquitetura contemporânea de JF

Por MAURO MORAIS

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Aproximadamente 35% dos 177 imóveis tombados em Juiz de Fora foram protegidos por decreto municipal na última década. Da criação da lei nº 6.108, de 1982, que autorizava a implantação do mecanismo de resguardo na cidade, ao surgimento da lei nº 10.777, de 2004, que organiza tal ferramenta, muitas são as ações acerca da conservação da memória local através de suas construções, físicas ou não. Ainda que o panorama da preservação do patrimônio cultural não seja ideal, rastros da história têm sido, permanentemente, alvo de reflexões e bastante cuidado. Contudo, resta um presente, que carece de atenção e aponta para o que poderá ganhar a posteridade. Afinal, o que representa o hoje arquitetônico de Juiz de Fora? A essa pergunta responderam especialistas e pesquisadores, cuja atuação não incide justamente nos projetos das cidades, mas no pensamento do que foi e ainda é produzido nelas.

Dos imóveis tombados, a grande maioria pertence às décadas iniciais do século XX, sendo o mais recente o Edifício Clube Juiz de Fora, inaugurado nos anos 1950 e um dos expoentes do modernismo na cidade, com seu painel de azulejos denominado "As quatro estações", assinado por Candido Portinari. Polêmico, o período que se inaugura a partir daí, com a construção de Brasília em 1960, é visto, por alguns pesquisadores, como o início do contemporâneo. Outros rejeitam o recorte temporal mais extenso, observando apenas as décadas mais próximas dos dias atuais. "Se entendermos o contemporâneo como envolvendo a produção arquitetônica que de alguma forma influencia ou orienta a nossa produção atual, podemos estender este conceito, dependendo da abordagem assumida, para abarcar, por exemplo, a arquitetura produzida a partir dos fins do século XVIII, ou, a partir do modernismo ou, ainda do advento da denominada 'condição pós-moderna'. Se entendermos como contemporâneo somente o que é bem próximo, temporalmente, de nós, aí trataremos, pelo menos, dos últimos 40 anos, a partir da década de 1980, onde começa a influência do pós-moderno em nossa arquitetura mineira", explica o presidente do Núcleo Juiz de Fora do Instituto de Arquitetos do Brasil e professor do curso de história da UFJF, Marcos Olender.

Segundo o professor do curso de arquitetura e urbanismo da UFJF Frederico Braida, tal recorte se inicia em 1990. "Trata-se de um período direta ou indiretamente influenciado pelas 'novas tecnologias de informação e comunicação' (as tecnologias digitais) e pelas complexidades de um mundo globalizado", diz. Já o também professor do curso de arquitetura e urbanismo da UFJF Mauro Santoro Campello compreende um intervalo mais amplo, com fortes influências de um passado nem tão distante. "Atualmente a arquitetura brasileira tem retomado, ainda que paulatinamente e sem um estudo sistematizado, alguns dos 'cânones' modernistas. Os últimos concursos públicos de arquitetura têm revelado esta tendência, pelo menos nas questões volumétricas", ressalta, destacando como representativos da nova arquitetura local edifícios como a antiga reitoria da UFJF e atual Museu de Arte Murilo Mendes, inaugurado em 1966 e identificado como modernista.

 

O que há de novo

Criado em 1993, o curso de arquitetura e urbanismo da UFJF configura-se como divisor de águas na paisagem da cidade, tanto por discutir novos caminhos, quanto por lançar novos autores. "Não podemos desvincular a renovação arquitetônica da cidade da implantação do curso. Em termos de novidades, temos novos projetos que trazem referências mais atualizadas do que se produz em outros centros, aparece um número mais significativo de projetos elaborados, com erudição arquitetônica, mais qualidade", afirma o membro do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Comppac)Marcos Olender, apontando, ainda, para outro curso superior na cidade, oferecido pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF). "Nos dias de hoje, os juiz-foranos, ao andar pelas ruas, reparando nos edifícios que nos cercam e experimentando as novas espacialidades por eles propostas, já podem perceber que a qualidade das edificações tem crescido, seja em termos estéticos ou funcionais", completa Frederico Braida, arquiteto formado pelo curso onde hoje, já cursando seu pós-doutorado, leciona.

Ainda que em processo de fortalecimento dos debates acerca do panorama atual, a cidade de Arthur Arcuri ainda não projetou, segundo o professor Mauro Santoro Campello, outro nome de reconhecimento e produção como o do engenheiro-arquiteto autor do projeto do próprio campus da UFJF. "O potencial da arquitetura e do urbanismo contemporâneos em Juiz de Fora ainda está por despontar. Alguns movimentos já se notam, porém carecem de uma reflexão profunda do fazer arquitetônico. Acredito que ainda há muito o que aprender com o que se tem realizado Brasil afora e mesmo no exterior", defende, para logo completar: "A arquitetura de Juiz de Fora não tem uma 'cara' como podemos identificar no ecletismo, no art déco e no modernismo, apesar desta última fase estar perdendo exemplares importantíssimos. Desde esta última manifestação do pensamento arquitetônico, magistralmente trabalhado por Arcuri, não consigo identificar nada que se possa destacar. Alguns edifícios merecem reflexões, porém a quantidade e a qualidade são incipientes para uma reflexão aprofundada".

"Penso que a presença significativa de arquitetos e de escolas de arquitetura, bem como de associações que surgem a partir daí, como o próprio IAB, mostram o potencial da cidade em, cada vez mais, discutir a qualidade da sua produção arquitetônica e urbanística e movimentar-se para melhorá-la. Falta ainda a construção do necessário espaço da crítica a esta arquitetura. Este não é um problema só nosso mas de, praticamente, todo o nosso país", defende Olender, destacando o prédio da Caixa Econômica Federal como uma das construções representativas dessa nova paisagem em Juiz de Fora.

"O que futuramente em Juiz de Fora serão objetos de interesse de preservação plenamente aceitos por serem belos, arrojados, harmoniosos e originais são as residências unifamiliares que compõem os condomínios fechados, como as que encontramos no Granville, Estrela Sul, Spina Ville e similares", observa o artista gráfico e professor do curso de arquitetura e urbanismo da UFJF Jorge Arbach. "Essas residências só farão sentido no futuro se forem preservadas no conjunto, pois não se limitarão a uma leitura de tipologia arquitetônica ou modelo de assentamento urbano. Carregarão consigo o histórico em que se comprova a presente falência do Poder Público em oferecer indistintamente, em favor de qualquer cidadão, o que é direito dele, ou seja, qualidade de vida e segurança. Os condomínios guardarão, além da bela arquitetura, os vestígios de que no presente esses direitos só existiram quando foram adquiridos. E a preços altos", comenta, referindo-se, em retrospecto, a arquiteturas que restaram como reflexo do tempo em que foram erguidas, como as pirâmides, dos faraós do Egito, o Parthenon, na Grécia antiga, e muitos outros registros em pedra, muro ou chão.

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