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02 de Abril de 2014 - 06:00

Integrante da banda Beatles Forever e intérprete de Paul McCartney, Chico Forever se inspirou no ídolo para fabricar gabinetes em cauda para teclados digitais

Por MARISA LOURES

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Peças, que já foram usadas por Wagner Tiso, Verônica Sabino e Leoni, são produzidas em casa
Peças, que já foram usadas por Wagner Tiso, Verônica Sabino e Leoni, são produzidas em casa

A figura de Paul McCartney sempre inspirou Chico Forever, intérprete de Paul da lendária banda local Beatles Forever. O motivo, ele não tem certeza. Talvez o jeito de cantar. Em 1990, durante show no Maracanã, não foi o ídolo quem chamou atenção do cantor juiz-forano, mas o piano que ele utilizava, ou melhor, os acordes emitidos pelo instrumento. "Vi que algumas músicas estavam com uma sonoridade diferente. O Paul usava um piano de parede, chamado de piano mágico (estrutura onde é adaptado um teclado digital). Então pensei, 'poxa, por que não fazer algo parecido com um piano de cauda, mas sem ser acústico e, sim, digital?", comenta Chico que, a partir daí, começou a acalentar a intenção de confeccionar um gabinete em cauda para teclados digitais. A ideia, já materializada, foi aprovada por nomes como Wagner Tiso, Leoni e Verônica Sabino. "Gosto de música, madeira e de piano", sintetiza o músico.

Para produzir o gabinete, que tem saída para a passagem de fios, Chico usa um processo todo artesanal. "Só quem faz uma checagem minuciosa percebe não se tratar de um piano acústico." O trabalho poderia ser concretizado em dois ou três dias, caso o músico não tivesse que se dividir com outros compromissos. Além dos show da banda e do trabalho manual, também é plantador de eucalipto - de onde sai a madeira que usa nos pés do instrumento. De posse do MDF comprado para a confecção das outras partes, faz todo os contornos necessários com algumas ferramentas, tomando cuidado para ser rigoroso nas medidas e ângulos - 1,33 m x 1,52 m. De acordo com o criador, o tamanho foi escolhido por ser prático e caber em uma caminhonete. Com o suporte pronto, basta comprar o teclado e colocá-lo no vão. Depois, a estrutura recebe pintura brilhante.

Há dez anos, quando Chico começou no ramo, a produção era ainda mais rudimentar. Ele tinha que fazer as curvas da madeira utilizando uma espécie de fôrma improvisada. "Ficava pensando na maneira certa, nos detalhes de como encaixar cada parte. Se os ângulos estiverem corretos, não tem como dar errado."

Nos fundos da casa onde mora, o cantor guarda três - dois pretos e um branco - dos dez suportes que já produziu. Apesar de ter sido idealizado naquela noite no Maracanã, o primeiro instrumento só se tornou realidade anos mais tarde, em dezembro de 2003. A obra de estreia foi utilizada em uma das apresentações natalinas do Beatles Forever no Cine-Theatro Central. Segundo Chico, o preço do teclado era muito caro e só foi barateado no final dos anos 1990, o que provocou a demora na realização da empreitada. "Hoje o acesso se popularizou."

Atualmente, o Paul juiz-forano se debruça na fabricação de uma peça encomendada no carnaval. Como a madeira demorou para chegar e o comprador não tem urgência, a produção deve ficar pronta este mês. O valor, ele afirma, fica em torno de R$ 5 mil, incluindo banco e capa. Isso para quem não prefere alugar. Chico acredita ser um dos poucos no Brasil a se dedicar à atividade. "É um mercado pequeno, mas ele existe."

 

"Era o endosso do meu trabalho." Foi assim que Chico recebeu a aprovação de Wagner Tiso, visto por ele como um dos maiores músicos da cena brasileira. Tiso usou uma de suas criações em um show na cidade de Três Rios. "Quando ele tocou, disse que não conhecia aquele modelo e que achou interessante. Ouvir isso de alguém que está acostumado a tocar piano de cauda é a coroação do meu trabalho", assevera o músico, que, depois da conversa com o compositor e arranjador mineiro, está pensando no desenvolvimento de um suporte para a partitura. "No dia, tive que improvisar um, pois o Tiso utiliza partituras. Tê-lo visto tocando foi sensacional. É como se eu tivesse ganhado um terço e levado para o Papa benzer. Já comecei por cima."

Enquanto Leoni usou a obra de Chico no Cine-Theatro Central há vários anos, Verônica Sabino alugou para sua performance no Cultural Bar no ano passado. O instrumento, segundo Chico, foi aplaudido por Roberto Menescal. Entre os nomes locais que já se apresentaram com um de seus gabinetes está a Orquestra Sinfônica Mário Vieira. Depois de Tiso, o fã do grupo inglês sonha com o dia em que Guilherme Arantes subirá ao palco com um de seus instrumentos.

Conversar com Chico sem tocar no assunto Beatles é impossível. Assim como seu homenageado, o músico embalou gerações. Afinal, são mais de 30 anos de tributo dedicado aos responsáveis pelos sucessos "She loves you", "Strawberry Fields forever", "Hey Jude" e "A day in the life", entre outros. "Eles foram meus professores. Aprendi a tocar com eles. Quando me perguntam como faço para 'imitar' o Paul, digo que quem está lá no palco sou eu. Ao fazermos cover, temos que ter cuidado para não ultrapassar a linha do ridículo", enfatiza Chico, cujos shows ao lado de Antônio Carlos Rezende (John Lennon), Geranésio Aversa (George Harrison) e Gerson Faria (Ringo Starr) chegam a 50 por ano. Até hoje, conforme ele, o quarteto juiz-forano se impressiona ao descobrir acordes executados pelos garotos de Liverpool.

Chico confidencia não ser mais o mesmo de três décadas. "Não fico mais por conta." Antes, seguia os passos de McCartney até fora do país. "Eu rodava o mundo." Ele conta que, em uma de suas andanças, acompanhado por uma outra pessoa aqui da cidade, tentou usar a tática de entregar um quadro pintado por Irrazabal ao ídolo - tudo para estar mais perto dele -, mas o "esquema não deu certo". Paul levou o quadro embora. "Já enchi muito a paciência do ex-assessor dele", diz o cantor que, da mesma forma que aprendeu a tocar sozinho, entregou-se à arte de confeccionar os compartimentos para piano. "O segredo está em fazer com prazer e confiança."

 

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