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15 de Dezembro de 2013 - 07:00

Orçada em R$ 170 mil, recuperação da fachada da Associação Comercial depende de liberação de alvará e captação de recursos

Por MARISA LOURES

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Parede com pintura de Angelo Bigi apresenta rachaduras e manchas
Parede com pintura de Angelo Bigi apresenta rachaduras e manchas
Parede está deteriorada, deixando tijolos aparentes
Parede está deteriorada, deixando tijolos aparentes
Há cerca de oito meses, tapume protege pedestres de fachada deteriorada
Há cerca de oito meses, tapume protege pedestres de fachada deteriorada

Do lado de dentro, as pinturas de Angelo Bigi fazem lembrar o início do século XX, época em que a Associação Comercial passou a fazer parte do conjunto arquitetônico da Praça da Estação. Na parte externa, as condições da fachada põem em risco quem passa pela calçada. Inaugurado em 1915, o prédio que abriga a instituição vira mais um ano sem ser restaurado. Para impedir que partes de reboco caiam no pedestre, há cerca de oito meses, tapumes cobrem a frente do edifício. Questionado sobre a reforma, já que o bem é tombado como patrimônio municipal desde 1998, o vice-presidente da Associação Comercial, Aloísio Vasconcelos, que assume o cargo de presidente em janeiro, diz que as obras da parte externa, orçadas em R$ 170 mil, devem ser executadas ainda no primeiro semestre de 2014. Os recursos, segundo ele, serão captados via Lei Rouanet.

A última grande reforma, de acordo com Vasconcelos, ocorreu entre 1999 e 2001. Em pouco mais de dez anos, o imóvel apresenta pintura danificada, parte do forro da sede histórica descolando, estrutura da janela deteriorada, tijolos aparentes e infiltrações. Obras do pintor italiano também apresentam manchas e rachaduras. "As edificações antigas requerem um cuidado a mais. Historicamente aquela região é muito úmida, já foi alagada. Os cômodos com pinturas de Bigi ficavam e acho que ainda ficam muito fechados. Isso pode contribuir para que o problema se agrave", explica a arquiteta responsável pela restauração Fernanda Nogueira, ressaltando que ainda falta a liberação do alvará de realização das obras. "A reforma externa foi aprovada em 2012. Como, neste tempo, houve mais estragos na fachada, o mapa de danos aumentou, e tivemos que refazê-lo", diz Fernanda.

Para resgatar as características da época em que o prédio foi erguido, Fernanda disse que será feito um trabalho de prospecção. "É como se fosse um recorte na parede com vários planos. A ideia é achar a pintura original. Parece que, na outra restauração, não conseguiram definir qual era. Queremos manter todo o visual." Conforme Vasconcelos, o projeto de captação da verba vai ser feito no início de 2014, mas, segundo ele, não haverá dificuldade para levantar as empresas que financiarão os trabalhos. Há também a expectativa de usar a lei de transferência de potencial construtivo do local.

 

Legado de Angelo Bigi ameaçado

A demolição, em 2009, de uma parede com pintura decorativa atribuída a Angelo Bigi continua sendo motivo de discussão entre a direção da Associação Comercial e o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de Juiz de Fora (Comppac), que ainda não aprovou o projeto de restauração da parte interna do prédio. De acordo com Vasconcelos, a intenção era ligar os vários departamentos da instituição ao museu do comércio, que seria aberto no local. Depois de ir abaixo, a parede foi reerguida a pedido do Comppac, porém, em branco. Em matéria publicada na Tribuna em julho de 2012, o atual presidente da Associação Comercial Cláudio Horta garantiu que ela seria refeita de acordo com as orientações. Uma ação contra a Associação ainda corre no Ministério Público. Conforme Fernanda, essa seria a causa de o Comppac ainda não ter aprovado o projeto de reforma do interior do imóvel.

"O projeto foi feito há cerca de três anos, mas há uma discordância entre a Associação e o Comppac. O documento prevê a pintura de todo o espaço. Na época, só autorizaram uma reforma emergencial no telhado, porque os vazamentos estavam degradando a obra de Bigi", comenta a arquiteta." Aqui dentro, pouca intervenção precisa ser feita. A necessidade maior está do lado de fora, mas, nestes anos, fizemos alguma manutenção internamente", defende Vasconcelos.

Devido à falta de conservação, a Associação Comercial perdeu, em 2010, a isenção de IPTU, que é garantida aos bens tombados. "Existe muito pouco incentivo para este tipo de imóvel. As políticas públicas criam uma série de dificuldades", argumenta Vasconcelos.

"A reforma da fachada já poderia ter sido feita, e o prédio poderia estar em outro estado de conservação. Nenhuma legislação municipal e estadual garante apoio de reforma aos imóveis particulares", observa Toninho Dutra, superintende da Funalfa e presidente do Comppac.

 

História descaracterizada

Enquanto os trabalhos não começam, os tapumes escondem parte da memória do município. Na entrada principal da Associação Comercial, o chão coberto por ladrilhos hidráulicos leva a uma escada de madeira que dá acesso ao andar superior, onde está o salão histórico com as pinturas de Angelo Bigi. No local, que tem piso de madeira, lustres e mobiliário originais ainda são mantidos. O acervo é composto por edições do jornal "Gazeta Comercial", que circulou na cidade no século XX, além de objetos e documentos, como um livro em que Rui Barbosa registra, de próprio punho, que o município era a "Barcelona Mineira."

Anos depois de erguido, o conjunto sofreu algumas intervenções. Ganhou um anexo, e parte da construção original foi descaracterizada. Neste mesmo espaço, os ladrilhos do século XX deram lugar a ardósias. Paredes foram construídas e outras, demolidas. "Foi para atender uma necessidade da diretoria na época, mas a intenção sempre foi manter as características originais", enfatiza Vasconcelos.

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