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11 de Janeiro de 2014 - 07:00

17ª Mostra de Cinema de Tiradentes exibe 29 longas e discute, além das obras prontas, a criação nos bastidores e sets

Por JÚLIA PESSÔA

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Com Marat Descartes, Antônio Fagundes e Sandy, longa "Quando eu era vivo", de Marco Dutra, abrirá o festival
Com Marat Descartes, Antônio Fagundes e Sandy, longa "Quando eu era vivo", de Marco Dutra, abrirá o festival

Está quase chegando aquele momento do ano em que a charmosa Tiradentes, situada a cerca de 150km de Juiz de Fora, torna-se a capital do cinema nacional contemporâneo. De 24 de janeiro a 3 de fevereiro, a 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes exibirá 29 longas-metragens, distribuídos em sete mostras conceituais, e terá os "Processos Audiovisuais de criação" como eixo temático (veja a programação no site da mostra).

Segundo a coordenadora geral do festival, Raquel Hallak, o tema orienta a programação e as discussões do evento, e veio da observação de que a produção cinematográfica brasileira vem se reinventando não apenas no que diz respeito ao que se vê nas telas, mas também nos bastidores e sets de filmagem. "Hoje não existe mais produção em que cada um vai para o set com funções pré-definidas. Os filmes são cada vez mais um processo de criação coletiva - muito facilitado pela tecnologia - em que as pessoas desempenham funções múltiplas. Como resultado, temos narrativas não lineares, muitas vezes sem roteiro definido: o filme que se tem em mente pode ser - e muitas vezes é - completamente diferente do produto final."

Na visão de Raquel Hallak, isso se reflete mesmo na escolha do homenageado deste mostra, o ator Marat Descartes. Com sólida carreira no teatro, Descartes se destacou no cinema pelas atuações em "Os inquilinos" (2010), "Trabalhar cansa" (2011), "Super nada" (2012) e "Corpo presente" (2013), fazendo personagens marcados por impotência, angústia, fracasso ou infelicidade, com grande expressividade de corpo e olhar, além de forte presença cênica. "Marat é um ator que participa ativamente de todo o processo de criação e produção do filme, não apenas chega e atua, e isso reflete bem o que será discutido nas diferentes propostas de eventos do festival", destaca a coordenadora.

Tradicionalmente a mostra de Tiradentes inaugura o calendário audiovisual no Brasil, trazendo mais de cem pré-estreias entre curtas, médias e longas-metragens. A sessão de abertura deste ano será com o inédito "Quando eu era vivo", de Marco Dutra, protagonizado por Marat Descartes. No encerramento, haverá exibição de dois filmes convidados pela curadoria: o curta-metragem "Linguagem", de Luiz Rosemberg Filho, e o média convidado "Já visto, jamais visto", de Andrea Tonacci. "Tonacci, junto com Julio Bressane e Eduardo Coutinho, está entre os três maiores cineastas vivos no Brasil", comenta o curador do festival, Cléber Eduardo.

 

 

Diversidade geográfica e temática

 

De acordo com a assessoria de comunicação do evento, a seleção geral teve uma distribuição equilibrada entre filmes cariocas, paulistas e mineiros, além de produções de Bahia, Paraíba, Pernambuco e Paraná. "Em termos de tendência, a descentralização de origens é uma realidade", pontua Cléber. Raquel Hallak acrescenta que uma das preocupações do festival foi dar visibilidade aos valores, personalidades e tradições regionais, algo evidenciado em uma mostra de curtas mineiros, com produções de Juiz de Fora, São João del-Rei, Tiradentes, entre outras. "O audiovisual permite que traços culturais muito característicos de cada local sejam registrados, interpretados, vivenciados, passados adiante", comenta a coordenadora da mostra.

A variedade nas produções vai além de seu lugar de origem, trazendo representantes de diversas linguagens, formas e gêneros. "Veremos de tudo. Nos documentários, por exemplo, há muita variedade. Há também filmes-ensaio ou mais experimentais, com lógicas mais particulares de organização das imagens e dos sentidos. Nas ficções, há flertes com cinema de gênero, reciclado por perspectivas contemporâneas de fora dos centros mundiais de produção. Há também reciclagens de vertentes do passado moderno do cinema, sobretudo aquele situado nos anos 60 e 70, mais voltado para as desconstruções narrativas e semânticas. Também temos ficções mais narrativas, com maior senso de dramaturgia, seja pelo viés do drama mais convencional, seja pelo viés da fábula, seja pelo viés da poesia audiovisual, seja por tentativas de narrar sem entregar todas as informações, mantendo certa discrição em relação ao que o espectador deve saber", adianta o curador Cléber Eduardo.

 

 

 

Além do comercial

Para Raquel Hallak, privilegiar as produções independentes, nem sempre palatáveis a todo tipo de público, é algo saudável e necessário ao cinema nacional. "Os filmes comerciais já possuem espaço definido no cinema e na televisão, financiamentos de no mínimo R$ 5 milhões e a chancela da Globo Filmes. O que fazemos em Tiradentes é abrir para as produções que não possuem tanto espaço para exibição, mas que têm qualidade inquestionável", explica. "E a apresentação destes filmes é como se fosse uma bienal de arte, em que não compreendemos ou gostamos de tudo, mas o importante é despertar algo, fazer pensar. Outro aspecto importante é que, na Mostra Praça, exibimos filmes que têm uma apreciação mais direta e mais universal, fazendo com a que a mostra contemple várias facetas do cinema nacional contemporâneo", completa Raquel.

Para Cleber Eduardo, o festival de Tiradentes vem amadurecendo com o crescimento da produção brasileira de baixo orçamento, a digitalização dos processos criativos e os novos modos de produção e criação cinematográfica. "Tiradentes tornou-se ponto de discussão estética sobre as propostas mais autorais e menos determinadas pelos ditames da política 'oficial' ou pela política do mercado. Mas isso só é possível porque essa 'cena' independente brasileira também tem procurado amadurecer na discussão e nas proposições cinematográficas."

Outro ponto importante, para Raquel Hallak, é o investimento na formação de novos agentes do cinema por meio de oficinas. Nesta edição, o evento terá 11, sendo sete destinadas ao público adulto e quatro, ao infantil. "A mostra surgiu para ser grande aliada do cinema brasileiro quando os festivais existentes, como o de Gramado, estavam descrentes e comaçaram a se expandir para o mercado latino", completa a coordenadora.

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