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30 de Março de 2014 - 06:00

Entrevista / Arnaldo Baptista, músico

Por JÚLIA PESSÔA

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O ex-mutante vive há 30 anos em Juiz de Fora
O ex-mutante vive há 30 anos em Juiz de Fora

 O cômodo em que a entrevista foi feita era todo Arnaldo. Não somente porque as paredes coloridas do café escolhido pelo artista para o encontro são inteiramente decoradas por suas pinturas, mas porque Arnaldo, com a fala mansa, pausada e entremeada por muitos sorrisos, toma conta de qualquer ambiente conversando sobre música, artes plásticas, a vida em Juiz de Fora e - com muita propriedade- sobre amplificadores valvulados.

No livro "A divina comédia dos Mutantes", o autor Carlos Calado diz que se Arnaldo Baptista tivesse morrido seria cultuado como um mito, da mesma forma que Jim Morrison ou Raul Seixas. Mas mitos ficam estáticos na história, e Arnaldo está muito vivo. Recentemente, o artista disponibilizou toda sua discografia solo digitalmente, decisão que partiu da observação de que 87% do público de Arnaldo atualmente têm entre 17 e 34 anos e utilizam plataformas virtuais para ouvir música.

Entre os lançamentos, dois álbuns inéditos até então: o "Shining alone - ao vivo", gravado em 1981, e o "Elo mais que perdido", com músicas que não entraram no disco "Elo perdido", recuperadas de uma fita cassete que Oswaldo "Coquinho" Gennari, ex-baixista da Patrulha do Espaço (sua banda pós-Mutantes), entregou a Arnaldo antes de morrer.

Em 2014, seu disco solo mais aclamado, "Lóki?", completa 40 anos de lançamento. Até hoje, o álbum é considerado um dos mais viscerais da música brasileira, com um instrumental minimalista e letras extremamente pessoais, em que Arnaldo metaforiza a batalha contra seus próprios demônios: a solidão, a dependência química e os flertes com a loucura, tema recorrente em algumas de suas composições. Tudo isso embalado pelo exuberante piano de Arnaldo, que o acompanha até hoje nas apresentações do "Sarau o Benedito" que tem feito pelo país desde 2011, dividindo o palco somente com o instrumento.

De fato, as referências a Arnaldo e aos Mutantes estão por todo lado. Há poucos dias, entrou no ar uma propaganda do canal ESPN sobre Copa do Mundo, falando da real beleza do povo brasileiro, que tem, como trilha sonora, "Bat macumba", um dos grandes sucessos da banda que teve com o irmão Sérgio Dias, a ex-mulher Rita Lee, o contrabaixista Liminha e o baterista Dinho. "Fiquei muito entusiasmado. Nem é minha carreira solo, mas sou eu lá, tocando junto", diz ele, com a modéstia de quem parece não ter feito parte de um dos grupos mais relevantes na música, no comportamento, na estética e na cultura brasileira de forma geral, tendo influenciado gerações de artistas daqui e mesmo do exterior.

Na entrevista, Arnaldo, sempre sob os olhos atentos e cuidadosos da esposa Lucinha Barbosa, falou ainda sobre "Esphera", que ainda está em construção e será seu sétimo disco solo. Com referências a inquietações do cotidiano do artista, tão diversas quanto um gatinho abandonado na rua, o vegetarianismo e o aquecimento global, o LP - como charmosamente o músico chama quaisquer de seus álbuns - já tem oito faixas gravadas e ainda não tem previsão de lançamento. "Quando estou em BH, não tenho bateria, então não posso gravar, fico criando nesse intervalo. Ainda está uma confusão, não sei se vamos gravar fazendo show, mas estou fazendo as coisas no meu tempo", diz ele, com a típica serenidade de quem, como prega a "Balada do louco" dos tempos de Mutante, não se importa "se eles têm três carros". Arnaldo pode voar. 

 

 

- Tribuna - Você lançou, no início deste ano, toda a sua discografia solo digitalmente. Por que tomou essa decisão e como vê a relação entre música e internet?

- Arnaldo Baptista - Acho muito interessante esse acesso à música que a internet proporciona. Para mim, especificamente, é um canal muito importante para a minha carreira que é tão vasta. Já gravei mais de cem músicas e acho bonito o fato de todo mundo ter acesso a isso tudo. Fico contente também de conseguir atravessar gerações. Não sei o porquê, costumo atingir pessoas pequenas com meu trabalho (risos). Acho que é porque essa é minha segunda infância, já quase morri (nos anos 1980, Arnaldoi ficou em coma por meses após cair de um prédio), então tive que reaprender tudo: falar, me expressar, como eles. E de modo geral, gosto que eles gostem de mim.

- "Lóki" é considerado um marco na música brasileira e até mesmo mundial, aclamado pelo público e pela crítica. Ele completa 40 anos esse ano. Qual a importância do disco para sua carreira e para você, pessoalmente?

- Para mim, naquela época foi um investimento pessoal, algo que me permitiria ter uma vida própria, solitária. Até então, eu tinha tido muitos conjuntos (The Thunders, Six Sided Rockers, Mutantes e Patrulha do Espaço), mas eu, sozinho, não tinha feito nada. Os músicos dos Mutantes participaram e, por sinal, o Dinho reclamou: "Tá muito Sérgio Mendes isso aí, tem que apagar" (risos). Mas eu não concordei com ele. Então foi uma espécie de tentativa que deu certo. Eu não tinha a menor ideia de que um dia a consequência ia ser um filme sobre mim, acontecem tantas coisas imprevistas na vida...

 

- Você se sente representado pelo filme (o documentário "Loki - Arnaldo Baptista", por Paulo Henrique Fontenelle e produzido pelo Canal Brasil)?

- Foi uma grande angular na minha vida pessoal, tem um lado expressivo de coisas antigas: relacionamentos, depoimentos das pessoas, eu mesmo falando... Mas eu me deixei levar pelo lado que o Ringo Starr fala na música "Act naturally", de que o caminho para ganhar um Oscar é agir naturalmente. Tentei fazer isso e acho que deu certo.

 

- Você é muito atento às sonoridades e já defendeu, em entrevistas anteriores, o uso de amplificadores valvulados nos shows. Qual é o diferencial deles?

- Isso é muito importante para mim. Acho que o amplificador digital, que 99% das bandas possuem, é sem alma. O valvulado tem essa alma, uma sonoridade com alta definição dos graves. A válvula dá uma distorção mais fluente, uma resolução melhor do som. Até parei de fazer show com contrabaixo, bateria, guitarra, faço só saraus com piano e voz, que aí não aparece tão claramente a diferença entre o digital e o valvulado. Ouso dizer que se alguém tiver um valvulado, pode me convidar, que eu faço um show de graça. Se tivesse uma empresa que alugasse, eu voltaria a fazer shows com bateria, baixo, guitarra, órgão e voz valvulada. E isso me faria feliz, me deixaria contente. Até pensei em abrir uma fábrica, mas não sei se teria profundidade suficiente para fazer tudo. Mas se uma empresa de eletrônicos grande quisesse lançar um, podia chamar de "Valvulado" (risos). Quem não chora, não mama.

 

- Nos saraus que você tem feito, suas pinturas são o cenário da apresentação e elas também ilustram o clipe de "I don"t care", uma de suas composições mais recentes. Como você descobriu sua aptidão para as artes plásticas?

- Tem muito a ver com meu íntimo. Com a Rita (Lee), eu levava uma vida que era tão cheia de altos e baixos que nunca tive tempo de ter um ateliê com tela, tinta... Só com a Lucinha que consegui ter essa liberdade. É interessante que criou um paralelo na minha mente entre a música e a arte plástica, onde eu vou tentando fazer o possível para encaixar tudo como um modo de comunicação. É interessante porque às vezes me apego tanto a uma letra, que consigo fazer um quadro a respeito da música, mas é mais raro. Geralmente, tenho insights e faço insinuações, evocações, "appealings": um sapato, um motor... Tudo isso me faz pintar.

 

- Muitas de suas músicas foram gravadas por você completamente sozinho, fazendo todos os instrumentos. Como é este processo?

- É algo que envolve muito estudo. Às vezes vejo outros músicos tocando, vejo a técnica deles e comparo à minha. Passo uma semana estudando muito o contrabaixo, depois a bateria, e, aos poucos, vou me sentindo mais completo no que diz respeito aos instrumentos, amplificadores e técnicas.

 

- Os Mutantes são um marco na música mundial, tendo influenciado movimentos musicais em todo o país e no exterior, de diversas gerações. Na época, vocês tinham a dimensão de que estavam fazendo algo tão transformador?

- No filme "Lóki", o Liminha fala: "Parece que o Arnaldo tinha uma preocupação em fazer algo a mais com a música". E talvez eu tivesse mesmo essa visão que não se tinha muito na época, eu estava querendo acrescentar, criar algo que fosse inovador de alguma forma, que fosse rico, e o "Tecnicolor" (um dos discos do grupo) foi muito importante nesse sentido.

 

- O quanto você vê de si mesmo na obra dos Mutantes?

- Eu enxergo que minha influência atingiu um pouco, mas, absolutamente, não tudo. Até certo ponto, minha alma foi importante para os Mutantes, mas não tanto quanto gostaria de ter sido. Mas estou reclamando um pouco de barriga cheia também (risos).

 

- Há 30 anos, você decidiu viver em Juiz de Fora. Como é sua relação com a cidade?

- É a cidade da minha mulher, onde ela foi criada com a família. Me dá uma paz de coração morar aqui, me sinto entre Rio e São Paulo. Me sinto em casa. Em São Paulo, eu morava em um apartamento e quando ligava o som em 40 watts, o vizinho já reclamava. Aqui posso ligar a mil que ninguém liga. E aqui também posso ir a lugares com flores, com campo. É muito gostoso. E me inspira bastante, vou me influenciando pelo que mais gosto, a música e os sons, vivo atento a tudo neste sentido. Mas só planejo fazer um show aqui quando houver algum tipo de patrocínio. Não tem ninguém que pague o show. Não tenho esperança de fazer um porque ninguém se interessou, mas eu faria.

 

- Está feliz?

- Estou, sem dúvida. Muito feliz. Estou indo adiante, né? Isso é bom, a gente não ficar parado, sem evolução... É bom compor, é bom estudar, é bom viver, ser feliz, compartilhar. Comprar e trilhar.

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