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30 de Maio de 2014 - 06:00

A estudiosa Ilma de Castro Barros e Salgado revela um Pedro Nava artista plástico em livro que será lançado amanhã

Por MARISA LOURES

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Pedro Nava fez ilustrações para "Macunaíma: o herói sem nenhum caráter", de Mário de Andrade, em 1928
Pedro Nava fez ilustrações para "Macunaíma: o herói sem nenhum caráter", de Mário de Andrade, em 1928

"Eu comecei desenhando e pintando, minhas primeiras manifestações artísticas. A literária veio depois." A declaração dada por Pedro Nava à TVE, em 1982, endossa a tese da professora Ilma de Castro Barros e Salgado. "Da mesma forma que foi chamado por Manuel Bandeira de poeta bissexto, Nava foi um artista plástico bissexto. Ele desenhava desde criança", assevera a estudiosa. Autora dos já publicados livros sobre a obra do escritor e médico juiz-forano - "Memórias de Pedro Nava: genealogia feminina", "Mulheres reveladas e veladas" e "Juiz de Fora nas memórias de Nava" -, Ilma decidiu ultrapassar a escrita do memorialista, campo há quase duas décadas percorrido por ela, e visitar também suas imagens. Em "Formas intercomunicacionais em Pedro Nava: o signo verbal e o pictórico" (233 páginas), ela apresenta um Nava pintor, desenhista, ilustrador e caricaturista, habilidades pouco conhecidas pelo grande público. O livro será lançado amanhã, às 19h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, com apoio da Lei Murilo Mendes.

"É um encontro marcado entre as duas artes. Pesquisar os desenhos me fez chegar ainda mais a seu íntimo", comenta a autora, que se debruçou sobre os arquivos da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e sobre o acervo de Paulo Penido, sobrinho da esposa de Nava, falecido em 2013, e Joaquim Jaguaribe Nava Ribeiro, sobrinho do escritor.

Nascido em Juiz de Fora em junho de 1903, o médico flertou com os pincéis antes mesmo de se enveredar pela literatura, como prova seu "Caderno de desenhos", acondicionado na Casa de Rui Barbosa. Aluno do Colégio Pedro II, na capital carioca, lá ele frequentou as aulas de desenhos da instituição. É nessa época que a família anunciou: "Esse menino é um gênio. Esse menino vai ser um Miguel Ângelo", conta o escritor em "Baú de ossos", o pontapé inicial de seus grossos volumes de memórias, que se completam com "Balão cativo", "Chão de ferro", "Galo das trevas", "Beira-mar" e "O círio perfeito". O sétimo, intitulado "Cera das almas", ficou inacabado com sua morte em 13 de maio de 1984. O episódio acaba de completar 30 anos.

Não seguir carreira nas artes plásticas foi uma opção do próprio Nava, embora ele tenha revelado o desejo de, em certo momento, abandonar a carreira de médico para cursar belas artes. "A gente vê o surrealismo e o expressionismo nos desenhos dele. Ele mesmo diz que, se tivesse continuado a pintar, teria desenvolvido uma técnica própria", observa a professora, ressaltando também a influência da medicina nas pinturas e ilustrações. Profundo conhecedor de anatomia, levou para o papel contornos perfeitos de corpos humanos.

  

 

De traços infantis ao apuro técnico

Os traços imaturos da criança, aos poucos, foram ganhando mais apuro técnico, e o leitor pode acompanhar seu desenvolvimento em "Formas intercomunicacionais". Representante mineiro do Movimento Modernista, não raro o escritor exercitou suas habilidades com os amigos artistas. Ao lado de Aníbal Machado, Francisco Martins de Almeida, João Alphonsus de Guimaraens, Hamílton de Paula e Pedro Aleixo frequentou ativamente o Grupo do Estrela, que se reunia na Rua da Bahia, mais especificamente na Livraria Alves e no Café e Confeitaria Estrela, em Belo Horizonte. Nas rodas, regadas "a empadinhas e cervejas, conversavam sobre literatura, pintura, escultura, política, religião, entre outros assuntos", como narra Ilma, mas também se praticava o desenho. "[...] As mesas brancas me tentavam. Eu sacava do lápis e ia enchendo o mármore de meus esboços, tal qual contou Drummond em poema recente e magistral", escreveu Nava.

Entre as curiosidades apresentadas por Ilma, destaca-se o trecho em que ela narra a proximidade do memorialista com o escritor Mário de Andrade, com quem o juiz-forano se correspondia através de cartas. A propósito, graças ao incentivo do poeta paulista, Pedro Nava decidiu ilustrar uma das edições de "Macunaíma: um herói sem nenhum caráter", em 1928. De acordo com a pesquisadora, Mário enviou ao amigo o livro com as páginas em branco, que foram preenchidas pelo médico. "Mas Pedro Nava, os desenhos que você me mandou e agora o mulato são simplesmente delícias, Pedro Nava! Você carece de ter paciência consigo mesmo e continuar sempre. Sabe pra quê você dava mesmo? Pra litógrafo, aquelas litografias pesadas cheias gênero Luc Albert Moreau. [...] Agora uma observação: por que você não procura um meio de desenhar colorido e com aparência litográfica, da mesma forma como está fazendo já mas não usando lápis comum porém?", criticou Mário de Andrade.

"Repare que o lápis de escrever dá pros seus desenhos uma luz ruim, polindo por demais as superfícies e enfraquecendo os

desenhos tão volumados de você justamente nos momentos em que você carece da cor negra carregada? Sei que o carvão se espalha e você depois não pode passar cor por cima porém experimentando quem sabe si daria bem? E também usando papéis melhores, que desleixo puxa!", completou Mário.

Ilma diz que não teve qualquer pretensão de se aprofundar na análise das obras pictóricas do escritor. Apesar de ser resultado de um trabalho de doutorado defendido pela professora em 2008, o texto está longe de chegar ao hermetismo. "O leitor irá encontrar, no início deste livro, os pressupostos teóricos de renomados estudiosos, desde a era clássica até os dias atuais, apresentados em uma linguagem simples e eficiente", prefaciou Nícea Helena Nogueira, professora da Universidade Federal de Juiz de Fora e diretora do Museu de Artes Murilo Mendes.

 

Habilidades diversas

Ao discorrer sobre a "verbalização do visual", a escritora afirma que Pedro Nava partia dos "bonecos" (rascunhos) para a escrita. Registros da Casa Rui Barbosa dão conta de que a famosa "cadeira fantasma" citada em suas "memórias" foi desenhada antes de ganhar as páginas impressas. Segundo o escritor, ele e Nieta, sua esposa, se depararam com um feixe luminoso sobre o assento, o qual ele acredita ser o vulto do Dr. Antônio Carlos de Andrada. "Depois que ele morreu, ninguém quis ficar com essa cadeira. Por isso, ela foi doada para a Biblioteca Comunitária Pedro Nava (situada no Monte Castelo)", diz Ilma.

Da infância de Nava em Juiz de Fora, Ilma reproduziu na publicação os rabiscos feitos do sobrado de Inhá Luísa, avó materna do médico. Nava também fez colagens nas capas de seus livros, autorretrato, diagramas e cópias. De acordo com o site da Casa de Rui Barbosa, ele "foi capaz de fazer boas falsificações de pintores importantes como Portinari e Utrillo" e se gabava pelo feito. Para a escritora, a literatura de Nava também é teatral. "Ele escreve fazendo um jogo de palavras. Ao lermos, conseguimos visualizar toda a encenação", destaca a pesquisadora, emocionada ao recitar um trecho da poesia "O defunto". "Meus amigos, tenham pena/ Senão do morto, ao menos/ Dos dois sapatos do morto!/ Dos seus incríveis, patéticos/ Sapatos pretos de verniz."

 

Presença da morte

Nos 30 anos do suicídio de Pedro Nava, as discussões acerca das circunstâncias daquele domingo de maio voltaram à mídia. Era noite. Depois de atender uma ligação e demonstrar para a mulher contrariedade com o que ouviu, Nava saiu de casa sem que a esposa visse. Em seguida, foi encontrado caído com um tiro na cabeça no banco de uma praça. Cogita-se que o poeta estaria sendo chantageado por um garoto de programa, contudo, na época, essa versão foi encoberta pela imprensa. Em "Minhas histórias dos outros", Zuenir Ventura chegou a se referir a uma possível homossexualidade do autor juiz-forano.

Na visão de Ilma, o desfecho trágico já era previsto. "Nava tinha ideias suicidas desde o Colégio Pedro II. Vemos isso claramente nas 'Memórias'. Em várias entrevistas, assumiu fazer uso de remédio para depressão. Ele deixou uma carta suicida que poderia ser aberta pelos amigos", comenta a estudiosa, apontando que a morte é um dos temas mais pungentes dos trabalhos do autor. A prima Nair, morta em consequência da epidemia da gripe espanhola, em 1918, foi ilustrada por Pedro Nava vestida de noiva.

"A morte do pai também o marcou muito. À medida que você estuda Nava, percebe que, a qualquer hora, o suicídio aconteceria", sentencia a autora, finalizando a conversa com as mesmas palavras usadas para fechar "Formas intercomunicacionais em Pedro Nava: o signo verbal e o pictórico. "No dia 13 de maio de 1984, Pedro Nava deixou, sem qualquer signo verbal como explicação de seu ato, sua última representação pictórica: seu corpo caído em um dos jardins do Bairro da Glória, no Rio de Janeiro. Com um tiro no ouvido, o autor interrompeu seu graphéin."

 

"FORMAS INTERCOMUNICACIONAIS EM PEDRO NAVA"

Lançamento de livro 

Amanhã, às 19h

CCBM (Av. Getúlio Vargas 200)

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