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10 de Maio de 2014 - 06:00

ENTREVISTA/Eliane Brum, jornalista

Por MARISA LOURES

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A jornalista Eliane Brum lança o livro "Meus desacontecimentos"
A jornalista Eliane Brum lança o livro "Meus desacontecimentos"

A dureza da realidade encontrada nas coberturas jornalísticas não foi suficiente para tirar de Eliane Brum a delicadeza de suas palavras, as quais se mostram ainda mais sensíveis em "Meus desacontecimentos" (Leya - 143 páginas). Se a fragilidade exposta em uma palestra surpreendeu um homem, como relatado no último capítulo, desta vez, ela se abre ainda mais para o leitor, que chega a compartilhar da sensação de quase se "desmanchar". O livro será lançado em Belo Horizonte na próxima segunda-feira, em um bate-papo marcado para as 19h30, no Palácio das Artes. "Quando me tornei repórter, no final dos anos 1980, comecei a perceber que algumas vidas aconteciam, e outras 'desaconteciam'. Era assim também com as mortes", explica a colunista do portal do jornal "El País".

Os personagens que percorreram suas linhas passaram também por sua vida: a irmã Maninha morta, porém sempre presente; a avó materna, uma figura "pequena, de cabelos pretos" e descendente de uma família que se comunicava com os que já não mais vivem, e a empregada doméstica, responsável por acompanhar a "criança esquisita" durante os capítulos de novelas de rádio. "Meus desacontecimentos" é poesia, mas também fruto do trabalho de uma repórter: Eliane atiça a nossa curiosidade com o episódio do índio que escrevia ave-marias em sua "língua de índio" e não esquece de informar tê-lo encontrado décadas depois através de uma pesquisa na internet.

Tribuna - Por que o título do livro?

Eliane Brum - Durante muitos anos, fiz a ronda policial nos plantões de finais de semana no jornal "Zero Hora", de Porto Alegre, na qual fazíamos mais de 50 telefonemas para delegacias de polícia, postos de polícia militar, Instituto Médico Legal, hospitais etc., etc. A pergunta que fazíamos, invariavelmente, era: "Aconteceu alguma coisa aí?". E a resposta era, invariavelmente: "Nada, só morreu xibungo". Xibungo, em gauchês, é "zé ninguém", "pobre", "favelado", "à toa" etc. A resposta só mudava para o "sim, aconteceu", quando morria rico, gente importante, gente que "existia". Estranhei esse modo de olhar que fazia com que algumas vidas - e mortes - existissem, acontecessem, e outras não existissem, "desacontecessem". O que determinava essa escolha, a pauta para o jornalismo, não era um dado da natureza. Mas uma escolha política, econômica, cultural e social. Uma escolha feita por quem tinha o poder de decidir o que virava narrativa e o que não virava, o que era história e o que ficava fora da história. Foi assim que, aos poucos, fiz a minha escolha. Primeiro de forma intuitiva, depois de forma bem consciente. Escolhi contar a história dos proscritos, dos invisíveis, dos à margem da narrativa. E passei a dizer, também como provocação, que sou "uma repórter de desacontecimentos".

- Por que escrever sobre si?

- Neste livro, escrito em dois momentos, conto os meus desacontecimentos. Primeiro, me pediram para escrever sobre um autor ou dois que tinham influenciado minha vida e minhas escolhas. Não consegui. Acabei escrevendo sobre as pessoas anônimas que - também - tinham feito de mim o que sou. Acho importante esse reconhecimento em vida, poder dizer a alguém que está do teu lado ou que se perdeu, mas pode ser achada. Só que, em 2011, tive meu primeiro grande bloqueio com a palavra escrita, e o livro mudou de rumo. Logo depois de enviar meu romance, "Uma duas", para a editora, eu fui fazer uma reportagem na Bolívia, em um projeto dos Médicos Sem Fronteiras na área da doença de Chagas. Estive em aldeias onde 70% das pessoas tinham Chagas, o barbeiro era um 'inseto-conceito onipresente, e tudo isso só acontecia porque eram pobres demais para que a indústria farmacêutica se interessasse por eles. Morriam porque eram os invisíveis entre os invisíveis. Tinha me conectado muito fortemente com a filha mais nova, Sonia, de 11 anos, que também tinha Chagas. Ao me despedir, ela me agarrou pelos dois braços e disse: "Não me deixe morrer". Eu já tinha estado em realidades ainda mais brutais, em situações-limite ainda mais acentuadas, mas esta foi a primeira vez que alguém fez esse pedido para mim, diretamente para mim. Era de pessoa para pessoa, porque a morte era concreta, não uma discussão filosófica. Uma criança com medo de morrer por uma doença negligenciada é algo que faz a gente ter vergonha do mundo, de nós. Percebi ali que contar a história de Sonia não seria suficiente para salvar a vida dela. Voltei para o Brasil e, pela primeira vez, paralisei. Não conseguia escrever uma linha. Se escrever não a salvaria, de que adiantava escrever? Depois de duas semanas de paralisia, nas quais nenhuma letra saiu de mim, voltei a escrever. A história de Sonia e sua família é um capítulo do livro "Dignidade!", que marca os 40 anos dos MSF. Mas, a partir deste momento, passei a sentir uma necessidade profunda de buscar os sentidos da palavra escrita na minha vida.

- No final do livro, você diz que, em uma palestra, um homem comentou: "Achei, num determinado momento, que você se desmancharia". E você respondeu: "Eu quase me desmancho". Esse desmanchar ao falar de suas memórias traz uma sensação saudosista ou de tristeza?

- Penso que nenhum dos dois. É uma busca. Ao me buscar como mulher na menina que fui, não sinto saudades, porque a menina segue morando em mim. Às vezes, sinto tristeza, porque a vida tem mal-entendidos demais. Mas esses mal-entendidos também me constituem, lidar com eles me tornou quem eu sou, me levou a me reinventar como possibilidade. Penso que essa não é uma história triste, é uma história viva, de alguém que constantemente está dando significados para o vivido, promovendo novos nascimentos para si mesma. O percurso por memórias é um movimento, nada está dado, estático, morto. Tudo pode ganhar novas nuances a qualquer momento. A memória só é memória quando viva, do contrário vira epitáfio.

- É preciso ter coragem para se percorrer?

- Talvez. É preciso ter coragem para viver sabendo que os sentidos da vida precisam ser constantemente repactuados, reinventados, "re-buscados". Do contrário, temos uma vida morta. Não tenho muita esperança de ter outras vidas depois da morte, mas acredito profundamente que é possível ter várias vidas numa só. Aqui, agora. Por isso se percorrer é tão importante, porque nos permite refazer o nosso pacto com nós mesmos e com a vida que construímos. A coragem maior numa vida, eu acho, é viver a cada dia com a consciência de que não temos o controle de quase nada, mas, ao mesmo tempo, nos mantermos, como dizia Fernando Pessoa, abertos "para a eterna novidade do mundo". Viver, me parece, é um movimento em que aquele que é se move duvidando do que é. Essa é a beleza.

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