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29 de Abril de 2014 - 06:00

Rapper do Distrito Federal, Gog, uma das principais vozes do hip-hop nacional, visita Coletivo Vozes da Rua, no Bairro Santa Cândida

Por MAURO MORAIS

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Encontro: Selmara, Douglas, Gabriel, Alexsandro, Andressa, Adenilde, Elaine e Gog
Encontro: Selmara, Douglas, Gabriel, Alexsandro, Andressa, Adenilde, Elaine e Gog

Consciência é vivência. "Falar de consciência política é a mesma coisa que falar que todos nós somos seres humanos. É um desfoque. As discussões têm que ser feitas por partes. Negros e negras têm consciência orgânica. A coisa está tão complicada nessa relação política, que o cara branco coloca um dread, faz uma fita e fala: 'pois é, como nós negros'. Não. Quem tem consciência negra é o negro, não adianta colocar um dread, ir para a rua, morar na rua, passar pelos problemas que passamos", debate o rapper Gog, do Distrito Federal. "É preciso ter a pele que nós temos, a perspectiva de como nos enxergam fisicamente", completa.

Frente a frente com Adenilde Petrina, Alexsandro Lima, Andressa Cassimiro, Elaine Silva Damasceno, Gabriel Lourenço, Samuel Souza e Selmara de Castro Balbino, alguns dos integrantes do Coletivo Vozes da Rua, de Juiz de Fora, Genival Oliveira Gonçalves, o Gog, um dos mais importantes nomes da cena hip-hop no Brasil, destaca a relevância das discussões horizontalizadas, em que há espaço para o falar de si, que é, por consequência, o falar do mundo. Das cotas à popularidade do rap, o grupo discute questões urgentes nas periferias, extrapolando o cultural, confrontando o social e ocupando as bordas do humano.

Em visita a Juiz de Fora, feita na última sexta, o rapper conheceu a casa de Adenilde, no Bairro Santa Cândida, na Zona Leste, que já serviu de sede para a extinta Rádio Mega FM, e hoje é o ponto de encontro do Coletivo Vozes da Rua. Durante o encontro, acompanhado pela Tribuna, transborda o imperativo de que "é preciso ter pés firmes no chão", como diz "Carta a mãe África", de Gog. "Tem show todos os dias no hip-hop brasileiro, mas debates quase nunca acontecem. Mais do que um encontro cultural, é preciso ter uma cultura de encontros. O encontro cultural é uma confraternização. A cultura de encontros é mais diálogo, olho no olho, montar estratégia. O som, na mesma hora em que amplifica, atrapalha se não for um discurso preparado e pensado", destaca o homem alto, de voz grave e gestos firmes. "O hip-hop precisa se reconhecer como célula desse grande tecido chamado movimento negro. O social embaça muito essa discussão racial no Brasil. O hip-hop, muitas vezes, não consegue enxergar a fundo que quem foi morar na favela primeiro foram os pretos. Ali era um problema racial", defende ele, que lançou seu primeiro disco em 1992, "Peso pesado", e em 2007, na internet, lançou o nono CD "Cartão postal bomba!".

Segundo Adenilde, a questão da raça não deve, nunca, sair dos debates da cena hip-hop. "Penamos muito em Juiz de Fora. Em um dos colégios em que trabalhei, me deram tinta e alisantes para cabelo em meu aniversário. Sempre houve o questionamento de porque eu não alisar meu cabelo e deixá-lo branco. Porcuro afirmar minhas raízes da raça negra. Somos esculachados e, por isso, temos que mostrar que temos muitos valores", aponta. "Sou gangsta (gênero do rap cuja característica é a descrição crua do cotidiano das periferias) e serei até morrer. Nasci e sempre morei na periferia. Aprendi com meu pai que devemos florescer onde formos plantados. Fui plantada aqui, e aqui devo florescer. Somos de periferia, somos favela. Nos consideramos e somos intelectuais orgânicos, porque pensamos a nossa realidade e queremos transformar", completa.

Para Gog, é importante firmar, politicamente, que existe um problema racial no Brasil, e as cotas, então, existem como fruto de um movimento que é histórico e não pontual. "Sofro pela cor, o patrão e o padrão", canta o rapper em "Carta a mãe África". "O aluno de cotas foi considerado um aluno tão, ou melhor, muitas vezes, que o aluno que entra pelo sistema universal. A Universidade de Brasília, nesses dez anos, formou 4,5 mil alunos. Hoje calcula-se uma média de 18% de negros na universidade. Só que, em Brasília, a comunidade negra representa 56% da cidade", pontua o artista e militante, com a realidade nas mãos e o discurso na ponta da língua, tendo ao lado uma confirmação de sua fala, a estudante Selmara. "Moro em Santa Cândida, vim para cá com 1 ano, estudei na escola municipal, agora faço o curso de serviço social e me interesso por refletir a minha realidade. O debate da questão racial é, para mim, muito precioso. Entrei na universidade como aluna cotista, e isso é um direito. Faço parte dessa história de entrar em um espaço público que começa a constituir uma nova face, a verdadeira face do povo brasileiro", comenta ela.


Tática de sobrevivência


Cara às letras e a muitas outras manifestações do hip-hop, essa realidade crua, sentida na pele, não é apenas alimento para a criação, mas o desejo por outros espaços, por maior legitimidade e respeito. "A realidade determina ganhos e perdas, e estamos perdendo muito. A consciência é com 'n', mas se ela estiver com 'm' fica rico também. Quando canto tenho vários flashbacks. A música não é só a música, é a lembrança de tudo, de quem está aqui, quem não está, quem falhou, quem estimulou, quem atrasou, quem torceu e muitos outros. O que mais me angustia nessa caminhada de mais de 30 anos é que de cada cem, apenas um chega, e o resto fica no Rivotril", afirma Gog. "Não sei se é hora de o hip-hop dialogar com a classe média, no sentido do que virou, de todo mundo estar dentro do hip-hop. Acho que tínhamos que ter preparado a casa para receber essas pessoas, não que elas não deveriam vir, mas é que daqui a pouco essas pessoas já estarão pensando que a casa é delas", comenta.

Segundo o rapper, diante dos olhares de apoio do Vozes da Rua, é necessário dar mais valor às vivências. "O hip-hop, no seu nascedouro,

não era como agora, era genuinamente negro e de resistência. Hoje querem diminuir as letras, colocar uma banda no palco - porque só tocar disco não basta -, querem botar mais luz. Arte é toda a expressão humana, mas o mercado quer vender a arte em grande estilo, e, para isso, ele quer falar que sua arte é menor. O erro de português também é arte, é a vivência. A falta de concordância verbal não elimina a capacidade de expressão", defende. A arte que é denúncia social, dedo na ferida e retrato do quintal, é, acima de tudo, grito por visibilidade, como uma resposta à chamada de classe. "Vim de uma realidade em que o hip-hop não era só a sobrevivência musical, mas uma tática de sobrevivência na comunidade".

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