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05 de Fevereiro de 2014 - 07:00

Responsável por iluminações de espetáculos há mais de 30 anos, Paulinho conta histórias curiosas envolvendo artistas que se apresentaram na cidade

Por MARISA LOURES

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Acostumado a sair de cena sempre que a cortina está prestes a se abrir, Paulo Roberto Santiago, 59 anos, o Paulinho, como é conhecido, pelo menos por um dia, aceitou trocar de lado e ir para os holofotes. Em uma conversa de uma hora, no espaço em que ele é o "faz tudo", a reportagem percebeu que o principal protagonista de tantos dramas, comédias, infantis e musicais apresentados em mais de 30 anos em Juiz de Fora, na verdade, está enfiado pelos cantos, escondido. "Não gosto de aparecer." Nem mesmo um tombo de uma escada de sete metros, ocorrido no ano passado, foi o suficiente para afastá-lo do ambiente frequentado por atores, diretores e cantores. Nem mesmo uma conjuntivite o distanciou de seus afazeres na tarde em que recebeu a equipe da Tribuna.

São tantas histórias guardadas em sua memória que dariam um livro. Só no Cine-Theatro Central, foram mais de duas décadas como iluminador. Também passou pelo Teatro Solar e aguarda a aposentadoria dedicando-se ao Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. "Já estou praticamente parando. Era para ter me afastado em 2010, mas faço as férias de um e de outro e vou ficando. Não encaro isso como um trabalho."

Aplicado e ciente de que o ofício exige sensibilidade e rigor técnico, Paulinho não resistiu e deus uns pitacos dizendo que a luz não estava bem focada para o registro da foto. "Meu rosto ficou um pouco no escuro. Agora que estou vendo como artista sofre, isso aqui é muito quente." À primeira vista tímido, logo começou a revelar casos curiosos, envolvendo os bastidores dos espetáculos. Claro que ele não sabe quantas peças e apresentações de dança iluminou, mas consegue apontar momentos especiais. Riu muito se recordando do cantor e compositor João Gilberto sentado no palco, cantando e tocando o inseparável violão. "A plateia estava quase dormindo, quando ele pediu, pelo ponto, para a equipe técnica resolver o problema de uma água que caía na caixa d'agua do Cine-Theatro Central. Só ele que escutava aquele barulho. Ninguém mais. Tive que subir e desligar o registro na hora do show."

Paulinho diz que não costuma assistir às apresentações, porque já viu tudo durante os ensaios. Mas quando o assunto é o Rei e outros nomes que embalaram sua juventude, ele confessa que volta para conferir o resultado. "O Roberto Carlos não gostava que ficássemos vestidos de marrom. Já teve dia de ele mandar gente da produção embora por causa da roupa. Ele é muito supersticioso." Também não esquece dos acessos de Tim Maia, outro de seus ídolos. "O Tim era muito estourado, parava a apresentação para brigar com o pessoal do som." Já auxiliou em montagens de Cristiana Oliveira, Miguel Falabella, Jô Soares, Fábio Assunção, Nathalia Timberg, Ney Matogrosso, Walmor Chagas, entre outros. "É uma época que dá saudade. Hoje ainda é bom, mas eu era novo, aí é diferente." Afirmando que não tem um gênero preferido - "gosto de peça boa" -, cita as "As pontes de Madison", com Marcos Caruso, como a peça preferida.

 

 

Testemunha de chiliques

Enquanto hoje todos pensam na Dira Paes como a mulher sensual da minissérie "Amores roubados", exibida pela Rede Globo, o iluminador juiz-forano fala da menina morena, de 14 anos, que botou a mão na massa quando ainda não era famosa. "A Dira ficou sentada do meu lado colocando gelatina (folhas de material transparente, geralmente de poliéster ou policarbonato, posicionada em frente aos refletores para colorir ou filtrar luzes) na lâmpada." Contudo, o momento inesquecível está atrelado à atriz Débora Bloch em "Cinco vezes comédia." "Eu ficava sonhando com ela dia e noite, imaginando como ela era, mas, na televisão, é uma coisa, pessoalmente, é outra. A Débora é muito baixinha."

Se artista de sucesso dá chilique? "O Reginaldo Faria veio para se apresentar no Solar uma vez e não quis subir no palco, porque não tinham vendido ingresso suficiente. Foi o mesmo que aconteceu com a Gal Costa há pouco tempo. A diferença é que ela ficou no hotel. Ele estava no teatro muito nervoso com a produção", relata o iluminador para logo tocar em casos engraçados. "Aquela lenda de que teatro é lugar mal-assombrado é pura verdade. Já vi até sofá andar no palco." De acordo com Paulinho, antes de um grupo de Belo Horizonte se apresentar no Central, o cenário já estava todo pronto, e o assento começou a se movimentar. "Foi um corre-corre para todo lado. Eu fui o primeiro a correr. Esse fato não foi explicado até hoje, não tinha mais ninguém lá a não ser eu, o ajudante e o outro iluminador", afirma. "Lembro-me de um show evangélico em que o pastor, antes de começar, ajoelhou nos corredores, pedindo para Deus afastar o demônio daquele lugar. Ele dizia que aquela máscara que fica lá em cima, com uma luz vermelha no fundo, era o diabo."

 

Besteirol que vem de fora

"Já vi o público esperar muito artista para tirar foto, e ele não dá bola. A Maria Rita é uma. Enquanto a banda tocava a última música, ela já estava dentro do carro, indo embora, e o pessoal lá esperando", entrega Paulinho, lamentando o fato de o juiz-forano supervalorizar o que vem de fora. "Aqui tem muita coisa boa. Infelizmente, o povo vira a cara, não assiste, acha que não presta. Já presenciei muito ator famoso fazer peça ruim, e a casa lotar. O espetáculo que José Mayer e o Paulo Betti trouxeram aqui certa vez tinha muito palavrão, mas o espectador estava lá assistindo, e voltava no dia seguinte. Isso porque os dois estavam estourando na novela Tieta."

Paulinho nasceu em Juiz de Fora e foi criado na região do Morro da Glória. O primeiro emprego na área ele lembra como se fosse hoje, mas ficou perdido lá trás, na antiga sala de projeção do Cine São Mateus. Fazia serviço de carpinteiro, marceneiro, pintor, estofador. Pendurou bambolina de papel, montou cenário, descarregou caminhão. "O que aparecia pela frente." Sem qualquer formação acadêmica, aprendeu a iluminar com mestres, como Jorginho de Carvalho e Maneco Quinderé (light designer carioca), quando eles vinham à cidade com grandes companhias. "Tive sorte de poder contar com a paciência dessas pessoas. Aprendi na prática. Eu ia prestando atenção a cada explicação que eles me davam", comenta, sem titubear quando é indagado em quem se espelha.

"Sou tipo o Jorginho. É com quem mais trabalhei e é quem me serve de exemplo", diz, orgulhoso por ter consciência da qualidade dos inúmeros mapas de luz desenhados. "Se eu morasse no Rio ou em São Paulo, acho que seria famoso como eles. Talvez teria ganhado um prêmio", imagina o juiz-forano, que ficou por aqui por opção. "Fui chamado para ir para Portugal. Não fui porque estava casado. Se eu soubesse que 15 anos depois iria me separar, teria ido", brinca já no terceiro casamento e pai de três filhos. "Aprendi muito, conheci muitos artistas, mas estou ficando velho. Agora quero passear bastante." Para os próximos anos, garante permanecer sendo testemunha da arte de Dionísio. "Vou continuar na ativa, fazendo serviços por fora. Sinto falta."

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