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25 de Dezembro de 2013 - 07:00

Da crítica ao consumismo desenfreado à exaltação do nascimento de Jesus Cristo, literatura aborda o Natal em tom solene

Por MAURO MORAIS

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"Provo em desordem as emoções mais turvas./ Estou confusa e ansiosa,/ mas de verdade desejo,/ com uma ceia copiosa,/ Feliz Natal para todos.", escreve Adélia Prado em seu "Cartão de Natal para Marie Noel", presente no livro "A duração do dia". Autora conhecida por sua voz feminina e brejeira, a poeta de Divinópolis, que em muitos de seus textos evoca a religiosidade do interior de Minas Gerais, retrata o Natal como momento de consciência da fragilidade humana. "Nem as vidas de santos nos encorajam/ a abstinência e jejuns", diz, perdoando-se por tamanha humanidade. Frequentando o momento em verso e prosa, Adélia, Ana Maria Machado, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Manuel Bandeira, abordam as ceias, a manjedoura e também as muitas compras em suas obras. Confirmando seu papel de refletir o tempo no qual está inserida, a literatura brasileira, expressa por seus clássicos, não se priva da acidez, mas também não deixa de revelar a religiosidade que muitas vezes se traveste nas roupas vermelhas do velho Noel.

Presente em "Filandras", o conto "No presépio", de Adélia, retrata o primeiro Natal de uma mulher que acaba de perder o pai e precisa encarar a mediocridade de uma ceia na casa da irmã. Resignada, a mulher criada pela mineira se agarra na fé: "A radiação da 'luz que não fere os olhos' abre caminho entre escombros, avança imperceptível e os brutos, até os brutos, banhados. Desfoco um pouco o olhar e lá está o halo, a expectante claridade, em Corália, em Joana com seu marido e em mim, também em mim que escolho beber o vinho da alegria, porque deste lugar, onde 'o leão come a palha com o boi', esta certeza me toma: 'um menino pequeno nos conduzirá'".

"O nosso menino/ Nasceu em Belém./ Nasceu tão-somente/ Para querer bem", exalta um Bandeira singelo, conciso e extremamente emotivo. Presente em sua "Antologia poética", "Canto de Natal" se basta nas descrições líricas da chegada de Jesus, enquanto "Versos de Natal" faz referência ao eu-lírico que se percebe renascido com a aproximação da data. Após falar das rugas e do cansaço expressos no espelho, o poeta fala de uma realidade interna, que, caso a chapa refletiva fosse mágica, perceberia: "Descobririas o menino que sustenta esse homem,/ o menino que não quer morrer,/ que não morrerá senão comigo,/ o menino que todos os anos na véspera do Natal/ pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta".

Nascida em 24 de dezembro de 1941, a imortal da Academia Brasileira de Letras Ana Maria Machado guarda um carinho especial pelo Natal. Entre textos infantis e adultos, já lançou diversas obras sobre o tema. Em "Uma noite sem igual", a autora aborda o nascimento do menino Jesus pelo olhar de Benjamin, um pequenino pastor amigo do anjo Gabriel, que ao ver o diferente brilho de uma estrela, persegue a criança para presenteá-la. "Era tão pequenino, tão bonitinho, que Benjamim teve vontade de sorrir para ele, cantar, chorar, se ajoelhar e rezar, tudo ao mesmo tempo, e agradecer a Deus porque Alguém tinha vindo salvar todos os homens", conta sobre o primeiro visitante do recém-nascido.

Em "O Natal de Manuel", a história bíblica serve como pano de fundo para que Ana Maria retrate as curiosidades infantis. Para saber o significado da data, o menino André elabora perguntas para os pais, para a irmã, para a avó, para os tios, para a cozinheira e para Manuel, seu melhor amigo. "O que é o Natal?! Depende, André... Pra quem é guloso, o Natal é comilança sem fim! Pra quem é vaidoso, o Natal é usar roupas bonitas e novas...", resume Manuel, abrindo espaço para discutir valores sociais e outras questões caras à escritora.

 

 

A ilha do Nanja

Poeta reconhecida por suas tintas históricas e por seu lirismo marcante, Cecília Meireles é bastante direta ao retratar o Natal. Criou uma ilha, simplesmente, para mostrar a mesquinhez da terra firme. "Na Ilha do Nanja, o Natal continua a ser maravilhoso. Lá ninguém celebra o Natal como o aniversário do Menino Jesus, mas sim como o verdadeiro dia do seu nascimento. Todos os anos o Menino Jesus nasce, naquela data, como nascem no horizonte, todos os dias e todas as noites, o sol e a lua e as estrelas e os planetas. Na Ilha do Nanja, as pessoas levam o ano inteiro esperando pela chegada do Natal", escreve no conto "Natal na Ilha do Nanja" presente no livro "Quadrante 1". "Árvores de Natal não existem por lá. As crianças brincam com pedrinhas, areia, formigas: não sabem que há pistolas, armas nucleares, bombas de 200 megatons. Se soubessem disso, choravam", dispara, longe do tom de "Romanceiro da Inconfidência".

Amenizando a crítica, em formato próximo à crônica, em "Compras de Natal" (de "Quatro vozes"), ela enxerga com outros olhos o consumismo de dezembro. "As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro: enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de vidro, fios de ouro e prata, cetins, luzes, todas as coisas que possam representar beleza e excelência. Tudo isso para celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos, deitado numas palhas, há cerca de dois mil anos, num abrigo de animais, em Belém." Lamentando pela efemeridade das alegrias vividas no último mês do ano, ela conclui seu texto certa da permanência do tal menino.

Irônico em demasia, Carlos Drummond de Andrade segue na crítica de Cecília, elaborando um plano caso a data reinasse durante todo o ano. "Não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom", escreve, apontando para vários avanços, em diferentes áreas, da arte ao social, passando até pela morte. "A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém", alfineta no conto "Organiza o Natal", presente em "Cadeira de balanço". Nas palavras de Drummond, sobra até para o Bom Velhinho, vilão no conto "Este Natal", de "Caminhos de João Brandão": "Aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava-­os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras".

Como a resumir o espírito das comemorações em torno do nascimento do menino Jesus na literatura, Drummond é certeiro: "Entre o gasto de dezembro e o florido janeiro,/ Entre a desmistificação e a expectativa,/ Tornamos a acreditar, a ser bons meninos,/ E como bons meninos reclamamos/ A graça dos presentes coloridos".

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