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26 de Junho de 2014 - 06:00

Marina Colasanti, que se encontra com o público juiz-forano hoje, conversa sobre carreira, prêmios e temperamento

Por MAURO MORAIS

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Semifinalista do Portugal Telecom desse ano, Marina participa hoje do "Sesc literatura: Grandes escritores"
Semifinalista do Portugal Telecom desse ano, Marina participa hoje do "Sesc literatura: Grandes escritores"

Mais de 50 títulos escritos em quase cinco décadas de carreira, somando mais de duas dezenas de importantes prêmios. Uma trajetória superlativa trilhada com gestos diminutos, com a voz firme porém tranquila, com a certeza de que a permanência é a aliada da autenticidade das intenções. Convidada do projeto "Sesc literatura: Grandes escritores" desta quinta-feira, a escritora Marina Colasanti fala, às 20h, no Teatro Pró-Música, sobre os livros lançados, sobre o processo de criação e responde a perguntas dos espectadores. Indicada na primeira etapa do Prêmio Portugal Telecom desse ano, a autora de "Antes de virar gigante", obra juvenil que lhe rendeu seu sexto prêmio Jabuti, em 2011, conversou, por telefone, com a Tribuna e, entre recordações e algumas constatações, foi objetiva ao refletir sobre o próprio caminho: "Trabalhei bastante, foi a felicidade da minha vida. Nunca me entediei com esse trabalho, nem nas redações, nem em meu escritório. É bom, e eu gosto. O valor disso tudo não cabe a mim dizer, mas garanto que fiz o meu melhor. No momento de cada livro, era absolutamente o melhor dentro de minhas capacidades, que podem até ser pequenas. Me dá muita serenidade pensar que pude fazer o melhor para mim."

Com formação em artes plásticas, Marina iniciou sua relação com as palavras, de maneira profissional, na década de 1960, quando começou a atuar no jornalismo. Das notícias às crônicas, a escritora transitou por diferentes espaços, tendo sempre a seu alcance a arte. "Toda a parte de imprensa diária, os 11 anos de 'Jornal do Brasil' foram em segundo caderno, imprensa cultural. Aquilo que eu tinha como bagagem de leituras, de uma visão ampla do mundo, de um contato amplo com a arte foi muito bom para mim, era meu 'hard disk' que levei para o jornal. O jornal me deu dinamismo, rapidez, concisão, a visão do imediato, do que é importante no panorama, qual o foto do dia. Quando fui para a imprensa mensal - fiquei 18 anos na Editora Abril -, fiz um trabalho de reflexão, de muita pesquisa. Tive que estudar muito, era editora de comportamento, fazia quatro matérias por mês e precisava estudar, ler história, costumes e ligar isso ao presente, na visão do jornalismo. Olhando isso, acho que tudo enriquece tudo", comenta.

A estreia da escritora na literatura aconteceu em 1968, com as crônicas de "Eu sozinha". Dona de facetas diversas, a Marina que faz poesias também escreve contos, ensaios, crônicas para a imprensa e ilustra seus trabalhos infantis. Contudo, as muitas vozes se encontram na linguagem sempre repleta de delicadezas. "Se existisse alguma predileção, eu só faria aquilo. Teria sido até melhor no ponto de vista de carreira, porque essa coisa que parece ser fragmentada, e não é, é como se eu tivesse uma orquestra de câmara - e eu toco todos os instrumentos para conseguir a música que quero alcançar. Do ponto de vista de quem está fora, parece uma bicada aqui, outra acolá, poeta não é, contista tampouco. Não pertenço a nenhuma grei, sou um francoatirador. Em termos de penetração, isso não me favorece, mas eu só faço o que quero, e quero fazer várias coisas. Quando estou em um gênero, o outro se enriquece, se renova, porque o olhar é diferente. Quando faço um livro de minicontos, saio dele diferente do que entrei, e isso capitalizo para um próximo trabalho", conta, comprovando o fôlego de uma produção ininterrupta.

"Hoje a literatura é dominada pelo mercado de livros: títulos em demasia e pouquíssimo tempo nas livrarias. Isso é muito prejudicial para a literatura, é um sistema que favorece o best-seller - o livro de leitura mais popular, de leitura mais de prazer, de imersão que reflexão. O livro de reflexão se fazia pelo boca a boca, quando lê e fica impactado e comenta com outra pessoa, mas para isso precisa de um tempo nas livrarias. Hoje elas já não têm espaço para acolher a enxurrada, a tsunami de livros que chega todas as semanas. É um sistema inquietante. Se o editor não paga os lugares da frente de uma livraria, os livros vão para o fundo e somem em uma prateleira. Se a editora não tem um poder de fogo na mídia, não sai nenhuma notícia do livro, e, assim, ninguém compra. Tudo tornou-se muito complexo", critica ela, que viu tempos menos ingratos e passou por editoras das mais diversas. Há anos, tem publicado grande parte de seus títulos pela tradicional Global Editora, de São Paulo.

 

 

 

Venda silenciosa

Se os tempos são outros no mercado literário, também são outros os predicados do próprio fazer. No Prêmio Portugal Telecom deste ano, Marina Colasanti concorre com o título "Hora de alimentar serpentes", publicado no ano passado, ao lado de nomes já conceituados como Gonçalo M. Tavares e Beatriz Bracher, mas também escritores estreantes como Antonio Prata e Ana Elisa Ribeiro. "Somos muitos. Isso é uma multidão. Num concurso como esse, o mais sábio é esquecer que passou na primeira triagem. Ficar na fissura, Deus me livre!", brinca. A verdade é que, aos 76 anos, Marina continua avessa aos barulhos e prefere a serenidade. "Não tiro selfie. Não sou uma pessoa assim, por temperamento, não é nenhuma virtude. Tenho um temperamento suficientemente discreto. E também porque não fui e nunca pretendi ser uma pessoa de grandes lendas, não quero comprar um barco, quero apenas viver e viajar, escrevendo o que me interessa escrever. Claro que quando isso tem sucesso é muito bom. Tenho vários livros de muita vendagem, porém silenciosa, chamados long-sellers. Isso me tranquiliza. Muitas pessoas nem souberam que esse livro - 'Hora de alimentar serpentes' - está na rua, souberam agora por conta do Portugal Telecom. É assim, a gente tem que viver no mundo que temos. Sou teimosa e continuo fazendo, como sempre fiz", diz. Todo esse comedimento, essa reserva que também se apresenta como elegância, é, há mais de quatro décadas, partilhada - bem como a teimosia - com o também escritor Affonso Romano de Sant'Anna: "Na poesia é flagrante a presença de Afonso. No resto, durante todo o processo, somos os primeiros leitores um do outro, somos a interlocução constante, falamos o tempo todo do que estamos fazendo. Sabe aquela bicicleta para duas pessoas que se chamava Tandem? É isso, um Tandem literário!".

 

MARINA COLASANTI

 

Hoje, às 20h

 

Teatro Pró-Música

(Av. Rio Branco 2.329)

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