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14 de Março de 2014 - 06:00

Fotógrafo mineiro Fernando Ancil expõe trabalhos nos quais enfoca campos de várzea

Por MAURO MORAIS

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Trabalhos da série "Geometrias orgânicas"
Trabalhos da série "Geometrias orgânicas"
Imagens da série "Anotações sobre espaço e tempo"
Imagens da série "Anotações sobre espaço e tempo"
Obra da série "Contracampo"
Obra da série "Contracampo"

As cidades se transformam. Algumas em ritmo acelerado, outras de forma morosa. O tempo passa, e o que antes era horizontal, sucumbe ao gigantismo do movimento de verticalização dos espaços urbanos contemporâneos. Em meio a essa trama geográfica, estão espaços vazios, para os quais o fotógrafo nascido em São João del-Rei e radicado em Belo Horizonte Fernando Ancil lança seu olhar. Em "Contracampo", exposição que inaugura nesta sexta, às 20h, no Museu de Arte Murilo Mendes, o lugar do futebol amador é o espaço em branco no qual o artista, despido do valor simbólico que existe nessas construções, revela a perfeição de traves que se encaixam, a artesania de desenhos sinuosos e a resistência de ambientes lúdicos. O campo de várzea é a urbe em movimento.

Nas três séries trazidas a Juiz de Fora para a mostra - "Contracampo", "Geometrias orgânicas" e "Anotações sobre espaço e tempo" - Ancil se atém às áreas que fogem da paisagem reinante. Da esterilidade do chão que nada frutifica ou nada alicerça, estão o desejo de lazer, o fôlego das cidades. Técnico em conservação e restauração de bens culturais móveis pela Fundação de Arte de Ouro Preto e graduado em artes visuais pela Escola de Belas Artes da UFMG, Ancil descobriu, ao acaso, o que já lhe rendeu cinco séries sobre os campos de várzea. Em 2009, quando trabalhava na região do Vale do Urucuia, no Noroeste de Minas Gerais, em uma de suas caminhadas por uma cidadezinha, deparou-se com um campo de futebol e resolveu pôr em quadro, com os olhos, uma trave dentro da outra. Nascia, então, "Contracampo", série de fotografias medindo dois metros de altura e 1,26 metros de largura, nas quais o enquadramento rigoroso centraliza, em primeiro plano, uma trave e, dentro dela, a outra, oferecendo ao espectador uma noção exata de perspectiva.

Nos trabalhos, realizados em muitos outros campos por onde passou, não existem chuteiras, muito menos grupos amadores, apenas a sensação de utilidade dos espaços. Nada ali é infecundo, e os títulos trazem a precisa coordenada geográfica. "Para chegar nesses campos, comecei a usar o sistema de imagens via satélite. Olhava pela internet, fazia o mapeamento da região para ver se tinha campo de futebol e saía com a direção pronta. Daí eu percebi que essas imagens por satélite já eram um possível trabalho", conta, referindo-se à série posterior, "Geometrias orgânicas", que reúne, em olhar que sobrevoa, cenas desses ambientes, marcados pelo improviso. "Esses campos, que antes estavam sendo completamente esquadrinhados, na verdade, são tortos. Tenho, então, uma rigidez de enquadramento em uma série e, em outra, percebo que esses espaços não são retos", analisa o artista.

 

Registro do passado

Em "Anotações sobre espaço e tempo", os campos são revelados também pelas imagens de georreferenciamento, mas são capturados em perspectiva temporal, com período entre eles de cerca de dez anos. Uma das regiões visitadas é exatamente um campo que Juiz de Fora conheceu até meados dos anos 2000. O espaço voltado para o futebol, localizado na Praça José Gattás Bara (conhecida como Curva do Lacet, na Avenida Itamar Franco), está presente no trabalho de Fernando Ancil e na memória de algumas pessoas. "É um olhar sobre o crescimento urbano, sobre a ocupação do espaço nas cidades. Alguns campos resistem e vão sendo cercados novamente pela cidade, outros deixam de existir, como é o caso do campo na Curva do Lacet", reflete.

Para destacar o seu objeto de discussão, Ancil fixa, à mão, sobre os campos, pequenos adesivos em vinil vermelho. Essa artesania do artista, que lança mão da fotografia analógica e da apropriação de imagens - procedimentos pouco artesanais quando relacionados com a história da arte -, reflete a forma como os locais de lazer são formados. "São todos feitos à mão. As traves, normalmente, são feitas à mão. Embora algumas sejam de tubulação de ferro, provavelmente, foi algum soldador que fez, cortou e montou. O desenho do campo é feito à mão. E eles aproveitam o espaço onde estão inseridos. Além de serem tortos, apresentam uma área menor que a outra, não é um retângulo exato. Muitas vezes é um trapézio. O aproveitamento é quase uma imposição. Às vezes o terreno tem um desnível, um córrego, um barranco, e, como não se tem recursos para fazer uma obra de engenharia, ele é construído de maneira artesanal", conta.

Apesar de simbolicamente ser forte - o futebol como um dos mais importantes esportes no país, o amador como uma resistência e outras questões próprias dos campos de várzea -, o interesse de Ancil recai sobre o espaço e, daí, atinge lugares mais subjetivos. O trabalho tem uma dimensão temporal, documental, de registro histórico e está em processo, visto que o objeto está sujeito às intervenções, maneira como também foi originado. "Acho muito bonito essa liberdade do uso do espaço. Ele é aberto, pode ser usado como quiser, por quem quiser. No Vale do Jequitinhonha, um dos campos que fotografei era uma plantação de arroz em certo período do ano, no resto voltava a servir ao futebol", comenta. Na verdade, os campos da exposição "Contracampo" tangem o humano e suas aflições, afinal, ao falar das cidades, não há como se distanciar completamente de quem as compõe.

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