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27 de Abril de 2014 - 06:00

Na TV, na música ou na literatura, cultura medievalista invade imaginário dos jovens

Por RENATA DELAGE

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Grupo de estudantes treina táticas de combate
Grupo de estudantes treina táticas de combate

Paramentados com vestimentas e armas medievais, os "cavaleiros" que duelam na Praça Cívica da UFJF podem parecer, sob um olhar menos atento, deslocados na paisagem contemporânea. Ao contrário, os adolescentes se lançam em um universo dos mais atuais, no qual ler "O Senhor dos Anéis" e assistir a "Game of thrones" é lei. Os Arautos da Guerra são pioneiros do "swordplay" na cidade, atividade na qual há simulações de duelos e até mesmo guerras de campo. A prática, embora recente no país, já ganhou milhares de adeptos - sobretudo nos grandes centros - e figura como uma das várias vertentes da "febre de Idade Média" que se alastra pelo globo.

Segundo um dos fundadores dos Arautos da Guerra, Igor Detoni, de 16 anos, a sugestão da prática veio de um colega de Santos e logo ganhou o interesse dos amigos, que se mobilizaram por meio do Facebook. Integram hoje a página na rede social mais de 40 jovens, que têm a manhã de domingo reservada para o treino na UFJF desde o fim do último ano. "Nossos treinos são divididos em duas partes. Na primeira, fazemos atividades mais recreativas, como uma caça à bandeira. E, na segunda, partimos para as táticas de grupo. Treinamos modos de lutar, diferentes formações, táticas de guerra. Estávamos estudando agora as táticas romanas", compartilha o estudante.

Os participantes utilizam armas brancas feitas basicamente de PVC, espuma de alta densidade e fita adesiva. "Na internet, existem vários sites que ensinam a fazer as armas", diz Igor, contando que os figurinos medievais foram feitos por costureiras e também pelas mães dos amigos.

Descendente direto do RPG (role-playing game) - cujo primeiro e mais popular sistema, o Dungeons and Dragons, nasceu nos Estados Unidos, na década de 1970 -, o RPG "live action" (ou Larp) é uma espécie de teatro de improviso, no qual os jogadores interpretam personagens de uma história previamente contada. O "sworplay" também tem suas raízes atreladas ao jogo, e seus praticantes - em sua grande maioria - já se aventuraram por esses terrenos.

Para o repórter da Tribuna, Hélio Rocha, que se prepara para lançar seu primeiro livro de ficção, há dois universos de "medievalistas" aficionados. "Existem os fãs da cultura pop de Idade Média, aqueles que se fantasiam, que são um nicho dentro da cultura pop que poderia gostar de outras vertentes, como os animes, por exemplo. E existem aqueles que se interessem por elementos do período por gostar de história, arte e filosofia", diz o jornalista, enquadrando-se no último grupo.

"Málkian - A lenda de Florine" é o primeiro livro da saga de seis títulos da série escrita por Hélio. A inquietação adolescente por viver em um mundo sem magia, "chato", deu os primeiros contornos da história, que foi sendo amadurecida ao longo dos últimos dez anos.

A narradora da saga vive em um mundo em que a magia se foi, mas a história contada se passa em período em que ela ainda existia. "A magia está relacionada com a forma como enxergamos o mundo. Quando começamos a acreditar apenas no concreto, quando entram em cena os paradigmas puramente científicos, perde-se a crença no algo superior, o que traz implicações éticas, morais, faz o mundo mais sem graça."

O cenário da trama remonta a uma espécie de Europa renascentista, de rupturas com as características medievais, e se passa em uma terra chamada Málkian. Permeada por referências históricas (como o surgimento dos primeiros pensadores iluministas), a obra conta a trajetória de uma terra, seu povo, seus conflitos, seus limites territoriais. Tudo foi criado pelo autor com influências e pesquisas em diversos clássicos, como "O Senhor dos Anéis", "Os três mosqueteiros" e "Rei Arthur". "Quando o leitor está em um espaço de fantasia, este é tão forte que se torna real", assevera o autor.

 

Reflexo social

Não apenas o mundo medieval, mas épocas ainda mais remotas norteiam os conceitos seguidos pelos juiz-foranos da banda Hagbard. Representantes do gênero folk metal, o grupo tem como grande influência a mitologia nórdica. As letras, em inglês, lembram batalhas épicas e trazem referências literárias - de obras como a trilogia já tão citada de Tolkien e da série de George R. R. Martin ("As crônicas de gelo e fogo").

"O folk metal, basicamente, é a mistura do metal com a música regional, mas, nesse caso, com o regional europeu. No nosso CD, temos violino, flauta", explica o guitarrista Danilo Marreta, que toca ao lado de Igor Rhein (vocal), Gabriel Soares (teclado e flauta), Everton Moreira (bateria) e Rômulo Sancho (baixo). Fundada em 2010, a banda lançou, em 2013, seu primeiro CD - "Rise of the sea king". O título da obra faz referência ao personagem mitológico que deu nome à banda, Hagbard, um rei dos mares em ascensão, segundo a mitologia nórdica.

O álbum, assinado pela gravadora russa Sound Age, foi lançado em Moscou e posto à venda pela internet. "Encontrar gravadora no Brasil não é fácil, e lá fora há mais interesse", explica o guitarrista. "O estilo apareceu com mais força no exterior por volta de 2008. Aqui é uma novidade, mas está crescendo também. O Brasil já tem vários eventos temáticos do gênero", diz o músico, de 26 anos. "Os outros integrantes da banda são ainda mais novos. Crescemos com essa explosão do universo mitológico, fantástico."

As implicações sociais de tais obras também chamaram a atenção da jornalista Paloma Destro. Mestranda da linha de comunicação e identidades da Faculdade de Comunicação Social da UFJF, Paloma optou por voltar seu foco ao realismo fantástico e analisa, em sua pesquisa, o papel desempenhado pelas mulheres da série de TV de maior sucesso dos últimos anos, "Game of thrones".

Exibida pela HBO, a produção é inspirada nos livros da saga "As crônicas de gelo e fogo", de George R. R. Martin. Dos sete títulos previstos, cinco já foram lançados pelo americano, fenômeno mundial de vendas e, por conseguinte, de audiência.

"A série, embora ambientada na Idade Média, traz relações sociais que são reflexo da nossa sociedade contemporânea. As mulheres, por exemplo, não são submissas, têm uma posição de destaque. Embora não peguem nas armas, são elas que pensam nas estratégias do jogo, integrando um contexto de superioridade feminina", destaca a pesquisadora, que decidiu estudar o tema graças a seu fascínio por sagas do gênero.

A jornalista visitou a exposição itinerante da série "Game of thrones", que esteve no Rio de Janeiro na segunda semana deste mês. Embalados pela trilha sonora do programa, os fãs puderam ver os figurinos e armas usados nas gravações, bem como se sentar no simbólico Trono de Ferro. "Como a entrada é gratuita, é preciso gastar bastante tempo no site para conseguir o voucher", conta a juiz-forana, refletindo sobre a popularidade do produção, que faz com que a exposição esteja sempre lotada, aonde quer que vá. "Esse tipo de evento gera um mídia espontânea muito interessante, já que tudo é publicado nas redes sociais dos participantes."

"The Tudors", "Roma" e "Once upon a time" são outras séries de TV recentes de sucesso que confirmam a febre jovem em relação ao universo fantástico dos cavaleiros, lembrados por Paloma. "Compartilho da ideia discutida com meu orientador - José Luiz Ribeiro - de que tal interesse pode refletir o fato de a nossa sociedade ser um tanto medieval, no sentido de nos depararmos todos os dias com a violência, com atrocidades nas páginas dos jornais. Essa demanda nos faz pensar que a fantasia pode favorecer tais projeções da nossa identidade."

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