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20 de Abril de 2014 - 06:00

Conheça algumas preciosidades de coleções particulares de obra de arte em Juiz de Fora, que não estão à vista do público

Por MAURO MORAIS

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Pintura de 1880 de Pedro Weingärtner
Pintura de 1880 de Pedro Weingärtner
Pintura da naïf Rosina Becker do Valle
Pintura da naïf Rosina Becker do Valle
Gravura do venezuelano Carlos Cruz-Diez
Gravura do venezuelano Carlos Cruz-Diez

Uma gravura de Tarsila do Amaral cuja matriz foi feita invertida e hoje integra seu catálogo raisonné (aquele que mapeia toda a produção da artista). Um desenho de Anita Malfatti com dedicatória para Menotti Del Picchia, datada de 1925, em Paris. Um dos estudos para a série "Bichos", de Lygia Clark, com assinatura no verso. Relevantes na história da arte brasileira, essas obras não estão à disposição do público e integram vultuosas exposições particulares de colecionadores locais, que, por motivo de segurança, a Tribuna não revelará as identidades.

No momento em que se iniciam os trabalhos do Conselho Consultivo do Patrimônio Museológico do Instituto Brasileiro de Museus, cuja primeira reunião foi feita no último dia 11, data em que nomes de destaque das artes nacionais tomaram posse, o país volta suas atenções aos acervos particulares, muitos deles bem mais relevantes que coleções públicas. Publicado em outubro de 2013 no Diário Oficial da União, o decreto nº 8.124 possibilita que obras de arte pertencentes a pessoas físicas sejam consideradas de interesse público e, sendo assim, possam ser acompanhadas pelo Estado com o intuito de garantir sua preservação. Dentre os nomes que compõem o conselho, está o do presidente do Ibram e ex-prefeito de Ouro Preto Angelo Oswaldo, além da colecionadora mineira e diretora do Instituto Cultural Flávio Gutierrez, Angela Gutierrez.

Polêmica, a proposta governamental divide opiniões, já que tal fiscalização poderia incidir na desvalorização dessas obras. "Se aquilo não foi comprado com dinheiro público não faz sentido a entrada do Governo", pontua um colecionador local. "O problema é que, uma vez instituído esse conselho, ficamos à mercê", completa outro colecionador, acrescentando a confiança nos membros atuais, mas temeroso em relação a outras formações, que podem reivindicar interferências maiores em algo pessoal, construído com certo sacrifício e de valor afetivo inestimável. Num cabo de guerra no qual é inegável o interesse do público, cabe discutir os limites do Estado e os direitos do que é privado. As obras de colecionadores de Juiz de Fora corroboram a pujança dos acervos pessoais em contraponto às coleções públicas, cada vez mais defasadas e enfraquecidas.

 

 

'Prefiro um quadro a um carro'

Em uma residência no bairro Bom Pastor, está, pelas paredes, uma leitura íntima da história da arte brasileira a partir do século XIX. Da pintura acadêmica, com singular domínio da luz, feita pelo chileno radicado no Brasil Henrique Bernardelli, um dos maiores expoentes da arte nacional no século XIX, ao objeto contemporâneo da série "Principia", assinada por Vik Muniz, o acervo passa pelo modernismo com Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral e Cícero Dias; pelos anos 1950, com Ivan Serpa, Renina Katz e Djanira; desaguando em trabalhos mais recentes, como os de Leonino Leão e Israel Pedrosa, sem se esquecer de Juiz de Fora, com Eliardo França, Renato Stehling, Carlos Bracher e alguns outros.

"Hoje tenho um grande interesse em construir uma coleção da arte do século XIX ao XXI. No momento, me atenho mais ao anos 1800, mas isso depende dos meus recursos e das ofertas", comenta o colecionador, cujo hobby é frequentar sites de leilões, acompanhando valores, raridades e algumas instabilidades no mercado das artes. "A internet facilitou muito a aquisição. Hoje compro um quadro dentro de casa. Todo dia dou uma olhada em um leilão. Digo que é meu campeonato brasileiro, minha Fórmula 1", brinca. Iniciado há 30 anos, o acervo começou a ser montado com a compra de gravuras e hoje conta com telas à altura das pertencentes ao Museu Mariano Procópio, como os trabalhos de Torquato Bassi, italiano radicado em São Paulo, e uma natureza morta em grande dimensão de Frederico Bracher, cuja família, segundo ele, é uma das responsáveis por treinar o olhar do juiz-forano para a arte. "Temos uma cidade que, à despeito de tudo, tem obras que nos moldam para a apreciação da pintura", diz.

Presente na coleção do Museu Nacional de Belas Artes, o pintor Pedro Weingärtner é um dos grandes orgulhos do colecionador. A pequena pintura datada de 1880 talvez seja a obra mais valiosa do acervo, mas as cifras não são relevantes aos olhos do proprietário de "L'oiseau de G. Braque a Recife", de Arlindo Daibert. "Penso na alegria de ver essas coisas que gosto. Isso não pode me comprometer. Só adquiro o que seja tranquilo de ter. Porém, prefiro um quadro a um carro", pontua, encarando os mais de cem quadros e mais de uma dúzia de esculturas, que diz não pensar em vender. "Como não temos filhos, pensamos, eu e minha esposa, em deixar essas obras para uma instituição local. Tenho vontade de ver isso em um museu", aponta.

 

 

'O que norteia minha compra é o gosto'

Na parede de entrada de um apartamento situado na Avenida Itamar Franco, quem dá as boas-vindas ao visitante é uma colagem da série "Bananas", de Carlos Scliar. A obra, adquirida na década de 1980, foi a primeira de uma coleção iniciada pela pai, colecionador do barroco brasileiro. "Sempre acompanhei meu pai em leilões. Ele me deixava dar pequenos lances", conta o colecionador, observando as paredes onde já não cabe nenhuma nova obra, o que lhe fez diminuir o ritmo nos últimos anos. "Quando eu chego em casa, essas obras me abraçam. A arte é uma das coisas que mais me dá prazer no mundo. A única coisa que norteia minha compra é o gosto. Eu preciso gostar", diz, revelando frequentar leilões e antiquários, os quais lhe oferecem a certeza de que a obra é original. Sempre que um trabalho de seu acervo entra para um catálogo raisonné, ele corre para adquirir o livro, guardando junto aos muitos certificados de autenticidade.

Um dos artistas que compõem a coleção do poeta Murilo Mendes, doada ao museu que carrega seu nome, o italiano Arcangelo Ianelli divide o espaço, nesse apartamento, com o irmão Thomas Ianelli, confirmando a grandeza das obras que pertencem aos séculos XIX, XX e XXI, com ênfase na geração modernista brasileira, das décadas de 1920 e 1930.

Reconhecido por suas bandeirinhas, Alfredo Volpi surge em uma gravura pertencente a sua fase concreta, mais rara que o período das regionalistas festas juninas. Aldo Bonadei e Clóvis Graciano, artistas que influenciaram Volpi, também circundam a obra no apartamento. "As pessoas, hoje, têm muita pouca chance de ver isso, então veem aqui em casa", afirma, destacando sua preocupação em conservar tudo em um ambiente climatizado e protegido da presença direta de luz natural sobre os quadros.

Além do modernista José Pancetti, da naïf Rosina Becker do Valle, do argentino Carybé (radicado em Salvador, reconhecido por refletir a brasilidade em suas obras) e outros nomes fundamentais para a compreensão da história recente da arte brasileira, a coleção também reúne artistas contemporâneos como Marcos Coelho Benjamin, Alex Cerveny, Arthur Piza e um representativo trabalho de Farnese de Andrade. Quanto ao futuro do acervo, o colecionador é enfático: "Um dia, se houver uma instituição séria na cidade, eu doo tudo, ou então vendo tudo isso em um leilão e faço uma volta ao mundo".

 

 

 

'Uma coleção é uma vaidade'

Há um despojamento na arte contemporânea que não combina mais com as molduras em rococó comuns aos quadros da arte clássica. E isso pode ser comprovado ao observar os espaços de uma residência no bairro São Mateus, que reúne representativas produções atuais do país e do exterior. A coleção particular conjuga desde as bolas (semelhantes às bolas de futebol) do carioca Felipe Barbosa, até uma pequena escultura da mineira Iole de Freitas, com seus arames e acrílicos remetendo às grandes instalações da artista. Iniciado com um desenho de Dnar Rocha, comprado em três prestações, o acervo hoje conta com obras de nomes emergentes, como Marcos Cardoso, uma das mais recentes aquisições da famosa coleção de Gilberto Chateaubriand, passando pelo valorizado venezuelano Carlos Cruz-Diez, um dos principais nomes da arte cinética mundial. "Geralmente eu compro nomes já consolidados, não gosto de arriscar", ressalta o colecionador, destacando um dos princípios para que a compra seja feita: "Teve uma época em que eu adquiria muita coisa geométrica. Atualmente preciso que haja uma empatia com a obra. Ela precisa conversar comigo".

A escultura de Rubens Gerchman é uma das que mais se destaca na grande sala, onde estão expostos quase todos os trabalhos da coleção, e, ainda, uma das mais caras, afetivamente falando, ao proprietário. "É importante não se pautar apenas no monetário, mas no prazer. Cada obra tem uma história muito íntima por trás. Uma coleção é uma vaidade, um capricho, um hobby, e, por isso, não gosto de pensar no preço disso. Meu prazer não tem preço", reflete o dono de gravuras de Regina Silveira, Waltércio Caldas, Amílcar de Castro, Gonçalo Ivo e muitos outros. Atento ao mercado, o colecionador possui diversas obras que se valorizaram em um curto período de tempo, fenômeno bastante comum na arte contemporânea. Um dos casos é o do gravurista recifense Gilvan Samico, cuja morte em novembro passado fez seus trabalhos subirem de preço. "Comecei comprando obras seriadas, com valores menores. Hoje adquiro trabalhos singulares", afirma, apontando no contemporâneo uma alternativa para construir algo diferente e, na maioria das vezes, mais acessível. "A arte moderna é muito cara. Eu desejava investir em algo novo. O que faço é um diálogo com minha realidade, com meu tempo", observa.

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