Publicidade

08 de Julho de 2014 - 06:00

Em novo livro, 'Biofobia', Santiago Nazarian apresenta escrita renovada e original

Por MAURO MORAIS

Compartilhar
 
Escritor reflete sobre tempo e ofício em novo romance
Escritor reflete sobre tempo e ofício em novo romance

O que te motiva? Para um escritor, a reposta é veloz: rompimentos. Em um momento no qual tudo já parece ter sido feito, os que lapidam palavras ainda se movem por algo carregado de frescor. Próximo dos 40 e com uma carreira consolidada em sete livros bastante diferentes entre si, o paulista Santiago Nazarian rebenta em discurso, temática, linguagem e estética. "Biofobia", seu recente lançamento, à maneira da imagem de capa, revela-se fissura do natural. Interessa o que não é estável. Nem um chão é base segura. E, ainda que as angústias se assemelhem à "Morte sem nome", lançado em 2004, o novo título reserva exercício de madura reflexão e dicção. "Quem faz diferente não faz a menor diferença. Quem não diz o que já se sabe não é ouvido. Agora já fazia quase uma década que não gravava e continuava enganando em shows com covers e sucessos do passado. Semissucessos do passado. Grandes fracassos", diz o narrador, como a ironizar o próprio autor em seu projeto de oferecer a originalidade, ainda que não satisfaça o mercado.

Dono de um passado de sucessos pontuais e de curto alcance e rodeado pelos excessos de uma geração, o protagonista, um roqueiro decadente, é confrontado, em "Biofobia", com a solidão ao desembarcar na casa da mãe, no meio do mato. Após ter se suicidado, a mulher deixou o pedido de que tudo fosse distribuído entre familiares e amigos, sobrando aos filhos a cruel tarefa da amarga partilha, bem como a venda do imóvel. Extremamente urbano, André conhece, no silêncio da casa vazia e na angústia pela perda do porto, uma natureza sufocante. "Para se ter um belo bosque em seu terreno é preciso uma equipe de paisagistas que vença a guerra. Ou muito esforço, suor e sangue derramado", reflete o narrador, um observador igualmente impiedoso e masoquista.

"André agora teria de devolver o mato ao mato. Teria de devolver a natureza ao acaso. Ninguém para limpar, varrer, podar. Ervas daninhas tomando conta e a vegetação desordenada. Árvores esparsas. Não diria 'assimétricas' porque não parecia haver simetria alguma naquela natureza, ainda podada pela mãe. Mas algum tipo de ordem ainda deveria haver. E como ficaria agora, que ninguém mais tomaria conta? Era problema dos próximos moradores. Ou de deus", anuncia certa passagem, demonstrando o thriller que se estabelece sem depender das imagens bizarras já frequentadas por Nazarian. Atento aos assombros do real, o autor intercala construções breves com frases mais longas, sugerindo, já na leitura, o ritmo do suspense, que se fortalece na história concisa e envolvente, de um personagem que ao mesmo tempo em que atrai, pela carência e simpática rebeldia, repele pela fraqueza e instabilidade emocional. "Apesar de essa novela ter raízes profundas na minha família, é totalmente uma obra de ficção. Meus pais ainda estão vivos, tenho quatro irmãos e nunca fui fumante. A base mais biográfica de fato é a casa, a 60km de São Paulo, no meio do mato, onde minha mãe mora", comenta o autor, em nota ao fim da obra, oferecendo a dúvida acerca das pistas de biografia.


Queimando palavras

Rodeado por garrafas quase vazias, restos de cocaína e alguns poucos amigos que chegam e se vão após a casa ser devastada pelos muitos órfãos deixados pela mãe suicida, o personagem André revisa a própria vida e repensa os imperativos da arte pura. Sarcástico em relação à própria literatura, "Biofobia" fala de terra e ar, mas causa mal-estar (no bom sentido) quando fala do fogo. "Crescera numa casa em que os livros eram hipervalorizados, e nunca conseguiu se tornar um leitor. Tinha por eles o respeito burocrático de um aluno pelo professor, mesmo que discordasse do que o professor tinha de fato a ensinar. O que teriam a ensinar? Os livros estavam lá, abandonados. Esquecidos até pelos amigos intelectuais da mãe, pela irmã, pela família. Terminariam como papel de parede, jogados no lixo, comida para porcos. Melhor que gerassem calor", diz o narrador momentos antes de André lançar na lareira - para fortalecer as chamas - obras de autores jovens como Daniel Galera, Michel Laub, Emilio Fraia e Thomas Schimidt, além da própria obra de Santiago Nazarian, "Feriado de mim mesmo", lançado em 2005, e da revista "Granta", da qual o escritor foi excluído.

Com narrativa ágil, cinematográfica em imagens sutis e bem resolvidas - como um galho a bater na janela de um quarto, servindo como compasso do medo -, e reivindicando outro lugar para o "existencialismo bizarro" ao qual o autor é enredado, "Biofobia" confirma a força do discurso de Nazarian. Nada é excessivamente estranho no oitavo livro do escritor, mas enormemente inquietante.

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você concorda com a retirada das pinturas de Lucio Rodrigues dos pontos de ônibus?