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18 de Dezembro de 2013 - 07:00

Quatro mil bulbos de lâmpadas representam lágrimas do sertão em exposição de artista baiano Vinicius S. A.

Por RENATA DELAGE

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Premiado em salões e bienais do país, Vinicius S. A. se prepara para levar "Lágrimas de São Pedro" para a Alemanha
Premiado em salões e bienais do país, Vinicius S. A. se prepara para levar "Lágrimas de São Pedro" para a Alemanha

Gotas generosas caem de um céu idealizado pelo artista plástico Vinicius S.A.. É possível caminhar em meio a elas, sem ser tocado pela água. A chuva que alivia o sofrimento do sertanejo parece ter sido pausada e exibida em grandes proporções pelo artista baiano, reluzindo em sua transparência, na nova exposição aberta no Espaço Cultural Correios, "Lágrimas de São Pedro".

A instalação é composta por cerca de quatro mil bulbos de lâmpadas incandescentes cheios d'água e presos ao teto em variadas alturas por fios de nylon. A iluminação, que explora as nuances do azul, confere ainda mais brilho às milhares de "lágrimas" cristalinas. A fragilidade do material reflete a fragilidade da vida humana nas regiões mais áridas do país. "Cada gota é um tesouro preservado na fragilidade de finos bulbos descartados como lixo no destino derradeiro do consumo contemporâneo. Aquilo que é inútil para uns vira receptáculo do essencial para outros: de berços de luz elétrica a pequenos depósitos de água, energia fundamental para a terra germinar", escreve, em texto para a mostra, a professora da Escola de Belas Artes (EBA) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e curadora de arte Alejandra Hernández Muñoz.

"E se São Pedro chorasse... E sobre nós desaguasse gotas de água... Que eu pudesse pegar com as mãos e brincar com elas... E me mergulhar e sonhar... E se eu chorasse junto? E o chão não mais rachasse... E meus olhos levantassem... Felicidade!", segue a explorar a mostra o doutor em comunicação pela USP e ex-diretor da EBA, Roaleno Costa.

Apesar de viver em Salvador, o artista pode presenciar as dificuldades ocasionadas pela escassez de água no sertão, tema que reverbera na instalação de Vinicius. "Meu avô foi fundador de um distrito em uma região muito seca, e na infância tive contato com pessoas que não tinham água em casa", conta ele, comparando como a chuva forte que assolou Juiz de Fora na última semana seria recebida com festa no interior nordestino. "Existem visões diferentes da chuva. Quis trazer essa chuva do sertão, rogada, esperada, para a área urbana", diz Vinicius.

A obra começou a ser pensada durante uma caminhada "pelas nuvens", no alto da Chapada Diamantina. O encanto pelas gotículas de água na natureza somou-se ao interesse pelas ciências, aprofundado pelo estudo da geofísica - carreira abandonada em favor da graduação em artes visuais pela UFBA. "É uma obra que leva em conta muitos cálculos, tem uma linguagem mais pragmática. A racionalidade é o instrumento da busca pela poesia visual", avalia Vinicius.

A mostra já passou pelas cidades de Salvador, Brasília, São Paulo, Araraquara, Curitiba, Rio de Janeiro e Recife e ficará em cartaz até 1º de fevereiro em Juiz de Fora.

 

Linguagem própria

 O desenvolvimento de uma linguagem própria alia o pensamento científico e as práticas manuais e de pouca tecnologia às proposições de poéticas visuais poderosas. Além de estabelecer diálogos com o espectador, o trabalho traduz a memória do artista e suas experiências. "A inspiração vem muito da música, da imagem, da minha percepção de mundo", explica. Se as inspirações são exclusivamente pessoais, as referências, entretanto, são várias, passando por Hélio Oiticica, Ernesto Neto e Antônio Dias.

Embora se encante pelas transparências e pelo vidro, que, na infância, se transformava em lupa em suas mãos, Vinicius não se apega a técnicas ou a algum material específico em suas obras. "O material usado é uma consequência das necessidades e dos conceitos do trabalho", diz.

O artista baiano possui várias obras premiadas em salões e bienais, a exemplo de "Objeto óptico #02", que recebeu o prêmio de residência artística internacional, no 15º Salão da Bahia, a instalação "Sorria, você está sendo filmado!", premiada no Salão Regional de Artes Visuais da Bahia, e "O pulso da Bienal", que recebeu menção especial na VII Bienal do Recôncavo. "Híbrido de artista e inventor, que promove um profícuo diálogo entre diferentes técnicas e áreas de pensamento, Vinicius constrói máquinas lúdicas e parafernálias poéticas poderosas, extraindo do lixo e do caos da sociedade contemporânea as esperanças de um homem que ainda lembra e segue confiante", diz a curadora de arte Solange Farkas.

Vinicius integrou ainda as publicações "30 contemporâneos brasileiros", de Enock Sacramento, "50 anos de arte na Bahia" e "Água, reflexos na arte da Bahia", de Matilde Matos. Em 2009, participou de residência artística na Holanda e, para o próximo ano, recebeu convite para levar "Lágrimas de São Pedro" para Frankfurt, na Alemanha. A mostra integrará, segundo o artista plástico, uma das maiores bienais de luzes, a Luminale.

 

LÁGRIMAS DE SÃO PEDRO

De segunda a sexta, das 10h às 18h, sábados, das 10h às 14h. Até 1º de fevereiro

Espaço Cultural Correios (Rua Marechal Deodoro 470)

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