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09 de Julho de 2014 - 06:00

Existe limite para a fúria dos internautas? Especialistas discutem o assunto, defendendo a liberdade de expressão e apontando maior atenção da Justiça

Por MAURO MORAIS

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Basta um clique. Em questões de segundos, um vídeo de uma conversa entre mãe (com Alzheimer) e filha se torna um viral na rede, assim como uma nova montagem de um militante político defendendo seu partido, ou até mesmo uma falsa notícia compartilhada e quase legitimada pela proporção de seu alcance. Para o bem e para o mal, a rede pode ser fatal. Acompanhando as narrações e forjando um segundo plano para as transmissões dos jogos da Copa do Mundo, muitas são as montagens repletas de humor a dialogar com um lance imediato. Ao término de uma partida, pipocam nas redes sociais mensagens de apoio, mas, também, ofensas direcionadas a jogadores, juízes, técnicos ou outros sujeitos dos campos. Da mesma forma, muitos são os comentários que se multiplicam na rede e, sem limitar-se ao objeto de controvérsia, ofendem seus autores, de maneira cruel e irresponsável. A relação humana com o mundo virtual ainda é alvo de muitas especulações e poucas certezas, uma delas se refere à urgência por menos fúria num lugar em que os papéis podem ser confundidos - o leitor se torna autor e vice e versa - e todos têm o poder da voz.

"Algumas pesquisas mostram que as pessoas se sentem 'mais livres' na internet para falar o que quiserem. No caso da internet, elas não estão no mesmo espaço, e há uma proteção para além da distância física", comenta o professor da Faculdade de Comunicação da UFJF Carlos Pernisa Júnior, apontando para os muitos avatares a esconderem a realidade. "A rede não é controlável, não tem jeito. Não conseguimos dizer que tudo o que acontece lá é positivo", completa. "Não temos como comparar os tempos. É difícil dizer que essa geração está mais violenta que outra, mas o que podemos afirmar, com segurança, é que essa geração atual é agressiva, e é uma agressividade muitas vezes desproporcional", assinala o professor do curso de psicologia da UFJF Lélio Moura Lourenço. Basta observar os comentários que se espalham por portais, escritas, muitas vezes de maneira gratuita e sem propriedades.

Vilão da partida entre Brasil e Colômbia, autor da joelhada que tirou Neymar da Copa, o lateral Zúñiga teve sua filha, sua mãe e até seu cachorro fortemente ofendidos via Instagram. Em seu perfil na rede social, internautas chegaram a ameaçar de agredir a filha do jogador, que rapidamente retirou as fotos de familiares, mas continua sendo alvo de duros ataques. Em uma recente postagem no Twitter, o apresentador Luciano Huck provou da fúria dos dias que correm. Ao convidar brasileiras para conhecerem gringos que estão no país, o artista foi alvo de inúmeras críticas, muitas delas extrapolando a simples e infeliz mensagem. "#LucianoHuck jogando a Mulherada no colo dos #Gringos. Fala sério hein!!! Joga Tua Mulher #Panaca!!", dizia um internauta, enquanto outro chamava Huck de cafetão, entre outros nomes, alguns impublicáveis. "Há certo desrespeito pelo outro, o que é, no mínimo, preocupante. E isso passa por valores, por uma série de reforços sociais, como, por exemplo, o fato de ser agressivo conferir respeitabilidade maior. O que gerou isso é difícil de dizer, já que são muitos fatores. Analisando pelo ponto de vista do politicamente correto, vemos que as pessoas hoje têm um conhecimento muito maior do que tinham há alguns anos. Hoje as pessoas são mais educadas, fumam fora de ambientes fechados, ajudam as velhinhas a atravessarem a rua, mas por outro lado agridem quem discorda delas", analisa Lourenço.

 

 

 

Quem ri por último...

"O problema é que muita gente ofende a sério, no sentido de criar um espaço de confronto, e outros fazem num sentido de liberdade moral, com sarcasmo ou deboche", pontua Carlos Pernisa Júnior, para logo defender: "Não é necessariamente um problema, porque não dá para levar tudo a sério na internet. Assim como no ambiente off-line, não tem como considerar tudo. A internet possibilita que as pessoas sejam mais agressivas porque há maior espaço e facilidade para isso. A ideia de falta de controle faz com que as pessoas se coloquem ainda mais." Contudo, os furiosos que não filtram seus discursos inflamados não estão impunes, garante o advogado e professor de direito eletrônico no Instituto Vianna Júnior, Lair de Castro Júnior. "Hoje em dia temos conseguido resultados positivos na Justiça com relação a ofensas que passem do limite da liberdade de expressão. Recentemente entrou em vigor o Marco Civil, que é uma legislação com o intuito de regulamentar determinados comportamentos na internet", diz.

"Dependendo do nível da ofensa, podemos partir para a esfera penal com crimes contra a honra, calúnia, injúria e difamação. Normalmente essas pessoas que praticam ofensas tentam se omitir através de "fakes", mas também já conseguimos identificá-las, seja por perícias na área de informática, seja por medidas cautelares pedindo os dados utilizados na rede", explica Castro Júnior, acrescentando que o Marco Civil prevê, hoje, que os provedores preservem, por seis meses, informações sobre seus usuários. Membro da comissão especial da tecnologia da informação e tecnologia no Conselho Federal da OAB e coordenador da comissão de direito eletrônico e crimes de alta tecnologia na OAB/Juiz de Fora, o advogado vê com otimismo a área que, segundo ele, tem crescido bastante nos últimos anos. "A parte legislativa acompanha mais lentamente do que o judiciário. O direito, em si, tem buscado respostas mais rápidas. Vejo a impunidade sendo causada mais pela vítima do que pela ausência de punição. Muitas vezes as pessoas acreditam que não vale a pena procurar a Justiça para tentar coibir ou ressarcir esse tipo de conduta. Há morosidade judicial, mas é, comparativamente, inferior a outros casos", afirma.

Para o professor Pernisa Júnior, para além da ira dispersa na rede, há preocupações mais latentes: "Isso é manifesto, nós vemos, e está claro. Já as coisas que não vemos na rede - envio irrestrito de spam, invasões de hackers, entre outros - eu considero serem mais graves do que a questão das ofensas. Isso é mais invasivo." Mesmo defendendo punições às muitas gratuidades travestidas em wwws e arrobas, Castro Júnior percebe exceções: "Em alguns momentos, em minha análise, recomendo que a pessoa não responda, porque a proporção dada quando se responde pode ser maior, bem como o prejuízo. Não é uma questão de relevar, mas cabe analisar se a perda pode ser maior com uma ação", pondera.

 

 

O caminho ainda é névoa

Se há algumas décadas um simples comentário era recebido como o auge da interação, hoje o futuro reserva incertezas, com a possibilidade de a própria rede gestar outras formas de contato e sensações. "As pessoas ainda não têm muita ideia do que é a interação, nem temos mecanismos que proporcionam algo mais efetivo. O que temos ainda é muito ínfimo, ainda há um longo caminho para evoluirmos", comenta Carlos Pernisa Júnior. De acordo com ele, avanços maiores exigem mudanças de mentalidade da sociedade. "Não tem um formato melhor. Pode ser e-mail, rede social, comentários. Não há um meio específico. Qualquer meio é válido, depende das intenções", diz. Segundo Lélio Moura Lourenço, as banalidades que originam grandes rivalidades na rede confirmam uma característica própria da era virtual: "A internet 'emocionalizou' o ser humano. A rede é muito imediatista, e isso dá um caráter mais emocional às respostas, aos níveis de interação". Fato é que as velhas cartas, antes trabalhosamente redigidas, postadas e enviadas para alguém, hoje foram substituídas por e-mails, posts e mensagens impessoais, muitas vezes agressivas, que, acabam por fazer parte do jogo no qual se faz a comunicação.

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