Publicidade

26 de Junho de 2014 - 06:00

Iriê Salomão exibe nova série, inspirada nos ladrilhos hidráulicos fabricados por Pantaleone Arcuri

Por JÚLIO BLACK

Compartilhar
 

Transformar em arte um pedaço de nossa história que vai sumindo aos poucos, sob nossos pés. História que, por si só, já deveria ser vista como cultura, arte consumada em um modo de fabricação que praticamente desapareceu. Este é o objetivo do artista plástico Iriê Salomão, que promove nesta quinta-feira, a partir das 20h, na Assunta Forneria, a exibição de seus novos trabalhos, da série "Do piso à parede", inspirada nos ladrilhos hidráulicos produzidos pela empresa de Pantaleone Arcuri entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX. Após a exibição única desta noite, os trabalhos de Iriê seguem para Londres (Inglaterra) e Viena (Áustria), onde ficarão expostos entre agosto e outubro, retornando então para mostra no Museu Inimá de Paula, em Belo Horizonte.

Iriê Salomão explica que busca criar a partir de aspectos históricos e sempre teve o desejo de fazer algo ligado à influência de Pantaleone Arcuri na história de Juiz de Fora. A escolha pelos ladrilhos hidráulicos se deu quase por acaso, há cerca de um ano, ao observar o piso de um dos imóveis da Prefeitura de Juiz de Fora. Ele imediatamente fotografou o trabalho de Pantaleone e experimentou reproduzi-lo em casa, no papel. Com o resultado positivo, iniciou a busca por outros exemplares produzidos na fábrica juiz-forana e encontrou inúmeros ladrilhos em edifícios públicos da cidade, resultando nas 16 mandalas, fruto de dez meses de trabalho diário, que tomava entre seis e oito horas por dia do artista, utilizando a técnica mista de tracejado e pontilhado, que desenvolve há mais de 40 anos.

"De alguns ladrilhos, eu peguei apenas um detalhe do desenho, outros trabalhos são resultado da junção de quatro deles, que forma uma imagem. Eu mantenho até o defeito do original. O ladrilho hidráulico é feito com a fundição de uma placa de concreto, depois é colocada a fôrma de latão, feita por artesãos na Itália, para enfim aplicar a tinta colorida sobre o cimento. Por isso os desenhos não são perfeitos, e essa imperfeição eu mantive", conta ele, que também se valeu da técnica da "régua mordida" (quebrar pedaços da régua para criar a sensação de "ondas").

Para o artista, um dos principais aspectos da composição desse tipo de revestimento era exatamente a originalidade de cada trabalho, o que aumentou ainda mais o desafio. Cada etapa de criação das mandalas passou pelo processo de fotografia, reprodução a lápis e pintura com aquarela, até chegar à finalização com nanquim. Trabalhando em duas obras ao mesmo tempo, demorava cerca de um mês para completá-las. O resultado são reproduções as mais fiéis possíveis, oferecendo ao observador uma sensação de profundidade, superfície e até mesmo tridimensionalidade.

A "redescoberta" dos ladrilhos hidráulicos, presentes em tantos edifícios antigos, veio ao encontro da busca do artista em despertar nas pessoas o conhecimento histórico através da arte, assim como conhecer o que já foi feito de belo. "Quero valorizar o aspecto histórico de uma época em que Juiz de Fora era uma cidade promissora e homenagear Pantaleone por meio dos detalhes que ele dava às casas - e que estão sendo destruídos, substituindo os ladrilhos por piso frio. Infelizmente, as pessoas acham que o velho, o antigo, não tem a menor importância, que para crescer é preciso desmanchar. Devemos lembrar que estamos aqui porque alguém veio antes de nós e construiu. Quando você não preserva não tem noção de pertencimento. Quando não preserva o conhecimento, a cultura, o trabalho de seus antepassados, a cidade não tem fisionomia, ela acaba não pertencendo a ninguém. Não é saudosismo, é você deixar uma marca para que seu filho saiba onde seu pai pisou, seu avô, e onde você também pisará", filosofa.


Tesouro pouco conhecido

A valorização histórica e cultural do passado contribuiu ainda para que Iriê Salomão descobrisse um dos últimos trabalhos da Pantaleone Arcuri, que ele considera dos mais importantes: o mosaico em pastilhas na antiga residência de Benjamin Colucci, na Avenida Rio Branco, ao lado da Santa Casa, indicado pelo neto de Pantaleone, Roberto Arcuri. "Foi um presente do Pantaleone para o doutor Colucci, seu amigo, quando estava construindo sua casa. Quando vi o trabalho, fiquei emocionado. Negociei por muito tempo com a Santa Casa para conseguir fotografar o painel. Consegui terminá-lo no último domingo", conta. "A maioria da população de Juiz de Fora não deve saber da existência desse mosaico, que é fabuloso."

O resultado das obras animou Iriê a planejar a publicação de um livro com as reproduções das mandalas. Com fotos de Carlos Júnior, a produção de cada obra é explicada pelo artista plástico. "Eu descrevo a técnica que foi utilizada, a pintura, a cor e como foi tracejado, explicando a sensação de movimento que pode ser percebida graças ao traço e ao pontilhado utilizados. O que espero é que a pessoa sempre observe um novo aspecto toda vez que olhar para o quadro", destaca Iriê, que planeja ver a obra nas livrarias até o final do ano.

Quem for conferir o trabalho do artista nesta noite poderá, ainda, ter uma prévia da nova série do artista, inspirada nas esculturas dos 12 profetas de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, expostas no Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo. Quatro dos profetas já receberam os traços de Iriê, com inspiração cubista. Ele pretende concluir a série até meados de 2015 para lembrar os 200 anos da morte de um dos mestres do barroco brasileiro, que serão completados no próximo novembro.

DO PISO À PAREDE

Hoje, a partir das 20h

Assunta Forneria

(Ladeira Alexandre Leonel 221)

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você acha que o Governo federal deve refinanciar as dívidas dos clubes de futebol?