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09 de Fevereiro de 2014 - 07:00

Embora o foco esteja no turismo de eventos, cidade possui atrativos culturais a serem explorados

Por MARISA LOURES

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Memorial da República está previsto para ser aberto esse ano
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Parque do museu é destacado em pesquisa
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Cine-Theatro Central é marco do estilo art déco
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A terra de Murilo Mendes foi avaliada entre os destinos turísticos mais competitivos de Minas Gerais em pesquisa realizada em abril de 2013 pelo Governo do Estado de Minas Gerais e Fundação Getúlio Vargas. O estudo foi feito em uma semana através de um questionário com perguntas. No aspecto cultural, foram examinados o patrimônio histórico associado ao turismo, patrimônio histórico e cultural e estrutura municipal para apoio à cultura. Nesse quesito, Juiz de Fora registrou índice superior a 2010, alcançando a média 3, em um gráfico de 1 a 5. A Tribuna colocou em debate a capacidade atrativa dos bens culturais e naturais do município. Ao que tudo indica, a crença no potencial de chamar o visitante para este segmento ainda é um sonho que precisa ser acalentado para o futuro.

"Nosso potencial está ligado ao turismo de eventos e negócios. As pesquisas mostram isso. Não temos grandes atrações turísticas do ponto de vista da natureza, nem do ponto de vista histórico. Entendemos o turismo como um setor econômico que pode trazer renda", ressalta o secretário André Zuchi, responsável pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Geração de Emprego e Renda (Sdeer), pasta da qual faz parte o Departamento de Turismo. "Juiz de Fora não é como Ouro Preto, Tiradentes, não tem as paisagens de Foz do Iguaçu, nem as praias do Rio de Janeiro. Obviamente, a pessoa vindo para um turismo de trabalho, ela pode buscar algumas opções que complementam, como ir aos museus e ao Morro do Imperador, mas o carro-chefe ainda são os negócios e eventos", enfatiza o secretário.

Apesar de fechado desde 2008, o Museu Mariano Procópio é guardião de um dos maiores acervos do Brasil Imperial e figura entre os fatores que influenciaram na pesquisa. A cidade ainda conta com outro espaço de importância nacional, embora também fechado à visitação pública, como o Museu Usina de Marmelos Zero, onde foi construída a primeira Usina Hidrelétrica da América do Sul e que acondiciona documentos e réplicas de máquinas originais do início do século XIX. O Cine-Theatro Central é um marco do estilo art déco e palco das pinturas do italiano Angelo Bigi. Engrossando a lista de bens, o município está prestes a sediar o maior planetário do Estado de Minas Gerais, com cúpula de 12 metros de diâmetro, visão em 360 graus, teto retrátil e 12 telescópios computadorizados, sendo um exclusivo para observação do sol, além do Memorial da República Presidente Itamar Franco. O turista que passar por Juiz de Fora também tem a promessa de encontrar no Parque da Lajinha uma paisagem que ocupa uma área de 140 mil metros quadrados de reservas naturais com espécimes, como araucárias, tambus, garapas e angicos, além de borboletário, palco para shows, área de eventos, coreto, playground e academia de ginástica e quiosques.

 

Na visão de Toninho Dutra, superintendente da Funalfa, é inegável a força do patrimônio arquitetônico, artístico e cultural da cidade. Contudo, falta ao município perceber suas qualidades. "Quando você convida alguém de fora para vir aqui, a pessoa chega ao centro e se impressiona com o que vê. Um conjunto arquitetônico praticamente utilizado e vivo, com bens históricos do final do século XIX até a década de 1950 do século XX. É muito bacana e deveria ser um atrativo importantíssimo. Quando vamos a lugares como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Montevidéu, no Uruguai, parece que estamos numa cidade fantasma, que foi transferida para outra dimensão."

Em Juiz de Fora na última semana, Ana Paula Simioni, doutora e professora da USP, com atuação em sociologia da arte e da cultura, endossa a opinião do superintendente. "Existe a mentalidade na política patrimonial de valorizar apenas o que é do barroco e do modernismo, mas há muita riqueza na art déco, na art nouveau, no ecletismo, estilos que podem ser vistos por toda a cidade. Fiquei encantada ao entrar no Central, único cine-theatro que vi em pleno funcionamento e bem conservado. Prédios como esses que encontramos aqui já quase não existem em São Paulo. Tenho certeza que sua importância atrairia muitas pessoas de outros centros", diz, destacando também a conservação das antigas estações de trem.

"Temos que buscar caminhos de mostrar isso para a população, criar roteiros, até para os próprios moradores que, às vezes, não percebem a riqueza que guardam aqueles prédios. O trabalho que fizemos com os ladrilhos hidráulicos no calendário 2014, por exemplo, deu resultado positivo. Várias pessoas vieram perguntar detalhes que não conheciam", conta Toninho. Na busca do sucesso das potencialidades de entretenimento locais, também há a necessidade de se desenvolver, na população juiz-forana, a sensação de pertencimento, conforme afirma o superintendente.

"Precisamos criar hospitalidade em nossos espaços. Locais como o Parque da Lajinha, o parque do Museu Mariano Procópio e até o campus da Universidade, que hoje está muito bem utilizado, não são encontrados facilmente em muitas cidades. Nos fins de semana, a UFJF tem uma programação cultural e esportiva ativa. São essas provocações que devemos fazer em relação a tudo, ao patrimônio histórico, aos espaços da cidade, ao potencial artístico."

 

 

Turismo ainda em estudo

Fazer parte de uma Associação de Circuito Turístico, estar inserido no projeto estruturador Destinos Turísticos Estratégicos, representar um segmento turístico prioritário do Estado de Minas Gerais, ter produtos especializados pelo mercado, possuir operadores receptivos participantes do Programa da Secretaria de Estado de Turismo (Setur) Minas Recebe e oferecer infraestrutura básica e turística, além de atrativos qualificados, foram os critérios adotados pelo Governo para definir as localidades que fariam parte do Estudo de Competitividade Turística dos Municípios Indutores Mineiros.

Apesar de o estudo ter revelado que, em suas dimensões atrativas, Juiz de Fora obteve 67,2, nota inferior a 2010, quando alcançou 69,5, o município manteve-se no nível 4, o que é positivo. Para que a cidade suba no gráfico, a pesquisa recomenda, com base no resultado obtido, a avaliação da possibilidade de ampliar a área de visitação do Parque Mariano Procópio, já que é reduzida em relação ao total do espaço, e a realização de estudo e monitoramento de capacidade de carga no principal atrativo natural.

De acordo com Danielle Feyo, presidente do Conselho Municipal de Turismo de Juiz de Fora (Comtur-JF), o perfil do público que tem a cidade em seu roteiro ainda está sendo levantado, assim como números de turistas que movimentam os eventos locais. "Hoje, não temos dados oficiais da demanda" afirma Danielle, ressaltando que a cidade vive uma "nova era, em que tudo é muito novo", podendo, no futuro, investir no turismo cultural. "Nossos esforços têm se direcionado a uma realidade que são os eventos. Precisamos organizar a casa. Agora, é importante que, para mantermos as pessoas, movimentarmos mais a economia, fazermos com que o visitante permaneça mais tempo, nada melhor do que trabalhar o segmento cultural, com a gastronomia vinculada. Percebemos aumento no movimento de bares e restaurantes e na procura por nossa cerveja artesanal", observa Danielle.

Segundo a presidente do conselho, o pouco recurso destinado ao turismo torna urgente a necessidade de descentralização da fonte de verbas para investimentos nesta área. Hoje a cidade conta com R$ 152 mil provenientes do tesouro municipal. O valor é todo aplicado no edital de apoio a projetos turísticos. Outros R$ 60 mil são arrecadados por meio do ICMS turístico. "É muito pouco, em comparação com outros municípios que vivem só do turismo. Por exemplo, em Foz do Iguaçu, 65% da atividade econômica são oriundos dessa atividade", afirma Zuchi.

Quem põe a cidade entre as opções de diversão precisa, ele próprio, garimpar informações sobre seus pontos históricos e turísticos. Ainda corre o risco de se deparar com a má ocupação dos espaços públicos locais, problema já levantado pela Tribuna. O secretário de desenvolvimento econômico promete que há a intenção de desenvolver um posto de informação virtual e a criação de um calendário de eventos fixos e de peso na cidade. "O posto presencial pode ficar fechado um tempo, não funcionar. Queremos que o turista tenha como se locomover", promete Zuchi.

 

"Temos quatro agências na cidade que fazem esta operação, têm essa preocupação em preparar uma oferta para as pessoas vivenciarem a cidade", destaca a presidente do Comtur. "Hoje, a pessoa pode entrar nos sites e ver o que tem de atrativo. De acordo com o que achar interessante, ela monta a rota de visita, seja indo a igrejas ou teatro", ressalta Tatyana Herdy Hill, chefe do Departamento de Incentivo ao Turismo. "A Prefeitura tem que manter os pontos turísticos, dar uma qualidade, uma segurança. O Parque Halfeld vai ser revitalizado. Isso, sim, é função pública. Agora a construção da atração segue uma lógica privada", complementa Zuchi.

 

 

Carnaval antecipado pode atrair foliões de fora

Na opinião do superintendente da Funalfa, Toninho Dutra, é preciso discutir uma vocação e pensar em estratégias para "vender" as riquezas históricas e culturais de Juiz de Fora. "Quando viajamos, vemos um bem que é cantando em verso e prosa como símbolo daquele país, todo iluminado, valorizado e, em muitos casos, nem é tão grandioso assim. A própria Estátua da Liberdade é muito menos impactante que o Corcovado. Quando chegamos a Nova York, temos que procurá-la para enxergar, mas ela é vendida como símbolo da cidade", observa Toninho para logo ressaltar a necessidade de olhar para frente. "Temos um carnaval muito bacana e que se transformou, mas as pessoas ficam sempre no discurso de que foi o segundo maior de Minas. Essa não é uma percepção política, é minha percepção pessoal."

A antecipação em uma semana do carnaval na cidade foi feita na tentativa de fisgar o folião das regiões vizinhas. "O Corredor da Folia começou a atrair o turista. É preciso somar isso tudo e fazer uma cidade com mais autoestima coletiva. Temos um município inteiro com muitos recursos, com uma posição privilegiada em relação ao país, em relação aos outros grandes centros. A gente pode se beneficiar dessa proximidade e ao mesmo tempo tirar proveito por estar no interior."

 

Em 2013, o "Seminário União e Indústria: uma estrada para o futuro - legado e possibilidades", realizado pela Fundação Mariano Procópio, discutiu a criação de um Museu de Percurso. O projeto registrará os bens materiais remanescentes e os costumes dos povos residentes no entorno das cidades cortadas pela estrada inaugurada em 1861. A ideia é que a iniciativa contemple sete municípios, entre eles Juiz de Fora.

"É uma ação ampla com participação do Governo de Minas e da União e das prefeituras de todas as cidades. O objetivo é valorizar o patrimônio material e imaterial, transformando a herança passada em potencialidades para o futuro", destaca Douglas Fasolato, diretor-superintendente do museu. Um próximo encontro será realizado ainda em 2014.

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