Publicidade

31 de Janeiro de 2014 - 07:00

Entrevista / Toninho Dutra, superintendente da Funalfa

Por MAURO MORAIS

Compartilhar
 
Toninho acredita que a periferia exige uma nova configuração das políticas culturais
Toninho acredita que a periferia exige uma nova configuração das políticas culturais

Quando a Prefeitura instalou o presépio de Natal (antes no Parque Halfeld), no final de 2013, em um canteiro que liga as avenidas Getúlio Vargas com Presidente Itamar Franco, passagem para as zonas Norte e Leste da cidade, sinalizava uma mudança de olhar. Juiz de Fora vai além da Avenida Rio Branco, dizia a mensagem implícita no ato. Nas contas da Funalfa, a periferia também começa a surgir com força maior.

  Em 2014, estão orçados R$ 4,6 milhões para o "Gente em primeiro lugar", considerando que cerca de R$ 1,7 milhão está prevista mas não garantida para sair do tesouro municipal, e o restante depende da capatção de um projeto aprovado na Lei Rouanet, que deverá beneficiar o Centro Cultural Dnar Rocha. Inicialmente o programa, que começou em 2009, não tinha verba própria, mas, com o passar dos anos, ganhou fôlego e mostrou resultados. A quantia prevista para este ano representa quase três vezes o valor investido nos desfiles de carnaval e mais de quatro vezes do montante da Lei Murilo Mendes.

Desde sua criação, o "Gente em primeiro lugar" cresceu 323% em número de atendidos.

  Em 2013, o projeto esteve em 57 bairros, alguns com mais de um ponto de atendimento, e beneficiou cerca de 5.500 pessoas nas 284 turmas que englobam dança (balé, sapateado, jazz, contemporâneo e dança urbana), música (percussão, flauta e violão), artes visuais (grafite, desenho, pintura e artesanato), capoeira e teatro.

  "Esse é um assunto, para mim, muito tranquilo. Sempre trabalhei na periferia como professor. Já dei aulas em colégios particulares, mas minha escolha pessoal sempre foi por esse lugar", comenta o superintendente da Funalfa Toninho Dutra, em entrevista à Tribuna, encerrando a série "A voz da periferia". Diante do trabalho desenvolvido em sua área, ele foi convidado pelo então prefeito José Eduardo Araújo a assumir a pasta, na qual permaneceu por outras duas gestões. Em um ano no qual o projeto da Praça CEU promete jogar luzes para a cultura da Zona Norte, ele também se entusiasma ao comentar sobre uma ação na Vila Olavo Costa, Zona Sudeste, em que diferentes secretarias deverão revitalizar o bairro e melhorar e ampliar os serviços oferecidos.

  Assumindo a necessidade de aumento dos apoios às manifestações periféricas, bem como uma revisão no edital da Lei Murilo Mendes que amplie o acesso, Toninho Dutra afirma que a participação da periferia no edital é menor do que deveria. "É preciso dar visibilidade ao que eles fazem, ao que eles querem dizer, à maneira como eles interpretam o mundo."

 

Tribuna - Qual o lugar que a periferia ocupa na Funalfa?

Toninho Dutra - Tenho uma visão muito real da periferia. Trabalhei em lugares da cidade tidos como pesado, onde há um olhar discriminatório por parte da cidade. Em meus discursos como diretor de escolas, eu sempre falava para os pais e para os alunos recusarem essa pecha de bairro de bandido, bairro de tráfico. Noventa e nove por cento das pessoas que moram ali são honestas, trabalhadoras, que se penduram em ônibus, às vezes, durante uma hora de viagem, embora sejam apenas 15km de Santa Cruz, Araújo, Benfica para o Centro. Tem gente que sai às 6h e volta às 21h. Conheço muito de perto essa realidade. Trabalhei com ela por mais de 20 anos, sempre gostando e encontrando pessoas com visões muito ricas de mundo, além de uma capacidade de produção intelectual, artística e cultural muito aguçada. O estado, em todas as suas esferas, nesse momento ou já atrasado, tem que fazer uma entrada nas periferias, ou um favorecimento da cultura das periferias, não na busca dos artistas que já existem - porque esses vão acabar tendo um destaque de trabalho -, mas na possibilidade da ampliação do direito de cultura para todo cidadão. Seja na ampliação do tempo do aluno na escola, seja com projetos especiais como estamos fazendo com o CEU da Zona Norte. Deveríamos replicar esse modelo para mais lugares. Não acredito que a cultura seja o único caminho para o conserto de tudo. Ela é um dos caminhos. Se não tiver uma política de geração de empregos, uma política de educação de qualidade e de valorização do cidadão, a cultura vai ser só um enfeite como, às vezes, é tratada. Acredito que a transformação pela cultura deve estar aliada a um conjunto de medidas sociais em grande esfera. A cultura não é pó de pirlimpimpim, a ponto de você se envolver nesse universo e estar salvo. O lugar da periferia na Funalfa está na mesma proporção do lugar do apoio que damos aos artistas do Centro. Porém, precisamos crescer o apoio em todas as manifestações.

- E o que tem sido feito hoje?

- Apoiamos projetos de periferia ou de cultura popular - e eu prefiro dizer assim, porque tem gente nos bairros mais centrais que não está atendida, e são bairros com característica de periferia, mas não podemos chamá-los assim, geograficamente falando. Temos pequenos apoios para a realização de eventos, inserção de som, fornecimento de passagens para encontro de rappers, MCs, grafiteiros. Mas tenho a total certeza de que não é o suficiente, é pontual, e precisa crescer.

 

- Como é fazer cultura sem assumir o papel do colonizador?

- Esse conceito precisa ser desfeito. Sempre tem essa coisa de ajudar quem precisa. Não é ajuda. São vidas diferentes, organizadas de formas diferentes, e essas pessoas sabem se organizar e se organizam muito bem. É preciso assumir os preconceitos, vencê-los, reelaborá-los todos os dias. Ainda continua essa questão de que a cultura bacana é aquela feita nos palácios para quatro mil lugares. É preciso fazer cultura como um direito de todos os cidadãos e não como caridade. É dever do Estado promover cultura.

 

- O que há por ser feito?

- Precisamos melhorar o orçamento da cultura, e isso está apontado no Plano Municipal de Cultura, um dos únicos caminhos para conseguirmos ampliar o apoio geral à cultura, aumentando o apoio a essas manifestações culturais que ainda não estão bem apoiadas como deveria. Precisamos, também, realizar o censo cultural, dando a conhecer a essa cidade a potencialidade cultural e artística que ela possui, mostrando que o mundo mudou, e não podemos repetir as coisas que eram feitas e ditas há 30, 40 anos. Juiz de Fora precisa desfazer o discurso da Manchester Mineira, já que uma nova cidade surgiu, o mundo se transformou, as pessoas mudaram, e os desejos de se expressar e falar são outros.

- Hoje, quando a presença da cultura do Estado é feita na periferia, parece haver uma confusão do que é social e o que é cultural. Como isso se estabelece em Juiz de Fora?

- A prioridade do "Gente em primeiro lugar" são crianças em risco social. Não falamos na família em si, mas no que está ao redor dela: a violência, o crime, a droga, que são sempre uma possibilidade diária de sedução. Não dá para separarmos. O mundo da arte e da cultura pode possibilitar outras visões de mundo, e isso pode mudar tudo. Então, tem que ser uma rede. O projeto começou nos grandes espaços de miséria da cidade, porque ali nunca chegou nada. A ideia é sempre colocar dentro desses lugares. Se abrirmos uma vaga sem nenhum critério de prioridade, as famílias melhor organizadas ocupam todas as vagas. Muitas vezes, os articuladores culturais vão de porta em porta para fazer a matrícula. É um trabalho misturado: é social, cultural, educacional.

 

- Juiz de Fora vive um crescimento alarmante da violência. De que forma a Funalfa é acionada pela Prefeitura para combater esse cenário?

- Participamos de três ações diferenciadas: o programa "Gente em primeiro lugar", que tende a crescer, aproveitando as experiências positivas; o Centro Cultural Dnar Rocha, cujos experimentos também serão feitos na Praça CEU da Zona Norte; e um projeto piloto, dentro da Vila Olavo Costa, que é uma ação integrada de várias secretarias, onde entra a educação, a cultura, a reestruturação da rede física, parceria com todos os setores, como a saúde, para experimentar naquela região, que é um lugar de grande conflito, um modelo que poderia ser replicado para a cidade inteira. Esse é um grande projeto da Prefeitura, no qual ela integra os projetos "Travessia", "Curumim" e outras propostas que visam a uma cadeia de serviços melhor. Sou otimista, mas precisamos deixar claro que a transformação não é feita em um estalar de dedos. É preciso manter com qualidade.

Publicidade

Publicidade

Mais comentários

Ainda não é assinante?

Compartilhe

Publicidade

Encontre um tema na

Pesquisa

Edição impressa

Enquete

Você acha que o Governo federal deve refinanciar as dívidas dos clubes de futebol?