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08 de Dezembro de 2013 - 07:00

Especialistas, usuárias e usuários discutem o uso do Lulu, aplicativo que permite que mulheres deem nota aos homens

Por JÚLIA PESSÔA

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Se vivessem na contemporaneidade, constantemente conectados às redes sociais e submersos em compartilhamentos, talvez os militantes da Revolução Francesa repensassem o lema "Liberdade, igualdade e fraternidade", tríade de ideais que norteou o movimento. A recente criação do Lulu, aplicativo que permite às mulheres avaliar os homens, levantou inúmeras discussões que dialogavam com liberdade e igualdade, como os franceses, mas incluem um tema inerente à internet: privacidade.

Integrado ao Facebook, o Lulu pode ser acessado via dispositivos móveis (tablets ou celulares) ou computadores pelo site onlulu.com. Nele, as usuárias do sexo feminino podem estabelecer hashtags pré-definidas para julgar positiva ou negativamente qualquer homem que esteja inscrito na rede social de Mark Zuckerberg, em quesitos como aparência, personalidade, situação financeira e performance sexual (ver quadro), sem que para isso tenham que dar algum tipo de autorização. Entre as dezenas de tags possíveis, geradas a partir de um questionário de múltipla escolha, figuram as positivas #SemprePreparado, #OmbroAmigo, #Pagaaconta e a nada sutil #TrêsPernas. Já as negativas podem ser de #SemQuímica à #Esqueceacarteira, passando pela debochada #CurteRomeroBritto.

Segundo Caroline Andreis, assessora do Lulu no Brasil (o aplicativo foi desenvolvido por uma empresa com sede em Londres), a ideia foi criar um "local seguro para que as mulheres trocassem informações e tomassem decisões mais inteligentes". Ainda de acordo com ela, a empresa vê o Lulu como um reflexo da vida real. "É perfeitamente normal as pessoas trocarem experiências sobre relacionamentos. O Lulu é uma ferramenta a favor das mulheres, mas muitos homens avaliados têm visto como uma forma de autoconhecimento e aproximação do sexo oposto."

De fato, há quem esteja usando o Lulu e se divertindo com a experiência, como a universitária Júlia Baggio. "Avalio sempre os amigos, por saber bem como eles tratam as meninas com quem eles saem, então dá para ser bem sincera." Apesar disso, a estudante diz que não leva em conta o ranking do aplicativo em seus relacionamentos, e que não deixaria de se envolver com alguém por conta de sua nota virtual. "Não acredito muito no que está lá, cada homem é diferente nos relacionamentos que têm. Além disso, pode haver mulheres com 'orgulho ferido' que avaliam só para 'detonar', por isso não dá para levar a sério."

 

Exposição da intimidade

A jornalista Mariana Pelegrini baixou o aplicativo para conhecê-lo e logo se arrependeu da experiência. "Achei o Lulu muito invasivo por causa da informação pública. Eu conseguia ver avaliações de pessoas que eu nem conhecia, inclusive há uma opção de visualizar só os homens com boas notas. As avaliações, no entanto, são subjetivas e superficiais. Quando a curiosidade passou, perdi completamente o interesse no aplicativo, já que não o usaria para avaliar ou para ter referências de algum paquera."

O dentista Alvaro Junqueira optou por remover seu perfil do aplicativo quando descobriu que estava sendo avaliado, mesmo tendo alcançado uma nota alta e hashtags até elogiosas, como #BomChurrasqueiro. "Não via vantagem alguma nisso. Como estou namorando, boas avaliações não me beneficiariam e poderiam gerar ciúmes em minha parceira. Avaliações negativas poderiam me difamar, fossem elas verdadeiras ou fruto de pessoas que sequer se relacionaram comigo, mas querem sujar minha imagem."

Para Letícia Perani, doutoranda e pesquisadora do Laboratório de Comunicação, Entretenimento e Cognição da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), apesar de esta dinâmica de analisar as relações afetivas e sexuais sempre ter existido, ela ganha contornos diferentes ao ser disponibilizada na internet. "Quando isso é levado para uma rede social, as informações acabam expondo questões íntimas para um público enorme. Não dá para pensar 'benefícios' ou 'prejuízos', já que cada um vai perceber a avaliação de forma diferente: uns podem levar na brincadeira, outros, ficarem extremamente ofendidos, orgulhosos, tímidos."

 

Discurso unilateral

Do ponto de vista técnico, o Lulu também desagradou especialistas. Na visão do consultor de tecnologias André Machado Coelho, a interface do aplicativo vai contra uma das principais premissas da internet: a interatividade. "Ela não promove o diálogo entre homens e mulheres. Primeiro, porque as mulheres ficam limitadas a dar opiniões por meio de hashtags pré-determinadas. Depois, a interface oferece poucas possibilidades de intervenção para os homens. Seria curioso e super inovador se no aplicativo as mulheres pudessem, por exemplo, dar sugestões para o cara sobre o que mudar, a que eles pudessem responder", opina.

Aliado ao discurso unilateral, o anonimato das avaliadoras dá liberdade para a legitimação de opiniões - nem sempre honrosas - sem enfrentar suas consequências, sobretudo quando o tema em discussão é delicado, como o de relacionamentos. "É muito mais fácil dizer o que dá na telha se as consequências só afetam quem é criticado. Na internet, ainda é possível descarregar emoções como raiva, paixão e medo sem nunca enfrentar pessoalmente os resultados dessa catarse", aponta o mestre em estética, redes e tecnocultura Dimas Tadeu. Talvez isso não aconteça com uma das avaliadoras de Alvaro Junqueira, o #BomChurrasqueiro. "Pode apostar que não fiz churrasco para muitas mulheres que se relacionaram comigo!", garante ele.

Mesmo reconhecendo o formato como o Lulu opera como invasão de privacidade, Dimas pondera que isso é inerente à vida on-line. "As pessoas estão cada vez mais obcecadas com privacidade ao mesmo tempo em que se esmeram em devassá-la em seus perfis pessoais. Acho isso uma bobagem. Quanto menos as pessoas se preocuparem com privacidade, menos ela vai interessar aos outros. Para quem teme a superexposição, é sempre bom estar atento a políticas, filtros e dispositivos de segurança das redes sociais. Existem perfis de Facebook, por exemplo, totalmente blindados e cujas informações e fotos só são acessíveis aos amigos autorizados. São os mais seguros. E os mais sem graça." Para ele, a preocupação excessiva com privacidade acaba suscitando justamente a falta dela. "Há pouco tempo, minha foto no Grindr (aplicativo de encontros) foi parar num Tumblr (plataforma de blogging) de alcance nacional. Amigos do Brasil inteiro me ligaram preocupadíssimos, alguns já sugerindo procedimentos para que a foto fosse deletada. Apenas não liguei, porque, afinal, quem colocou a foto no aplicativo fui eu, e o resultado foi que ninguém nem lembra mais disso. E ainda fui cantado na rua!"

 

Sexismo travestido de liberdade de expressão

Embora possa parecer uma afirmação dos direitos femininos, na visão de especialistas e internautas, o Lulu acaba reforçando padrões de comportamento machistas. "É absurdo que #EsqueceACarteira seja uma avaliação negativa e #PagaAConta seja algo positivo. Reflete a nossa sociedade machista e preconceituosa, e o pior: em um discurso reproduzido por mulheres", opina a jornalista Mariana Pelegrini.

Na última semana, o anúncio da criação de um aplicativo "rival" do Lulu, o Tubby, voltado para os homens, fomentou ainda mais a discussão sobre sexismo, com a divulgação de uma plataforma em que as mulheres seriam avaliadas somente por sua performance sexual, com hashtags grosseiras. Para o publicitário Felipe Pacheco, que atua em planejamento de mídias sociais, a comoção só reflete preconceitos arraigados em nossa sociedade. "Enquanto o Lulu pode engrandecer um homem bem avaliado, o Tubby se propunha a ser mais uma arma para reforçar o machismo. Para a sociedade em geral, se a mulher não fosse avaliada com um bom desempenho sexual, seria considerada santinha, sem sal, o que é ruim; se ela recebesse hashtags falando o que gosta de fazer na cama, seria vagabunda; se ela sai do aplicativo, seria covarde."

Previsto para ser lançado na última sexta-feira, o Tubby não passou, entretanto, de uma pegadinha - ou "trollada", para os mais familiarizados com o linguajar das redes - arquitetada por um site notório por fazê-las, o naosalvo.com.br. Apesar de ter levado mais de 150 mil mulheres a se "descadastrarem" da ferramenta antes da estreia, ter ganhado a mídia nacional e mobilizado a Justiça de Minas Gerais para proibir seu lançamento em todo o país, o aplicativo nunca existiu ou teve tal pretensão. A Tribuna entrou em contato com o idealizador da brincadeira, Maurício Cid, mas não obteve resposta.

Na sexta, um vídeo foi divulgado no site tubbyapp.com, trazendo o depoimento dos supostos criadores e de um investidor coreano - na verdade um ator brasileiro - que parecia explicar o atraso no lançamento. No entanto, quando as legendas do material eram ativadas, uma crítica ao Lulu e aos que cogitaram participar de uma proposta como o Tubby eram reveladas na mensagem: "Sério, caras, vocês caíram nessa bobagem? 2014 já chegando e ainda tem gente querendo regredir à sexta série, dando notas para pessoas do sexo oposto. Droga, pessoas não são objetos e a intimidade de um relacionamento, por pior que tenha sido, não pode ser exposta desta forma. Esse tipo de aplicativo pode até ser 'mera brincadeira', mas dá ferramentas para as pessoas anonimamente fazerem estragos na vida pública de outras, caso ainda mais grave nos dias atuais (…). Trate as pessoas com respeito".

Para a pesquisadora Letícia Perani, apesar de ter sido uma grande piada com os internautas, a possível criação do Tubby reflete aspectos reais da sociedade contemporânea. "Muitas vezes, fazer essas pegadinhas leva a reflexões muito importantes sobre o nosso comportamento on-line e suas consequências", observa. No mesmo tom, o publicitário Felipe Pacheco argumenta que o único aspecto positivo de Lulus, Tubbys e afins são os debates que eles proporcionam. "Nunca se falou tão massivamente sobre igualdade e privacidade na internet, e estes aplicativos colocaram isso em pauta, têm feito gente que nunca falou sobre sexismo dar suas opiniões, entender melhor, bem como gente que nunca teve sua privacidade violada poder ver um pouco desse lado das redes."

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