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10 de Janeiro de 2014 - 07:00

Da poesia à linguagem didática, lançamentos tratam temas polêmicos ou complexos, oferecendo leituras diferenciadas para pais e filhos

Por MAURO MORAIS

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Internet, celular, fones de ouvidos, videogames, shoppings centers. São muitos os atrativos capazes de dispersar a atenção e, principalmente, desmotivar o encontro. Entre pais e filhos, a distância geracional parece criar um abismo, e os deleites de se dividir o mesmo tempo tornam-se cada vez mais escassos. Por meio da analógica folha de papel, os livros infantis lançados recentemente, aparentemente, se focam nesse vão e proporcionam a possibilidade de compartilhamento da leitura entre crianças e adultos. Para uns, poesia construída na artesania dos abstratos sentimentos. Para outros, uma história coerente e talvez simples. O que tem enchido as prateleiras mais baixas não se reduz a um público de iniciantes, mas aos olhares rigorosos dos mais iniciados.

Considerada uma das maiores promessas da literatura contemporânea brasileira, Tatiana Salem Levy poderia estar apenas contando a história de Thaís. A pequena garota mora em uma ilha distante e gosta de colecionar o que o mar lhe entrega: pequenos objetos do mundo afora. Em "Tanto mar" (Editora Galerinha Record, 21 páginas), que acaba de chegar às livrarias, a narrativa pode ser subjetiva. A começar pelas ilustrações de Andrés Sandoval, que utiliza colagens e desenhos toscos, em uma paleta de azul, branco e preto, recriando um universo amplo de imagens a serem completadas, servindo apenas como pistas.

Retornando a um cenário semelhante ao de seu segundo romance, "Dois rios", Tatiana descreve um endereço onde sobram silêncios e faltam informações. "Quando estava com as coisas do mar, as palavras da mãe entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Era como se ela estivesse embaixo d'água. Via tudo colorido: os peixes, os corais, os polvos e os camarões. Fazia borbulhas até faltar o ar." Na esperança de encontrar seu pai, um pescador desaparecido, entre os presentes entregues pelas águas, a menina passa seu tempo tateando a sociedade da qual não pertence. E somente ao tomar conta disso é que se transforma. "Thaís era muito triste e muito feliz. Era muito sozinha e nunca estava só. Quando alguém lhe perguntava o que queria ser quando crescesse, ela respondia: 'Quero ser mar'."

Dona de uma escrita comprometida com a pesquisa da linguagem e com a ficção passível nas memórias, Tatiana redige uma metáfora das relações humanas, quando muitas vezes a ilha se torna condição, e o intercâmbio é palavra quase desconhecida. "Tanto mar" beira o panfleto, ao querer dizer, com a simplicidade que, certamente, as crianças compreenderão: é preciso buscar o longe, onde existem os desafios. Com naturalidade discursiva semelhante, a poeta Bruna Beber - que em 2013 lançou o elogiado "Rua da padaria" - toca em assunto delicado sem nele criar sensacionalismo. "Zebrosinha" (Editora Galerinha Record, 32 páginas) conta as diferenças de uma pequena zebra que gosta de andar na moda e não larga seu potro de estimação. Quando nasceu, uma pergunta foi feita: "É menino ou menina? // Mamãe respondeu: // É Zebrosinha!".

O animal, desenhado com muitas cores por Beta Maya, que fez tudo em um tablet, vive as pequenas guerras da infância e outras mais. Ela não gosta de comida saudável e adora brincar, o que torna a curta história um material de identificação para as crianças. Mas um dos pontos que chama a atenção dos adultos é o fato de o tio da personagem, tio Sitiosa, vestir-se com vestido e usar maquiagem. A personagem Zebrosinha mesmo deixa dúvidas e não se preocupa em respondê-las. Trata-se, então, de um livro sobre as questões de gênero e sobre o preconceito - já que a protagonista deseja ser aceita por um grupo de amigos -, que, pela forma com que são tratados, mostra a facilidade de os pequenos lidarem com o assunto, enquanto para os maiores várias interrogações sadias são criadas.

 

Jogo de palavras e vidas

Escrito por uma criança de 6 anos, que revisou o livro aos 7, antes da publicação, "Minha família" (Geraçãozinha Editorial, 63 páginas) confirma o olhar tolerante, próprio do universo infantil. Antonio Anselmo Emediato relata suas experiências pueris ao lado de uma família grande, com o pai morando em um "casa na floresta" e a mãe, casada com "o Enoch", residindo em outro lugar. Duas casas são, segundo o garoto, uma oportunidade de viver situações ainda mais diferentes. Com ilustrações assinadas por Mance, as páginas coloridas também se aproveitam de variadas tipografias, além de uma escrita direta e recheada de bom humor.

"Morar em duas casas é bem legal, mas tem um problema: quando meu pai se esquece de me devolver no domingo, na segunda-feira ele me leva direto para a escola e sempre chega atrasado. Minha mãe fica muito brava. Ela diz que criança tem que ter rotina", conta o garoto, provando que as crianças naturalizam muito mais cedo o que ainda é tido como tabu social. E é pensando nessa facilidade em dilatar o mundo que Mauricio Veneza reescreve o mundo animal. Em "A festa animada da bicharada" (Editora Mundo Mirim, 32 páginas), todos os bichos foram convidados para o aniversário de Seu Noé, menos um (o segredo só é revelado ao término do livro). Construindo um encantador jogo de palavras, no qual expressões populares são compreendidas como as sensações ou as situações às quais os animais sentem ou se encontram, o autor brinca com a linguagem em um poema rico aos olhos dos adultos.

"Uma porca que sonhava com um parafuso, // um rato que dava sempre alguma rata, // um besouro medroso que tinha sangue de barata", enumera o narrador sobre os convidados para a festança. Na algazarra, sobra até para uma "marmota que só comia em marmita", trocadilho que denuncia a riqueza vocabular de uma obra extremamente acessível para leitores que ainda descobrem a profundidade da língua portuguesa.

De autoria de um dos maiores nomes da literatura brasileira, o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, "História de dois amores" (Companhia das Letrinhas, 64 páginas) tem um texto mais longo e duradouro. Pul, um pulgo, se aventura pelo corpo de um elefante e decide fincar moradia nas orelhas do grande animal da selva. Osbó, o gigante de tromba, segue viagem para o Rio de Janeiro, a convite do Clube dos Elefantes Cariocas. Enquanto o grandão encontra amigos no trajeto, o pequeno saltador se torna arrogante, utilizando o elefante como escudo para seus discursos de autoridade. Mas, como em toda narrativa de Drummond, o amor é mais forte.

Construída com a singeleza exposta nas ilustrações de Ziraldo, a narrativa exalta a poesia do autor de "Sentimento do mundo". "A tristeza de um elefante não pode ser comparada à de nenhum homem ou mulher. O marfim de suas presas vai arroxeando, acaba de um roxo-escuro que lembra Sexta-feira Santa. Só quando a tristeza vai passando é que elas começam a clarear." "O fato é que Drummond continua - para os filhos não ingratos - vivo em nossos corações de brasileiros", brada o ilustrador em posfácio da obra, confirmando a atualidade do texto sensível.

Para não esquecer, também, o livro "Vidas dos grandes artistas" (Editora Claro Enigma, 96 páginas) revisita a arte clássica sob os olhares de uma criança. Nomes fundamentais da pintura mundial, como Michelangelo, Delacroix e Monet, ganham leituras simplificadas, mas não simplistas. A curiosidade, então, que salta aos olhos de menino, serve aos adultos como mais um elemento formador da fruição de obras relevantes. "É um vislumbre singular de como e por que essas obras foram criadas, e também uma forma de contar histórias desses artistas. Ao conhecer cada um deles, é possível até que você se sinta calçando os sapatos que usavam", brinca, em introdução, o autor Charlie Ayres.

Como a confirmar que as páginas de um livro sempre irão guardar surpresas, seja para os pais, seja para os filhos - que podem, até mesmo, se surpreenderem juntos -, o livro reserva uma descrição incomum do momento em que Leonardo Da Vinci pintava seu quadro mais famoso, "Mona Lisa": "Leonardo molha o pincel na tinta a óleo preparada em sua paleta. Agora começa a retrabalhar a boca de Lisa, erguendo levemente os cantos para conseguir um quase sorriso. Contratou bufões e um músico para entretê-la neste dia, mas percebe que ela está cansada. Diz que logo farão uma pausa."

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