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21 de Janeiro de 2014 - 07:00

Pinturas urbanas perdem cada vez mais a característica de agressão estética e estão em plataforma virtual que incentiva sua proliferação pelas cidades

Por MAURO MORAIS

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Pintura feita coletivamente em praça no São Mateus
Pintura feita coletivamente em praça no São Mateus
"Sinalizador", de Luiz Gonzaga, no Mariano Procópio
"Sinalizador", de Luiz Gonzaga, no Mariano Procópio

"A arte não é minha. É do universo. Sou apenas um veículo." Para Davidson Lopes, autor da frase e do cachorro azul aparentemente envolto em uma coberta com motivos vermelhos - localizado na Avenida Dr. Paulo Japiassu, no bairro Cascatinha -, as cidades carecem da leveza dos coloridos nos muros. "Andar nas ruas e não ver cor, só gente correndo, prédios, carros e esgoto é como se fôssemos zumbis", diz. Cada vez mais populares, as pinturas urbanas saem da marginalização e dos gritos de contestação para ocupar espaços decorativos com a finalidade de revitalizar e reavivar a urbe. Tida como uma aposta dos novos arquitetos cariocas, a pintura urbana já chegou à prefeitura do Rio, que esse ano vai colorir 40km de muro na linha 2 do metrô da Zona Norte, e atingiu seu ápice numa criação paulista que tem ganhado novos seguidores a cada dia. Projetada em São Paulo, a iniciativa do designer Gabriel Pinheiro e do artista Victor Garcia conquistou o país e o mundo após receber o apoio da holding de empresas criativas Flag e do Google, com sua plataforma de mapas. A ferramenta on-line "Color plus city" (www.colorpluscity.com.br) integra pessoas que desejam ver seus muros mais coloridos a artistas e grafiteiros à procura de espaço.

Segundo Roberto Martini, CEO da Flag, o dispositivo prevê uma ampla participação, basta fazer o cadastro de ambas as partes. "Pode participar, até mesmo, um grupo de crianças do jardim de infância. A professora olha na plataforma e vê que tem um muro disponível ali perto, então, naquele mesmo dia eles pintam, criando a história deles ali dentro", comenta em vídeo do projeto. Considerado um dos principais marcos culturais de São Paulo, o grafite é apenas uma das linguagens do projeto, cujo slogan é "mais cor, por favor". Em Juiz de Fora, há duas semanas, quatro espaços estão à disposição para artistas urbanos: nos bairros Jóquei Clube, Linhares, Jardim Glória e Poço Rico.

De acordo com Fernanda Toledo, artista que assina como Pekena Gigante nas ruas de Juiz de Fora, a proposta é interessante, mas foge da raiz do grafite, tido como um dos pilares do movimento hip-hop. "O grafite proporciona um apoderamento dos espaços públicos e, por etimologia, se origina na escrita, como começou em Nova York. A partir disso, de uma pichação, as pessoas começaram a elaborar, trabalhando nessa assinatura. Hoje o grafite se expandiu para o que alguns chamam de street art, mas foi ele quem desvirginou as ruas", explica. Segundo ela, a característica maior de desenhos e assinaturas com tintas em latas de spray é a intervenção, o desejo por romper com os limites preestabelecidos.

"O grafiteiro e o pichador não enxergam o proprietário do lugar, eles veem a cidade como um suporte, como uma tela aberta", analisa, pontuando a diferença entre um e outro como meramente estética. "A pichação ainda é um agente de incômodo. Contudo, é o sensor de que nem tudo na sociedade vai bem. Ela mostra que o sistema é cruel. Já o grafite se configura como uma agressão estética menor já que tem cores e formas mais agradáveis", reflete ela, que hoje se dedica a trabalhos mais detalhados, coloridos, com arabescos e referências mais complexas, como o rosto gigante que toma a lateral da quadra da Praça Jarbas de Lery Santos, em São Mateus. Feita em parceria com outros dois artistas urbanos, um deles do Chile, o desenho foi elaborado a seis mãos, sendo que cada um interferiu no trabalho do outro. "Foi uma obra bem latino-americana. A poluição de detalhes ficou interessante", diz, afirmando não ter tido autorização, muito menos objeções de vizinhos e transeuntes.

 

 

Do papel para a parede

Para os que passam pela Avenida Brasil, entre as ruas Tereza Cristina e Frederico Lage, no Bairro Mariano Procópio, chama a atenção um curioso desenho onde se vê um garoto abaixado, desenhando uma linha surreal - cheia de padrões e formas precisas - que deságua em outros dois garotos mascarados. Intitulada "Sinalizador", a pintura é assinada por Luiz Gonzaga, artista que há alguns anos se apresenta em galerias pela cidade com seus trabalhos feitos em nanquim (sobre tela e sobre papel). Com a mesma identidade dos quadros, a obra posta em um muro tosco, acabado com cimento, foi uma das últimas feitas por ele, que desejava mais olhos do que o cubo branco permite.

"Queria experimentar essa dimensão muito maior que a parede me dá. Sempre quis ver meu trabalho em um formato maior. Tenho a necessidade de provar para mim que alcanço outros suportes", ressalta ele, que diz ter pedido permissão para o proprietário do muro. "É um pouco mais difícil, porque exige um detalhamento maior. Experimentei o spray e achei o traço muito grosso. O grafite também exige um risco muito rápido. Com a tinta acrílica tenho muito mais domínio", pondera, pontuando o desafio de se aventurar por uma superfície áspera em um lugar onde qualquer imprevisto pode acontecer.

Tendo estreado nos muros no ano passado, Luiz Gonzaga foi apresentado às ruas por Davidson Lopes, que há cerca de um ano e meio expõe suas figuras inusitadas - entre o simpático e o estranho - à agitação de locais movimentados. Segundo ele, apesar de não ter recebido uma formação artística acadêmica ("Nunca soube desenhar direito, desenho igual a uma criança", diz), a rua lhe serviu como processo terapêutico. O jovem, formado em jornalismo, sofria de fobia social e percebeu no embate com o que mais lhe causava pânico a solução que precisava. "Meu desenho é muito intuitivo, mas isso não quer dizer que eu não tenha a consciência de trazer a leveza para esses espaços", conta.

Para suas incursões pela cidade colorindo paredes abandonadas e outras pálidas e chatas, Davidson deu o nome de "Bula temporária", numa alusão a certo "poder curativo" e à efemeridade da urbe. "A essência do grafite é a liberdade do criador. Não vivo dessas pinturas, faço por prazer. Se tiver que pintar uma casa, prezarei a intuição. Não vendo trabalho", diz, apontando para a sinceridade da expressão como um de seus grandes trunfos. "Sou desapegado. As pinturas são feitas para acabar. É, justamente, a ideia do passageiro", completa. Porém, o desejo, de acordo com o movimento atual, é de que as cores se ampliem. Pensando no cachorro pintado no Cascatinha, por exemplo, é possível supor que, caso ele desapareça de seu lugar de origem, a justificativa será de que alguém o levou para casa.

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