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18 de Fevereiro de 2014 - 06:00

Marchinhas com teor político e de crítica social ganham destaque no carnaval de 2014

Por JÚLIA PESSÔA

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"O pé rela no pó", " "O pó chegou voando no salão", "Esse pó é de quem eu tô pensando?/ Ah, é sim! Ah, é sim!". A fina - mas nem tão indireta ironia - de "O baile do pó Royal", marcha vencedora do Concurso Mestre Jonas, de Belo Horizonte, reflete uma tendência das composições carnavalescas para os concursos do gênero neste ano: o engajamento em questões políticas e/ou as críticas sociais.

Composta por Thiago Dibeto, Alfredo Jackson e Joilson Cachaça, a composição fala sobre o episódio envolvendo a apreensão de mais de 400kg de cocaína no helicóptero da família do senador Zezé Perrela (PDT-MG), aliado político do senador mineiro Aécio Neves ("Aecim" na boca do povo). Assim que alcançou as redes sociais, a composição se tornou hit e foi removida do Youtube, onde foi divulgada, devido a uma reclamação anônima de difamação (veja abaixo uma das versões que voltaram a circular na internet).

Para Thiago Dibeto, o sucesso imediato da canção foi uma grande surpresa, apesar do caráter do gênero de popularizar as letras. "As marchinhas de carnaval têm esse caráter de se difundir na boca do povo, o que aproxima muito o artista do público, expondo novos talentos de uma forma leve e divertida." Segundo o músico, a composição apareceu em um dos encontros do coletivo do qual os compositores fazem parte, o Canto da Lagoa. "Acreditamos que as marchinhas são meios criativos e irreverentes de satirizar os episódios que acontecem em nosso cotidiano, sejam eles políticos, sociais, culturais etc. Fazemos isso de forma despretensiosa, sem ideologias, orientações partidárias ou propósitos", diz o músico em entrevista à Tribuna.

Em Juiz de Fora, as alfinetadas ao panorama social, político e econômico também marcaram presença no 4º Concurso de Marchinhas Carnavalescas, realizado na última sexta-feira. "Marcha do Capital", do sambista Carlos Fernando Cunha, fala sobre um ex-militante do Partido Comunista, que se rende às tentações do capitalismo e abre um call center de empréstimos financeiros.

Os versos trazem referências como "Call (telefonar, em inglês) Marx", em menção ao autor de "O capital" e pai do comunismo, além de mencionar que "(Barack) Obama e (Nicolas) Sarkozy já aderiram. Uma das passagens mais divertidas revela que o sonho do recém-capitalista é "Conquistar a poupança da Dilma". O telefone da empresa de empréstimos? 0300 (número de serviços pagos)- 1917 (ano da Revolução Russa, marco da instituição da União Soviética). "Historicamente, as marchinhas são instrumentos de crítica e de resistência. A sátira, muitas vezes, abre os olhos da população para questões importantes, podendo fazer com que elas se preocupem e se posicionem. É um papel fundamental da arte", opina Carlos Fernando Cunha, que, além de músico, é professor da UFJF e coordena um grupo de pesquisa sobre história do esporte e lazer. "Verificamos que várias marchinhas compostas no início do século XX denunciavam os problemas sociais do momento político em que estavam inseridas."

 

Reflexo do cotidiano

Segundo Vanessa Damasco, coordenadora do Concurso Nacional de Marchinhas Carnavalescas, realizado na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, esta edição teve recorde de composições com teor crítico em relação ao cenário político, econômico e social. A campeã de 2014, por exemplo,"Cadê a viga?", de Cassio e Rita Tucunduva, ironiza o sumiço de vigas nas obras da Perimetral, no Centro do Rio.

 Além dela, entre as 12 finalistas, havia, com a irreverência típica do gênero, letras sobre a liberação da maconha ("Marcha da maconha"), críticas ao deputado Marco Feliciano por suas declarações preconceituosas em relação aos homossexuais ("Sauna gay"), repercussões das manifestações ao longo de 2013 ("Menina black bloc") e sua consequente discussão na internet ("Eu quero é ficar off"), além de versos que ironizam o cenário econômico ("Aplicando na poupança"). "Todo ano algum problema político ganha destaque nas letras, como o mensalão, que já inspirou muitas composições. Esse ano, os temas críticos foram predominantes, superando até a Copa do Mundo, que é um assunto super propício para as marchinhas, porque já é descontraído e propício às rimas", comenta Vanessa.

Para Carlos Fernando Cunha, este boom de produções engajadas tem a ver com a ampla discussão dos temas durante o ano passado e o início deste ano. "Independentemente do conteúdo, as marchinhas refletem sobre o cotidiano do período em que estão inseridas, e esta preocupação maior com as temáticas políticas e sociais é uma marca muito forte da atualidade", argumenta o músico. "Um estudo das marchinhas de diversos períodos permite a compreensão do que o país estava vivendo naquela época, basta olhar as canções em menção à Era Getúlio, ou a Jânio Quadros. Certamente estas composições são e serão, no futuro, caminhos para entender o momento atual do Brasil", acrescenta Vanessa Damasco.

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