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08 de Março de 2014 - 06:00

No Dia Internacional da Mulher, Tribuna revisita vida e obra de Maria Pardos, uma das pintoras e colaboradoras de destaque do Museu Mariano Procópio

Por RENATA DELAGE

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Autorretrato de Maria Pardos, bastante divulgado após a morte da pintora
Autorretrato de Maria Pardos, bastante divulgado após a morte da pintora
Pintura "Sem pão", obra com a qual conquistou a maior premiação da carreira
Pintura "Sem pão", obra com a qual conquistou a maior premiação da carreira

Mesmo que a obra de Maria Pardos não tenha levantado qualquer bandeira feminista, certamente foram necessárias "algumas 'Marias Pardos'" para que as mulheres pudessem, hoje, gozar da igualdade no meio das artes - e em tantos outros espaços -, segundo a pesquisadora Valéria Fasolato. A pintora brasileira, nascida na Espanha, cujas vida e obra foram raramente revisitadas ao longo dos anos, figura como uma das mulheres de destaque no acervo e na própria constituição do Museu Mariano Procópio. Na data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, falar da artista é apenas uma das formas de homenagear todas aquelas que vincularam seus nomes à cultura da cidade.

Maria Pardos viveu por 37 anos com Alfredo Ferreira Lage, embora não tenham se casado oficialmente e mantivessem um relacionamento discreto. "Ela chegou ao Brasil no final dos anos 1890, como bailarina da Companhia Italiana de Óperas Cômicas e Operetas. As mulheres que se dedicavam a tal ofício eram mal vistas pela sociedade, por isso, não era interessante aos Lage ter alguém assim na família", resgata Valéria, que assinou, recentemente, dissertação de mestrado sobre um recorte da obra da pintora - "Representações de infância na pintura de Maria Pardos".

Embora exista uma cultura oral de que o casal teria recebido a benção matrimonial no leito de morte da artista, aos 61 anos, em 1928, no Rio de Janeiro, nenhum documento que comprova a união foi encontrado. "Quem declarou o óbito de Maria Pardos foi o próprio Alfredo, e no documento consta que ela era solteira", pontua Valéria. O sobrenome Lage só passaria a ser acrescentado ao nome da pintora após sua morte, assim como nas homenagens prestadas em sua memória pelo colecionador.

Entre os desafios enfrentados pela pesquisadora durante a elaboração do trabalho, destaca-se a ausência de informações sobre a pintora e sua obra, o que, segundo ela, se deve, a princípio, a dois fatores. "O fato de ela ser mulher e, também, em função dos artistas do período terem ficado no esquecimento. Com isso, acabei me engajando em 'dois trabalhos', sendo um deles, o levantamento biográfico da autora, para só depois me dedicar à análise das quatro pinturas: "Jornaleiro", "Sem pão", obra sem título (perfil de menina) e "Chiquinho do Tico-Tico". Alguns historiadores e pesquisadores, hoje, têm ajudado a preencher essa lacuna com estudos voltados para esta arte do século XIX", diz a pesquisadora, que se valeu de diversas referências na tentativa de traçar a trajetória de Maria Pardos, como periódicos da época, documentos do Museu Dom João VI (RJ) e demais arquivos pessoais guardados no Mariano Procópio.

Dividindo a mesma ideia, a professora do Instituto de Estudos Brasileiros, na área de sociologia, da Universidade de São Paulo (USP) Ana Paula Cavalcanti Simioni, destaca que, quando se fala de arte brasileira, apenas o barroco e o moderno tendem a ser vistos como relevantes. Em sua primeira visita ao Museu Mariano Procópio, recentemente, a pós-doutora, que se dedica ao estudo de temas como arte e gênero, se diz "impactada" com a relevância do acervo da instituição e destaca três importantes mulheres nesse contexto: a Viscondessa de Cavalcanti, uma das grandes colecionadoras do país; Georgina Albuquerque, autora do retrato da primeira caricaturista do Brasil, Nair de Tefé, que integra o acervo do museu; e Maria Pardos. "Essas mulheres tinham que negociar a todo tempo sua posição para se manterem na elite, para atenderem seus desejos de participação", observa Ana Paula. "Não ser devidamente casada, na época, não teve influência na produção de Maria Pardos, mas na sua falta de reconhecimento, sim."

 

 

 

'Sonhadora e impressionável'

Tendo trocado os palcos pelos salões, Maria Pardos, embora tenha começado tardiamente na pintura, foi um exemplo de dedicação, tendo, com isso, alcançado destaque entre as discípulas de Rodolpho Amoedo. "Desde o início da pesquisa, minha orientadora, a doutora Maraliz Christo, me ajudou a enxergar Maria Pardos como uma pintora bastante ambiciosa. Desde quando deixou de ser bailarina, na década de 1890, até 1913, ela esteve se preparando para apresentar sua obra", conta Valéria. Ao lado de Regina Veiga, outra aluna de Amoedo, Maria protagonizou uma grande exposição em um dos espaços renomados do Rio de Janeiro, a Galeria Jorge.

Adjetivando-a ainda como uma "estrategista", a pesquisadora destaca, entre suas obras estudadas, a pintura "Sem pão", trabalho que rendeu à autora a maior premiação de sua carreira, a pequena medalha de prata. A pintura teria sido feita após viagem de Maria Pardos a Buenos Aires, onde teria tido contato com "Sem pão e sem trabalho", de Ernesto Cárcova. "O artista argentino deu uma conotação política à obra, já Maria Pardos evidencia a miséria sem apelos políticos ou de caridade. É uma obra extremamente inquietante, o desânimo por parte do velho, e a criança iluminada, os olhares distanciados. Mas a estratégia de Maria Pardos esteve em perceber a temática da miséria possível de ser premiada, visto que a pintura de Cárcova mereceu inúmeras notas nos periódicos argentinos da época, como conta a historiadora Laura Malosetti", prossegue Valéria.

Participando por seis vezes do Salão Nacional, Maria foi premiada com menção honrosa de primeiro grau (1913), medalha de bronze (1914), pequena medalha de prata (1915) e com o prêmio de consolação, que foi doado aos pobres (1918). A carreira em ascensão, com lacuna de prêmios nos anos de 1916 e 1917, teria sido interrompida pela decepção com seu desempenho no salão de 1918, como contou a amiga Georgina Albuquerque, única artista a conseguir o mesmo prêmio na ocasião, em entrevista a Angyone Costa, registrada no livro "A inquietação das abelhas". "A minha colega, mais sonhadora e impressionável, talvez, sofreu golpe tão rude que abandonou o pincel, não quis mais se dedicar à arte, deixou a profissão onde começara tão bem", disse.

A despeito da importância artística da pintora espanhola, sua coleção abrigada pelo Mariano Procópio tem relevância, sobretudo, por figurar como o maior acervo de uma mulher, artista do período, encontrado em uma mesma instituição. "São 47 pinturas, mais de 200 desenhos, avulsos e em cadernos de desenhos, que mostram a formação da artista, além de objetos pessoais, móveis, utensílios de uso diário", aponta Valéria. "Sua coleção é importante, mas também é importante sua participação na consolidação do espaço. Sabemos do seu papel como colaboradora na criação do Museu Mariano Procópio, ainda que esse reconhecimento tenha acontecido depois de sua morte", acrescenta o diretor-superintendente do museu, Douglas Fasolato.

Segundo levantado na pesquisa de Valéria Fasolato, pelo menos seis homenagens póstumas foram feitas por Alfredo Ferreira Lage a Maria Pardos. A primeira delas foi o santinho de luto com a reprodução de seu autorretrato, com o acréscimo "Lage" ao sobrenome da artista. Na parte superior da imagem, há o nome do Museu Mariano Procópio.

Além disso, foram feitos uma placa de bronze comemorativa e um busto em gesso, este de autoria de um respeitado escultor da época, Modestino Kanto. Foram ainda instituídos o prêmio Maria Pardos, acrescido da medalha com autorretrato da artista, assim como a sala que leva seu nome no Museu Mariano Procópio. "A série de homenagens deixa evidente que Alfredo Lage objetivava a manutenção da memória de Maria Pardos como esposa, pintora e colaboradora na constituição do museu, apesar de tantas lacunas e contradições ao tentar entender o relacionamento da artista com o colecionador", diz Valéria.

"O que de concreto podemos afirmar é que, em 18 de maio de 1928, com a morte de Maria Pardos, a união não termina. É o final de um relacionamento físico, no mínimo discreto, e o início de uma narração dessa história contada através das homenagens. A importância desta manutenção da memória nos possibilitou alcançar, passado um século, a existência desta mulher pintora, que mostrou-se com ambições altas e perspicácia ao perceber o que estava sendo aceito e premiado pelos salões para produzir e expor sua pintura", conclui.

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