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22 de Abril de 2014 - 06:00

Marcio Baesso assina catálogo e exposição 'Fazendas centenárias de Guarani', em cartaz no espaço cultural da cidade centenária

Por MARISA LOURES

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Fazenda Nossa Senhora do Carmo
Fazenda Nossa Senhora do Carmo
Fazenda Boa Vista
Fazenda Boa Vista
Fazenda Santa Isabel
Fazenda Santa Isabel

As lembranças da época de menino, quando frequentava a Fazenda Santa Isabel, de propriedade dos avós maternos, Pedro Alves Vieira e Cândida Augusta Vieira, ainda estão conservadas na memória. "Havia muita festa, muita plantação de milho, de fumo e muito comércio de gado", recorda-se Marcio Baesso, que traçou em aquarela sobre papel essa e outras antigas construções de Guarani, sua cidade natal, no catálogo "Fazendas centenárias de Guarani", lançado dia 12 de abril durante exposição de mesmo nome. "Era uma fazenda do final do século XIX. Na década de 90 do século passado, ela já apresentava sinais de que ia ruir, e meu tio aproveitou o madeirame para fazer uma sede mais modesta", conta o artista. Os trabalhos ficarão expostos até 4 de maio no Espaço Cultural Cesar Ornellas, e os impressos serão distribuídos para instituições públicas da cidade.

"Muito embora aquela fazenda (Santa Isabel) não mais exista, vem-me à lembrança de como admirava suas amplas dimensões, a solidez de seus alicerces, a extensão de seu pé direito, o apuro de sua técnica construtiva, a revelar a maestria de carpinteiros e artesãos, que a enxó e formão conseguiram construir tão admirável residência", escreve ele na publicação, que traz 38 imagens, além de aspectos históricos e detalhes técnicos e arquitetônicos. "De um modo geral são fazendas de médio porte, com exceção da Santa Cecília, Monte Alverne e União. A arquitetura é tipicamente rural mineira, sem muitos aparatos, traços simples, simétricas. Quase todas elas têm um formato em quadrado ou em L com alpendre na frente e escada na lateral. São predominantemente de pau a pique."

A iniciativa chega ao público em virtude do aniversário de 100 anos de Guarani, comemorado em 25 de março. Para a pesquisa, foi preciso se lançar a visitas em campo e fazer consultas a livros que trazem a história do município, como a obra de Pedro de Abreu, intitulada "Esboço histórico e cronológico de Guarani". O que aconteceu antes da fundação da localidade, ponto de partida para o livro de Abreu? Como preencher a lacuna deixada? As criações de Marcio nasceram do desejo de responder a essas perguntas. O estímulo para a empreitada veio do amigo Paulo Roberto Alvarez, responsável pela concepção e organização do material. Antes que a história secular se perdesse, era preciso preservá-la. "Queria chamar atenção para este patrimônio esquecido."

 

 

Acervo de histórias

Marcio conta que algumas edificações ainda estão de pé, outras, porém, "somente puderam ter a memória resgatada por meio de registros cedidos por descendentes de seus proprietários", como é o caso das fazendas Palestina, União e Córrego Negro. "A seleção de algumas das fazendas a serem retratadas decorreu de sua importância econômica, de sua beleza estética e também em consideração a outros aspectos, como a singeleza de sua construção e sua singularidade." Na produção do material, o artista recorreu a depoimentos de viajantes europeus que vieram para o Brasil, como o naturalista alemão Burmeister e o cônsul inglês Richard Burton. A caminho de Mariana, este último relata o cotidiano de um proprietário rural, conforme escreve a historiadora Mary Del Priori, no livro "Roda de fiar, carro de boi e 'vissungos': O cotidiano nas fazendas de Minas Gerais". Ela é uma das autoras a quem Marcio recorreu para a produção do catálogo.

"Levanta-se ao amanhecer e um escravo trazia-lhe o café e a bacia e jarro de água para lavar o rosto. Depois de visitar o engenho de cana que começava a moer as duas da manhã, e de andar a cavalo pelas plantações, "para ver se os escravos não estavam malandrando", voltava entre 9 e 11 horas para almoçar com a família ou, se era celibatário para almoçar com o feitor. As horas de sol eram passadas fazendo a sesta, ajudada por um copo de cerveja inglesa, lendo os jornais ou recebendo visitas. O jantar era entre 15 e 16 horas e invariavelmente acompanhado de café, cigarros e charutos. Mais tarde ceava-se com chá, biscoitos, manteiga e conservas, terminando o dia com boa prosa em lugar fresco. A monotonia dessa vida de frade era quebrada com as visitas aos vizinhos ou às cidades próximas", registrou Mary.

Das andanças de Marcio, saltam aos olhos as histórias curiosas. "Tivemos fazendas muito importantes. A União hospedou o Conde D'Eu na última década da monarquia, quando da inauguração da estrada de ferro. Era uma propriedade muito próspera", diz o artista, que, sem muitas pretensões, procurou contextualizar o leitor com um breve relato sobre a ocupação da Zona da Mata Mineira. "Foram nestas fazendas que surgiram as lideranças em torno da fundação de Guarani", comenta, apontando para mudanças que vieram a reboque do esfacelamento das edificações.

"Nos primeiros anos, Guarani tinha uns três mil habitantes na cidade e 15 mil no campo. Hoje, se tiver mil no campo é muito. A decadência das fazendas provocou essa evasão rural. Algumas estão preservadas, como é o caso da que pertence à família Belotti, cujo acervo de móveis é belíssimo."

Defensor público, Marcio se arrisca no desenho há três anos. A aventura com os pinceis é uma atividade recente. De acordo com ele, as pinturas de "Fazendas centenárias de Guarani" foram feitas em dez meses. Uma ou duas a cada semana. "Serve para aliviar as tensões da minha labuta na vara criminal", brinca o pintor, esclarecendo que as marcas deixadas pelo tempo o obrigou a, algumas vezes, utilizar tons que destoam do original. "Procurei ser fiel ao cenário, mas encontrei algumas fazendas com um aspecto já bastante decadente. A lembrança que tenho da fazenda União, por exemplo, é da época próxima à demolição. Aos poucos, a imponência dos elementos neoclássicos foram se desagregando. Com o passar dos anos, ela foi perdendo a beleza sem er a majestade".

FAZENDAS CENTENÁRIAS DE GUARANI

 

Visitação de segunda a sexta, das 10h às 17h, sábado, das 14h às 18h

 

Espaço Cultural Cesar Ornellas

(Travessa Paulo Miranda s/n)

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