"Cada vez mais olhares cinematográficos estão nascendo e crescendo, e esta pluralidade de visões vem condizendo cada vez mais com a grande quantidade de imagens de um país do tamanho do Brasil", opina o cineasta Taciano Valério, um dos destaques da 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que vai de 18 a 26 de janeiro. Abrindo a programação com o curta "Onde Borges tudo vê", uma produção da Paraíba, Valério representa um dos olhares a que ele próprio se refere e que permeia a discussão central desta edição do evento.
Com o tema "Fora de centro", o festival aborda a descentralização do fazer cinematográfico brasileiro nos últimos anos, debatendo também as implicações e influências deste processo em termos estilísticos e de produção. "De uns cinco anos para cá, observamos que os inscritos na mostra não apenas vinham de diversos estados, mas de produções coletivas interestaduais e com características narrativas que fugiam à linearidade. Dar visibilidade a este tema agora é oportuno porque poderemos compreender melhor e discutir sobre algo que está em pleno curso", explica a coordenadora do evento, Raquel Hallack.
A programação da mostra reflete este crescimento gradativo das produções fora do eixo Rio-São Paulo mencionado por Raquel. A própria homenagem desta edição, destinada a Simone Spoladore,será feita com a exibição de "Nove crônicas para um coração aos berros", de Gustavo Galvão, um drama protagonizado pela atriz e realizado no Distrito Federal. No total, dos 105 longas inscritos este ano, 45 (44%) foram produzidos em outros estados, com destaque para os cineastas mineiros. De Minas, seis dos 14 longas inscritos serão exibidos, entre eles "Vento de Valls", de Pablo Lobato, um dos selecionados para a Mostra Aurora, que apresentará cinco filmes independentes realizados "fora de centro", assinados por novos diretores. Taciano Valério também deixa a marca do Nordeste na Aurora, com a produção "Ferrolho". Na Mostra Praça, "A cuíca de Santo Amaro" representa o cinema baiano e tem direção de Joel de Almeida e Josias Pires. Entre os curtas, São Paulo responde por 125 (27%) inscrições , Rio, por 95 (21%), e os demais estados, por 239 (52%)produções .
Para o curador do evento, Cléber Eduardo, além do crescimento quantitativo de produções fora dos grandes centros, houve também um aumento na qualidade delas, que se deve a diversos fatores. "A descentralização passa tanto pela expansão de editais (questão política) quanto pelo barateamento da produção em tecnologia digital (questão tecnológica). Também se deve levar em conta a crescente formação em cursos e oficinas de cinema, aos poucos distribuídos por diferentes regiões."
Já o diretor carioca Marcelo Ikeda, que integra a mesa de debatedores "Fora de Centro- estilos cinematográficos", destaca a importância da reconfiguração dos festivais e mostras de cinema nos últimos anos. " A tecnologia digital possibilitou a execução de filmes com um modo de produção mais barato, mas a abertura dos festivais a estes formatos foi determinante para que a realização dos trabalhos se espalhasse por todo país. Antigamente, a maioria dos eventos só aceitava inscrições de material em película, que é muito mais caro de se produzir."
Olhar sobre o outro
Um dos especialistas que participa da discussão "Fora de Centro- procedências da produção", o cineasta Guto Parente ressalta que o crescimento do cinema em outros estados não significa o enfraquecimento das realizações dos fluminenses e paulistas. "Rio e São Paulo continuam produzindo bastante e ótimos filmes. O que acontece é que outros estados têm se equiparado em quantidade e qualidade, e têm conseguido chamar atenção. Acho importante a gente combater essa lógica competitiva, sempre. Senão vira queda de braço, todo mundo brigando por atenção, passando por cima uns dos outros. O legal são as trocas." Sendo ele mesmo exemplo do que fala, Guto exibe, na Mostra Transições, seu longa "Doce Amianto", uma produção cearense co-dirigida por Uirá dos Reis.
Também falando sobre trocas, Taciano Valério destaca que um dos aspectos importantes com a pulverização de cineastas por todos os cantos do país é a possibilidade de ter mais exercícios de "olhar sobre o outro. "A descentralização permite a quebra de clichês e uma diversificação infinita de temáticas. Antes, por exemplo, qualquer filme sobre o Nordeste tinha que falar da seca. Agora podemos mostrar a realidade que quisermos, sem ter a preocupação de agradar o centro, o 'mainstream', porque há mais espaço para o regional, porque há mais gente falando sobre mais realidades, de mais locais."
Para Cléber Eduardo, a descentralização geográfica se reflete na própria estrutura fílmica das produções atuais. "Os filmes se dispersam, se expandem, se fragmentam, não parecem atrás de uma unidade, de um eixo único", observa ele. Marcelo Ikeda destaca que a dissolução das fronteiras geográficas do fazer cinematográfico contribui para que outras demarcações sejam apagadas. "Estilisticamente, a barreira entre ficção e documentário no cinema brasileiro atual é borrada, com limites muito tênues. Além disso, acho que esta geração de realizadores aposta em problematizar os limites demarcados por gerações anteriores, investir no intercâmbio não apenas entre estados e cidades, mas também de estilos, linguagens, estéticas... Na coletividade, de pessoas, projetos e ideias."
Segundo Raquel Hallack, o papel da mostra é revelar esta geração descrita por Ikeda e seus produtos, discutindo possíveis premissas que embasarão a realidade do cinema nacional nos próximos anos. " Acho que depois da mostra teremos impressões mais conclusivas sobre as consequências do que está acontecendo agora, mas só poderemos falar com segurança sobre as consequências da descentralização daqui a alguns anos. O importante é não deixar esta realidade passar em branco, para que possamos acompanhar o curso destas transformações como espectadores privilegiados."



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