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22 de Março de 2014 - 06:00

Em tempos de otimismo na poesia, editora Cosac Naify irá reeditar obra do poeta juiz-forano, e primeira publicação é antologia com inéditos

Por MAURO MORAIS

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O ensaísta e crítico literário Otto Maria Carpeaux dizia que Murilo Mendes era um poeta para poetas. "Talvez Murilo Mendes seja mesmo sempre um poeta difícil. Pode ser que o Carpeaux tenha vislumbrado nessa caracterização que fez uma questão forte no autor: essa de fecundar outros criadores, sem ter, no entanto, um grande público", aponta o professor da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) Murilo Marcondes de Moura. Contudo, ainda que haja certo hermetismo na obra do escritor juiz-forano, é, acima de tudo, a ausência de seus livros nas prateleiras que restringe seu alcance. Para retirar o escritor do silenciamento ao qual foi imposto, a editora paulista Cosac Naify, reconhecida pelo fino acabamento de suas obras e por sua estreita relação com o campo das artes visuais, irá reeditar, ao longo de aproximadamente quatro anos, a obra completa do poeta, começando por uma nova antologia, organizada por Marcondes de Moura e pelo pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa Júlio Castañon Guimarães.

"Ao longo da vida, ele próprio preparou uma antologia poética, que saiu em 1964, depois surgiram mais três antologias, entre 1960 e 1980. Como surgiram vários estudos recentes, decidimos fazer uma nova. No momento, a poesia está em alta, e existem várias dicções demarcando espaço. Acredito que a poesia do Murilo, pela originalidade dela, pode demarcar um espaço grande. É um trabalho de longo prazo. Não entendemos como apenas recolocar no mercado, mas é importante recolocar na cultura", pontua o editor responsável pelo projeto, Milton Ohata. Segundo ele, a antologia, prevista para ser lançada no segundo semestre, terá uma versão em brochura simples e uma edição especial com registro de áudio inédito, no qual o próprio poeta lê seus textos, em 1950, e um filme de Alexandre Eulalio e Carlos Augusto Calil, lançado em 1977, com as últimas imagens de Murilo, filmado ao lado de amigos como Lygia Clark e Glauber Rocha, em seu apartamento na capital italiana.

Além das reedições, Ohata conta que a Cosac Naify também programa fazer um trabalho com as escolas, com um material didático para possibilitar que a obra dele circule por um público mais amplo. "Como ele saiu do Brasil em 1957 e foi dar aulas na Universidade de Roma, a recepção de sua poesia ficou prejudicada. Em 1975, não havia a obra completa dele nas livrarias, que só foi editada em 1994, pela professora Luciana Stegagno Picchio, quase 20 anos depois de sua morte. É uma edição autorizada, mas que tem um custo alto para quem deseja comprar um livro avulso", comenta o editor, destacando que, no final da década de 1990, a editora Record publicou somente alguns volumes da obra muriliana. "Nossa intenção, agora, é editar tudo, inclusive explorando um lado dele que é sua relação com as artes plásticas. Ele foi amigo de vários artistas, que ilustraram suas obras, não só no Brasil, mas fora também. Tem uma edição do "As metamorfoses" com ilustrações do Portinari e uma edição do "Janela do caos", escrito na Europa, ilustrado pelo Picabia. Mesmo a coleção dele de artes plásticas, que hoje está em Juiz de Fora, é importantíssima. Queremos que essa relação seja parte de nosso projeto editorial", completa.

Diretora do Museu de Arte Murilo Mendes, que preserva a biblioteca, a coleção de artes visuais e alguns documentos do poeta, a professora da Faculdade de Letras da UFJF Nícea Helena Nogueira, a instituição está disposta a colaborar com o projeto. Os direitos autorais da obra de Murilo Mendes, que não teve herdeiros, pertencem a familiares de sua esposa, Maria da Saudade Cortesão Mendes, falecida em 2010. "Fiquei muito contente pela obra ser publicada por uma editora importante no mercado brasileiro. É uma oportunidade de trazer para o autor um gosto de novidade. É uma grande chance de apresentá-lo a uma nova geração", comenta.

 

 

'Ele é um poeta que sempre vai ficar'

"Murilo Mendes é um poeta diferente demais do que talvez tenha se consagrado em nossa tradição, como Manuel Bandeira, João Cabral de Mello Neto, Carlos Drummond de Andrade, que, embora muito diferentes entre si, são muito assimilados. Murilo Mendes é um poeta mais estranho, e essa estranheza dele vem de questões difíceis de definir. Aliás, é o que precisa ser feito: investigar em quê consiste a singularidade do poeta. Tem a questão religiosa, que é uma coisa curiosa, tem a dimensão estética muito poderosa, porque ele foi um grande conhecedor de pintura, de música, e acabou trazendo para sua poesia procedimentos dessas artes que conhecia tão bem. Ele teve essa experiência europeia, que é uma coisa diferente, já que o intelectual e o artista brasileiro estão enraizados", destaca Murilo Marcondes de Moura.

Pesquisador da obra muriliana e organizador de "Murilo Mendes: reflexões avulsas", dentre outros livros, o professor do Instituto de Artes e Design da UFJF José Alberto Pinho Neves destaca a atualidade do poeta. "Qualquer reedição de obra é a confirmação da importância de um autor, da qualidade do que foi produzido. Murilo ficou dissociado do Brasil e, por isso, tornou-se restrito, considerando que a própria poesia já é algo restrito, mas sua literatura é maior que quaisquer datas. Em pleno século XXI, conseguimos ler "História do Brasil", de 1932, que é extremamente atual", afirma, apontando para outro título, "A idade do serrote", de 1968, livro de memórias que se apresenta como um dos mais geniais relatos do passado. "Ele é um poeta que sempre vai ficar, tem uma grandeza inequívoca. O problema da recepção, da conquista de um público maior, a assimilação da poética dele com as dificuldades que ela traz, esses componentes biográficos, podem ser elementos aparentemente indigestos, mas também um convite à leitura. É uma obra que pressupõe uma tolerância por parte dos leitores", corrobora Marcondes de Moura. "A eventual dificuldade que a obra dele apresenta pode ser compensada pelo encanto e pelo prazer que proporciona. Acredito na poesia como fruição", completa Nícea.

No ano que se segue ao boom editorial em torno de "Toda poesia", antologia poética do paranaense Paulo Leminski, as reedições de Murilo Mendes confirmam a boa fase dos versos e se mostram mais uma grande e urgente aposta. Até o final desse ano devem chegar às prateleiras o primeiro livro do juiz-forano, intitulado "Poemas", de 1930, o último e elogiado "Convergência", de 1970, e as memórias de "A idade do serrote", desvelando, novamente, um escritor respeitado em seu meio e em sua terra natal, mas ainda aquém de sua popularidade nacional. "O Leminski tem uma série de componentes biográficos, tem uma proximidade temporal, um chamamento das letras de música, uma obra que não propõe as mesmas dificuldades que o Murilo Mendes. Acredito que o Murilo Mendes nunca será um poeta de grande público, pode ser um poeta de momentos de recepção favoráveis, e, quem sabe, agora, venham esses momentos", aposta Marcondes de Moura.

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