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01 de Julho de 2014 - 06:00

Livro com palestras e trabalhos apresentados durante o IX Encontro de Musicologia Histórica será lançado na décima edição do evento

Por JÚLIO BLACK

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A musicista Maira Pereira divide seu tempo entre a prática do cravo e a pesquisa acadêmica
A musicista Maira Pereira divide seu tempo entre a prática do cravo e a pesquisa acadêmica

A popularização (banalização?) do ato de ouvir música pode fazer com que ela pareça a muitos decorativa feito um abajur, mas ainda há quem a leve muito a sério - a ponto de pesquisá-la dentro de contextos históricos, artísticos e culturais por meio da musicologia. O resultado desses esforços pode ser conferido no X Encontro de Musicologia Histórica, que vai acontecer entre os dias 18 e 20 de julho no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), dentro do 25º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga. Na ocasião, será lançado o livro da última edição do encontro, realizado em 2012, com a reprodução dos 13 trabalhos apresentados. O tema discutido em 2012 foi "Intertextualidade: fronteiras entre o sacro e o profano na música do Brasil colonial e imperial".

Um dos responsáveis pela seleção dos trabalhos e elaboração do livro, o coordenador do curso de música da UFJF, professor Rodolfo Valverde, conta que os trabalhos foram apresentados por pesquisadores musicais convidados pela organização, ao lado dos que se inscreveram por meio de edital, resultando na participação de pesquisadores brasileiros e portugueses. Com a contribuição de outros dois avaliadores - Luís Otávio de Souza Santos e Marcos Holler -, foram selecionadas as pesquisas não só por sua qualidade, mas também que estivessem integradas ao tema da ocasião. Ele destaca, porém, que o Encontro de Musicologia Histórica não é um clube fechado. "O encontro tem um viés mais histórico, mas mesmo quem não tenha muita afinidade com a parte histórica da música vai compreender", disse ele. "A musicologia é uma fonte de pesquisa da prática e da história da música no decorrer do tempo, é muito abrangente."

Essa abrangência, destaca, vai da redescoberta de obras até sua interpretação e inserção no contexto histórico, além de poder oferecer novas perspectivas de obras conhecidas também no que tange à interpretação. "Um dos benefícios é a aplicação dessas pesquisas dentro da música feita no Brasil, resgatar esse repertório à luz do que era feito na Europa em determinado período. Há pouca pesquisa feita no país dessa música, então o encontro se torna uma oportunidade maravilhosa (para a troca de conhecimento). Em 2012, pudemos discutir a comparação da música no Brasil colonial com a que era feita em Portugal no século XVIII, em especial a de seu principal nome, Marcos Portugal", contou. "Inclusive, o pesquisador Antônio Jorge Marques lançou um livro sobre o compositor português durante o encontro, fruto de um esforço de pelo menos dez anos." Rodolfo explica ainda que, no caso do evento juiz-forano, é feita uma comparação da música brasileira com a que era feita em outras colônias e também no continente europeu no que diz respeito à parte de história e de interpretação. Ele ressalta, porém, que a musicologia pode tratar de temas atuais.

Como toda boa pesquisa acadêmica que se preze, o processo de garimpagem da história da música demanda tempo e esforço. Valverde ressalta que a maior dificuldade para o pesquisador local é o descaso que ainda existe com o passado de nosso país. "A falta de preocupação do brasileiro em preservar a memória dos séculos passados torna muito difícil conseguir as fontes musicais originais e restaurá-las. Até mesmo o movimento de resgate dessa memória começou por um alemão, Francisco Curt Lange, na década de 1940, aqui em Minas Gerais. Ele foi importantíssimo para esse processo."

Sem se abater pelas lamentações, Rodolfo Valverde trabalha também na preparação deste encontro, que tem como tema "Teoria e práxis na música: uma antiga dicotomia revisitada". Foram aprovados outros 13 trabalhos, envolvendo pesquisadores brasileiros, portugueses e da América Latina.


Paixão pela música e sua história

Um dos trabalhos acadêmicos presentes no livro é o da cravista e doutora em musicologia pela Unirio, Maira Pereira, cujo tema foi "A importação de instrumentos musicais no Rio de Janeiro colonial". Segundo ela, o fato de estar ligada à música antiga acabou levando-a para a pesquisa acadêmica. "Nós procuramos encontrar o contexto histórico da época. Quando estudava cravo, precisei fazer uma dissertação sobre música antiga e me apaixonei pela pesquisa acadêmica", diz ela, que também fez mestrado pela UFRJ e estudou entre 2006 e 2008 no Conservatório Real de Haia, na Holanda.

Para a pesquisa, Maira precisou embrenhar-se nos registros alfandegários do Rio de Janeiro e de Portugal, o que levou à descoberta de um grande volume de importações antes mesmo da chegada da família real à cidade carioca, em 1808. "Esse levantamento contribuiu para conhecer os tipos de instrumentos que havia no período. Descobri, inclusive, que já existiam pianos no Rio de Janeiro dez anos antes da chegada da família real portuguesa. Conhecemos, assim, quais os tipos de instrumentos utilizados antigamente."

Maira Pereira ainda destaca a importância de eventos acadêmicos como o que ela participou em 2012. "Encontros como esse ajudam na ampliação do conhecimento e da troca de informações com outros pesquisadores. É uma contribuição recíproca", encerra.

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