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21 de Março de 2014 - 06:00

Coletiva de artistas de Minas Gerais e do Rio de Janeiro retrata o cubo em diferentes suportes e técnicas

Por MAURO MORAIS

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Com trabalhos diferentes, Petrillo, Ilcio Arvellos Lopes, Luiz Carlos de Carvalho e Rafael Vicente integram a exposição
Com trabalhos diferentes, Petrillo, Ilcio Arvellos Lopes, Luiz Carlos de Carvalho e Rafael Vicente integram a exposição

Há alguns anos, o artista Ilcio Arvellos Lopes tem no cubo sua prática e sua pesquisa nas artes visuais. O cubo de Ilcio tem profundidade, altura, base e volume e, muitas vezes, se despe de sua materialidade para transfigurar o percurso nas cidades e outras discussões subjetivas. Como a recordar um momento, um amigo do artista postou em sua linha do tempo no Facebook uma fotografia de uma de suas obras com a forma geométrica. Imediatamente outra artista, não muito próxima de Ilcio, observando a imagem, acusou-lhe de plágio por acreditar que seu trabalho e o do carioca de 52 anos, formado pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), eram excessivamente semelhantes. O que a tal artista não compreendeu é que Ilcio escolheu uma forma elementar no estudo das artes, naturalmente encontrada em diversas outras obras, e a própria recorrência do objeto de pesquisa integra o discurso do artista. E são tantos os trabalhos que fazem referência, direta ou indiretamente, ao cubo, que Ilcio resolveu respondê-la de maneira grandiosa, convidando amigos a apresentarem suas produções na exposição "Dez ao cubo", que abre hoje, às 20h, na Hiato - Ambiente de Arte.

"O cubo não pertence a ninguém, é uma forma universal. Existem várias possibilidades de suporte para essa forma geométrica. Costumo dizer que o cubo é a própria vida. A galeria mesmo é vista como o cubo branco. Ele tem essa questão do abrigo", comenta Ilcio, que deu o pontapé inicial do projeto ainda na internet, onde surgiu o que chama de provocação. Além dele, integram a exposição os artistas Fernando Borges, Petrillo, Luiz Carlos de Carvalho, Maria Cherman, Osvaldo Carvalho, Paulo Mendes Faria, Rafael Vicente, Ricardo Pimenta e Roberto Tavares. E o grupo pode aumentar, já que a coletiva tem recebido convites de outras galerias, incluindo uma em Copacabana, na capital fluminense, e outra no Rio Grande do Sul. "Hoje são 'Dez ao cubo', amanhã serão 'Vinte ao cubo' e podem ser muitos outros, cada vez mais", diz.

Segundo a artista plástica e produtora Marcia Zoé Ramos, em texto de apresentação da mostra, o cubo é conhecido desde os antigos tratados euclidianos, sendo considerado um dos cinco sólidos de Platão. Associado à terra pelo filósofo da antiguidade clássica, a forma de faces quadradas reserva uma infinitude de representações possíveis, servindo às ideias de estabilidade, segurança, espaço para reflexão, imaginação e expressão. "Convidados ao desafio do 'cubo branco', território das poéticas por excelência, cada um apresenta sua leitura da forma, com ou sem esquadro, nível, fio de prumo, perspectivas ou números e, no contexto deste espaço, o objeto artístico torna-se essência. O cubo é de todos e todos o recriam. Como no poema empírico, os dez artistas têm os olhos, o pulso e a memória. Todos eles acreditam que assim se constrói o cosmos e sonham. E nos remete à própria vida", analisa.


Da matéria ao símbolo

Em diferentes suportes e técnicas, "Dez ao cubo" recorre a uma forma primária, presente nos primeiros estudos de um entusiasta a artista, e desdobra-se em poéticas refinadas como é feito na obra de Maria Cherman, "Ensaio para um desejo concreto", cujo cubo é materializado em madeira, deixando em um espaço menor, na quina, a ausência de outro pequeno cubo. "Ele tem uma forma concreta, um pé no minimalismo por ser monocromático com repetição de listras", conta, dizendo das faixas do próprio lenho, que dá à obra um caráter orgânico. "Se olharmos bem, encontramos a geometria na natureza", pontua a artista, professora aposentada de desenho geométrico na Escola de Belas Artes da UFRJ. Em percurso quase oposto, Petrillo lança mão do objeto palpável, mas retira-o de um lugar industrial e ressignifica-o.

Em "Análise combinatória", o artista de Valença, no Rio de Janeiro, e radicado em Juiz de Fora, reúne 36 cubos mágicos (daqueles cujo desafio maior é reunir a mesma cor em cada uma das faces). Disposto na parede, sugerindo a formação de outro cubo, os brinquedos partem, em uma quina, da cor branca, que é a presença de todas as cores, passam pelo vermelho, pelo laranja e pelo amarelo (propondo que a cor intermediária, o laranja, surgiu pela fricção com o vermelho e o amarelo que o circunda). "Esses cubos já estão comigo há mais de nove anos. Na exposição, utilizo eles sem fazer nenhuma interferência, sem brincar. Aproprio-me desse quebra-cabeça, criando a minha combinação", aponta.

Identificado por sua linguagem abstrata, Petrillo diz encontrar no objeto-tema da exposição, seu trato com as linhas, elemento bastante frequentado em sua obra. Essas linhas, nas mãos de Ilcio Arvellos Lopes, se tornam rotas, planos, espaços. Feito em adesivo colado sobre a parede, os cubos de Ilcio são dispostos lado a lado, formando outras imagens, sugerindo outras leituras - em cada espectador, uma obra se apresenta. "O adesivo é meu instrumento de trabalho, que quando vai para a parede pode virar uma linha, com a possibilidade de se expandir para outros lugares. Em meu trabalho, o cubo é o próprio trabalho, já no do Osvaldo Carvalho, é um detalhe, e no do Rafael Vicente, compõe a cena inteira", comenta.

Em "Lou" e "Anne", telas feitas em acrílica, de Osvaldo, o cubo demarca o início e o fim, no que ele chama de "fábula contemporânea". Enquanto no primeiro uma criança brinca com coloridos cubos, no segundo a forma serve a um crematório. Mas ambas as cenas não tomam todo o quadro, são, segundo o artista, apenas o ponto de partida para a ocupação do espaço da tela, cujo procedimento é feito como na pesquisa do portal Google, onde uma palavra te leva a outra e a outra. "Todas as imagens eu retiro da internet. São informações que dão saltos, e esses saltos vemos a todo o momento no hiperespaço cibernético", conta, dizendo que tudo começou com uma investigação sobre Luís IX (Lou), rei da França no século XIII.

Revelando um contemporâneo amadurecido, a coletiva alcança um diálogo com a história à medida que proporciona o destacamento do cubismo, corrente que se aproveitou das formas geométricas, e do neoconcretismo, mais recente e que insere subjetividade à arte concreta. Surgidos entre as décadas de 1970 e 1990, os artistas da exposição revisitam a mesma forma, mantendo-se originais e respeitando a própria trajetória, como Paulo Mendes Faria e seu cubo feito em EVA (Espuma vinílica acetinada) colorido, procedimento que marca sua obra. Da instalação à pintura, passando pela escultura e pela gravura, os trabalhos compreendem uma unidade, mesmo que ocupando lugares distantes. Conforme a apresentação de Marcia Zoé Ramos, há uma poesia que liga os dez. "O cubo é o primeiro aprendizado", diz Osvaldo Carvalho. "O cubo talvez seja a forma mais elementar. Ele sintetiza tudo, tem uma presença forte", completa Maria Cherman.

DEZ AO CUBO

Coletiva

Abertura hoje, às 20h

Visitação de segunda a sexta, das 9h ao meio

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