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06 de Março de 2014 - 06:00

Projeto desenvolvido pelo Laboratório de Patrimônios Culturais da UFJF resgata memória do trem na região

Por RENATA DELAGE

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Parte da equipe do Memória Trem nas ruínas da Estação Mantiqueira, próximo a Santos Dumont
Parte da equipe do Memória Trem nas ruínas da Estação Mantiqueira, próximo a Santos Dumont

Ainda que já imaginasse que a memória do trem estivesse atrelada à vida das famílias mineiras, o arquiteto e historiador Marcos Olender não podia supor o quão vivas e marcantes seriam tais lembranças. "A ferrovia e sua memória não está presente só no cenário, mas nas histórias e na identidade dessas famílias", avalia o arquiteto, um dos coordenadores - ao lado da arquiteta Mônica Olender e da turismóloga Raphaela Corrêa - do programa "Memória trem", realizado pelo Laboratório de Patrimônios Culturais (Lapa) do Instituto de Ciências Humanas da UFJF. A iniciativa - desenvolvida com financiamento do MEC, por meio do Programa de Extensão Universitária (ProExt) - conta com uma série de eventos relacionados ao patrimônio ferroviário em seis municípios da região: Barbacena, Antônio Carlos, Santos Dumont, Ewbank da Câmara, Matias Barbosa e Juiz de Fora.

Desde março de 2013, uma equipe multidisciplinar - das áreas de arquitetura, artes, comunicação e história - percorre a região em busca de vestígios, manifestações, relatos e lugares que ancoram a memória e o patrimônio cultural deixado pela ferrovia que tanto impulsionou o desenvolvimento urbano, econômico e sociocultural não só em Minas, mas em todo o Brasil, apesar de em grande parte ter sido desativada nas décadas de 1960 e 1970.

Um dos projetos englobados pelo programa, o "Vagão do patrimônio", já passou por três dessas cidades (Matias Barbosa, Santos Dumont e Barbacena), levando à comunidade local um minicurso com o tema "Memória e patrimônio", ministrado pela professora e arquiteta Milena Andreola, além de uma oficina artística chamada "Trem de afetos", com o artista plástico e maquinista Jorge Fonseca. "Antes de chegarmos ao município com o 'Vagão', há uma pesquisa sobre particularidades, imagens, lugares, histórias daquele lugar, o que é acrescido à parte básica do curso. Assim, a integração com cada comunidade é diferente, mas a participação delas é muito ativa o tempo todo", observa Olender, destacando ainda a presença de um público bastante diverso nas sessões, composto por estudantes, professores, donas de casa, aposentados, entre tantos outros. Outra importante participação na iniciativa tem sido, segundo o arquiteto, as prefeituras, ONGs e instituições representativas das cidades.

Já a oficina artística não poderia contar com artista mais engajado na temática proposta. "Jorge Fonseca é um artista com projeção nacional, que trabalhou por 15 anos como maquinista", conta Olender. Durante as viagens, Fonseca começou a trabalhar com bordados. Quando obteve prêmios por sua obra, largou o ofício para se dedicar às artes. Na oficina, uma série de materiais serve para expressar as marcas deixadas pelas relações com o trem.

A equipe do programa vem realizando ainda um inventário do patrimônio - material e imaterial - encontrado pelo caminho. São casas de maquinistas, móveis, acervos fotográficos, roupas e demais objetos e documentos de acervos institucionais e pessoais, depoimentos, relatos. O material servirá de base a uma série de produtos, como cartilhas educativas, exposições fotográficas, videodocumentário e seminários que retornarão o trabalho às comunidades, previstos para a culminância do projeto. "Estamos elaborando um material com bastante qualidade, que possa, por exemplo, no caso do documentário, participar de festivais", explica Olender. Trechos do trabalho já podem ser vistos em páginas no Facebook e no Youtube, e ainda no blog do programa (memoriatrem.wordpress.com).

"Ao final do processo, que já chega às suas últimas etapas no primeiro semestre, entendemos que podemos contribuir para auxiliar na preservação do patrimônio ferroviário das cidades, levantando o pensamento de revitalizar esses bens, esses espaços e quem sabe até retomar alguns desses circuitos. Nosso intuito é esse: agregar, ajudar a manter viva essa chama da memória ferroviária mineira", observa Olender.

O "Vagão do patrimônio" ainda estará em Antônio Carlos (dias 13, 14 e 15 de março), Ewbank da Câmara (nas semanas seguintes) e Juiz de Fora (em meados de abril). O último evento faz a equipe retornar ao local em que o trabalho começou, sendo realizado em uma escola de Igrejinha, que um dia foi uma estação.


Onde as histórias se cruzam

"Temos nas mãos um material muito rico, associado a um trabalho investigativo. Brincamos que fomos muito ambiciosos ao propor abranger todos esses municípios, pois se elegêssemos só um, já seria muito trabalho", pondera Marcos Olender, nitidamente tocado não apenas pelo patrimônio material encontrado nas pesquisas, mas, sobretudo, pelas lembranças nas quais o trem cruza com a vida dos mineiros da Zona da Mata.

De Santos Dumont, vêm algumas das histórias compartilhadas pelo historiador, como a que explica a tradição de madrugar aos domingos para participar da "pelada" no Clube Social Olímpico Ferroviário. O clube, que tem uma locomotiva como símbolo, foi fundado por ferroviários, que, para incluir a partida de futebol na programação de domingo, marcavam o jogo para antes do serviço, às cinco da manhã. O hábito, assim como o clube, persistem até os dias atuais.

Os vestígios da memória ferroviária no pequeno município podem ser encontrados a cada esquina, em nomes de ruas e até de bairro, como o Quarto Depósito - local que servia, de fato, como o quarto depósito da rede. Até o nome da cidade, que vem da homenagem ao mais ilustre personagem nascido na então Palmira, também se liga à história do trem, já que Santos Dumont só teria nascido na cidade em função da profissão do pai, engenheiro que trabalhava na ferrovia Central do Brasil.

Próxima à ferrovia, a Rua Maquinista João Mendes também presta homenagem a um dos "heróis' do município. Contam os moradores que um vagão carregado de armamentos explosivos começou a pegar fogo na estação, região muito povoada na época. Para evitar uma tragédia, João Mendes conduziu o trem para longe do centro urbano, onde os vagões explodiram, matando o maquinista, lembrado na cidade por seu ato heroico.

Nos pequenos distritos também é possível perceber a presença do trem. "Fomos visitar um deles, que não podia ter melhor nome, Patrimônio da Serra, para ver o que pensávamos ser a ruína de um pontilhão. Por lá, cruzamos com um senhor, coincidentemente maquinista aposentado da rede. Segundo ele, como descobriram que era daltônico, o enviaram para trabalhar no depósito. Ele contou que no dia em que bateu pela última vez o ponto antes da aposentadoria, todas as pessoas o esperaram na estação para aplaudi-lo. E, como quem exibe um troféu, nos mostrou uma camisa repleta de mensagens dos funcionários, ganhada de presente no mesmo dia."

Por intermédio do aposentado, descobriram que a ponte de pedra não era uma ruína, mas um pilar de sustentação de trilhos deslocados por uma mudança de percurso. O maior tesouro descoberto, contudo, ainda estaria por vir. "Ele mora em um antigo depósito de ferramentas na região, que mantém sua volumetria original, todo construído por pilares e vigas feitos de trilhos. Fomos buscar certos vestígios e descobrimos algo fantástico como isso", ressalta Olender, esperando encontrar ainda tantas outras histórias até o fim do projeto.

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