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27 de Fevereiro de 2014 - 06:00

Com 71 anos de samba, Demônios da Garoa, de São Paulo, se apresentam hoje no Corredor da Folia

Por JÚLIA PESSÔA

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Demônios da Garoa tocam clássicos e novas canções
Demônios da Garoa tocam clássicos e novas canções

"Cada 'tauba' que caía doía no coração". Se nos versos de Adoniran Barbosa falta rigidez com as normas do português formal, sobra empatia do ouvinte com a dor do interlocutor e seus camaradas Matogrosso e Joca, ao verem sua "Saudosa maloca" ser posta abaixo na São Paulo dos anos 1950, baseada em um fato real vivido por um também verdadeiro Matogrosso, amigo do célebre sambista.

Falando de amor, dor ou do cotidiano do trabalhador - sempre com um toque bem-humorado-, as letras de Adoniran criam uma ponte com o público, que consegue facilmente se identificar com as situações retratadas. Grande parte delas poderá ser ouvida nesta quinta na Praça Antônio Carlos, no show dos Demônios da Garoa, que integra a programação do Corredor da Folia.

Mais uma vez, Arnesto estará ausente, como canta o samba que leva seu nome, já que Ernesto Paulelli, que teria inspirado os versos de Adoniran, faleceu nesta quarta-feira (26), após passar por uma cirurgia no fêmur.

Os Demônios da Garoa consagraram as composições do sambista em uma das mais ricas parcerias da música brasileira. "Os Demônios da Garoa vocalizam a identidade cultural paulistana, por serem os principais intérpretes da obra de Adoniran Barbosa. O Adoniran não tinha uma voz apta ao rádio, era muito rouco, não tinha como competir com as vozes empostadas dos Demônios", explica a pesquisadora Maria Fernanda França, que estuda samba e identidades culturais.

Com 71 anos, o grupo foi fundado por Arnaldo Rosa, pai de Serginho Rosa (afoxé, instrumento herdado do pai) e avô de Ricardinho Rosa (pandeiro), mantendo os Demônios como tradição familiar. Além de pai e filho, o grupo tem, na presente formação, Roberto Barbosa (chamado de Canhotinho, que assume o cavaquinho), Izael (timba) e Dedé Paraizo (violão de sete cordas).

Em entrevista à Tribuna, Serginho conta que manter a essência que acompanha o grupo desde sua fundação, nos anos 1940, é uma prioridade dos músicos. "É uma honra enorme poder fazer parte de um grupo que é considerado a cara de São Paulo, um clássico da música brasileira. Oitenta porcento do nosso repertório são de músicas consagradas, principalmente as do Adoniran, mas mesmo as composições mais novas mantêm a identidade do grupo: a irreverência, a descontração, a crônica do cotidiano da cidade", explica o músico.

Até hoje Serginho se impressiona com o alcance do grupo fundado por seu pai, cujas canções estão na ponta da língua de gerações que não vivenciaram os Demônios da Garoa nas rádios e na mídia de forma geral. "Vejo, nos nossos shows, crianças de 8, 9 anos cantando músicas que têm mais de 50 anos e que não estão mais no ar, na mídia, é incrível! Um gosto musical transmitido de pai para filho", observa.

Para Serginho, o segredo da longevidade dos Demônios da Garoa está na simplicidade das letras e na documentação fiel do dia a dia. "Além disso, os Demônios fundaram esse estilo 'gaiato' de fazer samba, a identidade do samba de São Paulo. O Adoniran hoje é tema universitário, as pessoas investigam a identidade e o contexto por trás das letras com 'nós vai', 'nóis fumo', assim como o valor histórico das letras para retratar um período específico da cidade que ele tanto amava", opina. "Essa linguagem é uma marca identitária específica. É o sotaque das classes populares paulistanas da década de 1950, que o Adoniran registra a partir de sua própria experiência pessoal e social, além de ser o diferencial de seu samba", acrescenta a pesquisadora Maria Fernanda França.

No repertório, clássicos inegáveis como "Samba do Arnesto", "Tiro ao Álvaro", "Você abusou", "As mariposa", "Trem das onze" e "Iracema" misturam-se a novidades, com autorais e homenagens a artistas amigos dos Demônios da Garoa, incluindo um leque variado com nomes como Paralamas do Sucesso, Ataulfo Alves, Noel Rosa, Toquinho e Vinícius. "Sempre damos um toque 'demônios' nos arranjos, como o vocal característico e as introduções jocosas antes e no meio das músicas. Estamos ensaiando, e vem dando muito certo. Senão, não teríamos 71 anos", brinca o músico, revelando sua canção preferida, "Apaga o fogo, Mané", de Adoniran Barbosa. "É tragicômica: a mulher sai para comprar um pavio para o lampião, e o sujeito fica desesperado porque ela não chega. Procura no hospital, na cadeia, pela cidade toda, para no fim das contas achar um bilhete onde está escrito 'Apaga o fogo, Mané. Eu não volto mais'. Por esse desfecho, ninguém esperava, coitado!"

DEMÔNIOS DA GAROA

Hoje, às 20h30, na Praça Antônio Carlos

  

Festa começa com blocos e termina com baile

Ainda na programação de hoje do Corredor da Folia, os foliões da melhor idade desfilam pelo bloco Recordar é Viver, ao som da Banda Alegria, a partir da Praça Antônio Carlos, às 17h30, em direção ao Parque Halfeld. No Alto dos Passos, o Bloco do Xerife concentra-se a partir das 17h entre a Rua Moraes e Castro e a Rua Dona Zely Lage, apresentando o enredo "A taça de chopp é nossa", ao som da Banda Alquimia e da bateria da Juventude Imperial. Já o Bloco do Pagodão sai do Parque Halfeld, em frente à Câmara Municipal, às 19h, descendo o Calçadão até a Avenida Getúlio Vargas. A partir das 18h, no bairro Vale dos Bandeirantes, o Bloco Sem Compromisso faz um "concentra, mas não sai" na Rua Dr. João Camilo, com o tema "Ciganada", animado pela bateria do bloco. Às 22h, a Banda Daki faz seu tradicional baile (evento pago) com marchinhas no Univershow (Avenida Rio Branco, em frente ao Bahamas Manoel Honório). As mesas para a festa podem ser reservadas na Estação Digital Zé Kodak.

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