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16 de Maio de 2014 - 06:00

'Casa dos espelhos' explora experiências sensoriais para abordar distúrbios mentais frente à cultura da (auto) imagem na contemporaneidade

Por JÚLIA PESSÔA

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Vinícius Cristóvão fez preparação de corpo e psicológica para a construção do monólogo
Vinícius Cristóvão fez preparação de corpo e psicológica para a construção do monólogo

"À medida em que perco a formosura, perco regalias." O texto de Hussan Fadel para "Casa dos espelhos" retrata uma das agonias contemporâneas: a passagem do tempo e o desgaste dos corpos em tempos de "selfies" e imagens que retratam diferentes identidades, nublando os limites entre "eu" e "outro". O projeto é do grupo Corpo Coletivo, grupo de pesquisa teatral que estuda linguagens em Juiz de Fora, do qual Hussan é um dos fundadores. Criado a partir de uma montagem premiada no Festival de Cenas Curtas do ano passado, o espetáculo aborda a delicada questão dos distúrbios mentais frente a este culto da imagem na contemporaneidade, em uma experiência que envolve os sentidos do espectador, conduzido ao interior de cada cena pela arrebatadora atuação de Vinícius Cristóvão. Sozinho no palco, ele é cercado por cacos de espelhos que delimitam a cena e, acima, por círculos de lâminas de LED, fazendo uma cascata que direciona, invariavelmente, o olhar do público para cada movimento do ator.

Em um dos últimos ensaios antes da estreia no CCBM, Hussan Fadel orienta o trabalho de Vinícius, sob meu olhar atento na plateia: "Nunca perca a conexão pelo olhar". Com os cabelos descoloridos para a caracterização do personagem, Vinícius, de fato, não deixa o contato visual com o público - o resto da equipe, os músicos que fazem a trilha e eu, que o cercamos no palco em arena - se esvair e vai além, integrando o espectador à cena pela emoção que transborda do personagem e é refletida na plateia e por ela, em uma das muitas alusões a espelhos na peça. "O espelho não tem profundidade, é apenas a superfície do que uma pessoa é. Chamamos atenção para esta questão, por meio de um personagem que, por acompanhar sempre seu reflexo no espelho, fica preso na superfície, não se aprofunda. E não há jeito de se libertar dessa prisão a não ser quebrando os espelhos que o cercam. Com o passar do tempo, quando a imagem do espelho começa a definhar, ele próprio vai se desfazendo, porque não é nada além da própria imagem", observa Hussan.

"É um monólogo, sou eu que estou no palco, mas há muito de todos em cada parte do trabalho. Todo o processo de construção do personagem e do espetáculo foi feito coletivamente", conta Vinícius Cristóvão, que fez não apenas preparação de corpo para o espetáculo, mas também teve o suporte da psicóloga Ludmila Andrade. "Isso deu uma grande verdade à criação deste personagem que tem distúrbio mental, evitou que se tornasse um estereótipo. Primeiro, foi um trabalho intelectual com a leitura de textos que a Ludmila trouxe, e depois foi refletido no corpo. Consegui incorporar gestos, expressões, movimentos, enfim, todo um universo relacionado a estas patologias sem fazer delas uma caricatura, com que o público não se identificasse por não ser verossímil", conta o ator, sobre um receio que nem de longe se concretiza. Assistindo ao ensaio na última quinta, compartilhei de cada transição entre a loucura e a sanidade vividas pelo personagem, chegando a prender a respiração nas passagens mais intensas, como se faz em momentos de muita emoção.

"A ideia é que o ator vá além da representação, da interpretação. O que buscamos é que haja, no palco, uma vivência, que envolva o espectador a ponto de ele falar: 'ele está falando comigo?'", explica Hussan, usando como exemplo um questionamento que eu fiz repetidas vezes durante o ensaio. A dualidade entre insanidade e a lucidez é marcada pela alternância de dois alter-egos do personagem: um que narra oniscientemente os fatos e outro que vive na pele e na psiquê os surtos psicológicos. "Trabalhei com três arquétipos para fazer o narrador: o professor, o médico e o palestrante, e ele representa a pessoa que tem a verdade que fala com propriedade, e é um contraponto entre os momentos de explosão. É uma quebra mesmo, um movimento de expansão e contração, e que permite que as pessoas deem uma respirada", comenta Vinícius.

Cada uma desta transições é entremeada ora por sons esquizofrênicos, ora por um groove sóbrio e ora pelo próprio silêncio. A trilha elaborada pelo grupo 4zero4 com instrumentos, moduladores, sintetizadores e programações computadorizadas, norteou , nos momentos de maior perturbação do personagem, minha inserção para o desconforto vivido em cena, assim como ftrouxe a paz trazida pelos lapsos de lucidez. "Partimos da temática do espetáculo, e uma das preocupações foi traduzir musicalmente a ideia dos espelhos, dos reflexos, e isso seria um eco, e isso foi impresso na trilha. Gravamos inclusive a voz do Vinícius, que será reproduzida na plateia, criando vários ecos e contribuindo para que o público vivencie a confusão mental do personagem. Tudo é feito em diálogo com o que se passa em cena, mesmo os silêncios, que são como um marca-texto, dando ênfase às passagens importantes", explica Fred Fonseca, integrante do 4zero4.

 

Para a psicóloga Ludmila Andrade, que fez a preparação de Vinícius, "Casa dos espelhos" vai além dos méritos artísticos, tendo um importante papel social, sobretudo em maio, tido como o mês da luta antimanicomial. " A peça desmitifica a imagem dos pacientes de distúrbios mentais, que ainda são concebidos como pessoas que precisam ser isoladas da sociedade, quando, na realidade, a sanidade e a loucura convivem lado a lado e estão em qualquer lugar, muitas vezes em pessoas próximas. Na peça, o gatilho para os surtos é essa obsessão com a imagem, o narcisismo, mas existem vários outros", explica a psicóloga, que acompanha a evolução do espetáculo desde seu formato como cena curta.

Segundo Vinícius, um dos momentos mais marcantes do trabalho foi durante um simpósio de saúde mental na UFJF, no ano passado, em que apresentou a cena curta sem cenário, sem iluminação, sem recursos cênicos, tendo somente a si como instrumento de expressão. " Foi a primeira vez que senti, de verdade, o público como meu espelho, e foi mais especial ainda porque estava entre profissionais especializados do tema que estávamos tratando. Foi muito poderoso ver a reação destas pessoas, - que lidam diariamente com distúrbios mentais - na plateia, e ouvir, depois, que incorporei seus pacientes sem cair em estereótipos", relata o ator.

Vinícius destaca, ainda, que o distúrbio mental foi uma das ilustrações possíveis de uma angústia muito inerente aos tempos atuais, numa releitura contemporânea do mito de Narciso. "Quando tiramos uma 'selfie', mostramos de nós o que gostaríamos de mostrar aos outros, ou o que achamos que somos. Mas há muitos 'eus' dentro de nós: você é quem fala comigo no Facebook ou quem eu estou vendo aqui, na minha frente. Quem sou 'eu' e quem é 'o outro'? Este personagem incorpora todas estas questões, e os surtos são uma forma de ilustrá-los", esclarece.

 

Depois da estreia em Juiz de Fora, o espetáculo estará em uma das maiores vitrines do teatro brasileiro, a Mostra de Teatro de Tiradentes. Além de uma apresentação no próximo dia 22 na cidade histórica, Vinícius Cristóvão ministrará uma oficina "Ator e artista compositor", trabalhando a técnica de Michael Chekhov, que se opõe à utilização da memória afetiva do ator em sua interpretação.

Segundo Vinícius, a ideia é buscar patrocínios e inscrever o espetáculo em editais para circular com ele por onde for possível. "O personagem tem duas opções para fugir daquela angústia, e as duas são uma espécie de morte: a física e a da ilusão que ele busca no espelho, da qual ele se libertaria ao quebrá-lo. Isso é o mais difícil, morrer dentro de si, abandonar convicções, quebrar espelhos para se permitir renascer, um desafio que todos nós enfrentamos."

 

 

Casa dos Espelhos

Hoje, sábado e domingo, às 20h30

CCBM (Avenida Getúlio Vargas, 200)

 

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