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14 de Maio de 2014 - 06:00

Em novo livro, 'O tempo é um rio que corre', escritora Lya Luft desfaz a máxima popular de que best-sellers não possuem qualidade

Por MAURO MORAIS

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Lya Luft não começou sua carreira ontem. Também não se lançou na literatura como colunista de uma das revistas mais lidas do país, a "Veja". Lya Luft não se iniciou nas palavras enfocando o cotidiano, o drama do envelhecimento ou a independência das mulheres. Bissexta, a escritora também não faz de seu ofício espaço para hermetismos que repelem o público e se reforçam como arte para segmentos altamente restritos e restritivos. Lançado em 1964, o livro de estreia de Lya reúne poemas, reflexo de sua afinidade com a linguagem, expressa na formação em letras anglo-germânicas e no ensino universitário de linguística.

Anterior a sua celebração como escritora, a tradução lhe estreitou os laços com as construções de Rainer Maria Rilke, Virginia Woolf e Thomas Mann, alguns dos autores para os quais ofereceu sua compreensão do alemão e do inglês, além do pleno domínio do português. Fundamental em sua formação, o convívio com o ex-marido, o professor e gramático Celso Luft, serviu-lhe como prova concreta de um mergulho nos vocábulos. Assim, tornou-se natural a criação do romance "A asa esquerda do anjo", de 1981, cuja história mostra os percalços de uma personagem em busca de sua identidade, sempre confrontada com as raízes de uma rigidez alemã. Da mesma forma, seguindo a ordem das coisas, ela lançou, em 1999, "O ponto cego", obra-prima da literatura brasileira, na qual uma criança é posta como narradora, contando e inventando histórias familiares, revelando o clã vista por baixo e, por isso, sem véus.


O tempo como imperativo


A trajetória de Lya Luft até "O tempo é um rio que corre" (Editora Record, 141 páginas), título recém-lançado, é compreensível. Entre poemas e fragmentos de lembranças da infância, juventude, vida adulta e velhice, ela disseca o que há de comum na vida. Compreendendo o cotidiano como o conjunto de todos os dias, a sucessão das horas sem sobressaltos, a obra revela uma cronista consciente, como faz em seus textos publicados pela "Veja". "No tempo sem tempo da infância, o trabalho dos relógios demarcando a vida é coisa dos adultos, é a hora imposta de fora. Nós, entre os intervalos de correrias e agitação, contemplamos", reflete, retomando um de seus maiores personagens: o tempo, personagem e cenário de seus textos. "Examino essa criança que sorri para mim com grandes olhos confiantes. Sei que ela está escrevendo comigo estas páginas, por isso a quero compreender. Mas quando penso que a alcancei, ela vira o rosto para o outro lado e foge sem ter me dado todas as respostas. Está engaiolada numa fotografia, ignorando o fluxo da vida, com seus olhos que ainda não tinham visto nada deste mundo", escreve em outra passagem, demarcando o que diz em outro momento: "A maior parte das coisas sabemos em retrospectiva".

Perpassando momentos triviais como um jantar da família ou um tratamento especial recebido há muitos anos, a escritora faz das próprias lembranças instrumentos para reflexões profundas sobre as relações humanas e, principalmente, sobre o "estar no mundo". "Predomina a ideia de que a velhice é uma sentença da qual se deve fugir a qualquer custo - até mesmo nos mutilando ou escondendo, feito mulheres cujo rosto parece uma máscara de cera, onde se movem apenas pálpebras e olhos, e a boca o suficiente para falar e comer. Olhos apequenados ou desiguais sobre enormes bochechas sem ruga alguma", comenta na obra, jogando luzes sobre a relação entre velhice e sociedade, assunto caro aos dias atuais e emocionante aos que vivenciam a mesma narrativa.

Altamente popular, Lya Luft é frequentadora assídua das listas de best-sellers, lugar no qual já se encontra "O tempo é um rio que corre". Contudo, ao que confirma com o novo livro, a escritora não resvala em gratuidades e tem plena noção de cada termo e cada pontuação. Talvez, sua popularidade se deva ao fato de falar da vida, de forma sensível e emocionada. Sua linguagem acessível, mas não vulgar, funciona em conjunto com o desejo de falar do que é comum, mas não banal. A matéria-prima da autora é algo costumeiro e extremamente popular: o passar dos dias. E tal olhar atrai leitores, mas não apenas isso. Os leitores se fazem nas palavras que lhes tocam.

Apesar de não ansiar novas formas, lançando mão do fragmentário, o livro reafirma o lugar da crônica na escrita do presente e no pensamento do literário. O tempo de Lya é o mesmo de seus muitos leitores, que preferem o reflexo do espelho às invencionices acéfalas.

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