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03 de Julho de 2014 - 06:00

Lendário grupo norte-americano lança coletâneas com raridades e acústicos para a MTV Quando tudo ficou gigantesco

Por JÚLIO BLACK

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Mike Mills, Michael Stipe, Bill Berry e Peter Buck estiveram à frente do R.E.M. e gravaram álbuns clássicos como "Monster" e "Out of time"
Mike Mills, Michael Stipe, Bill Berry e Peter Buck estiveram à frente do R.E.M. e gravaram álbuns clássicos como "Monster" e "Out of time"

Poucas semanas após o lançamento daquele que seria seu derradeiro álbum ("Collapse into now"), o R.E.M. anunciou o fim de suas atividades em 21 de setembro de 2011. Ao mesmo tempo que pegou muitos fãs de surpresa, o anúncio decretava o fim da maior banda dos Estados Unidos por pelo menos 30 anos, superando pela vitalidade e força de sua obra nomes como Nirvana, Weezer e Pixies. Os órfãos do quarteto (Michael Stipe, Mike Mills, Peter Buck e Bill Berry, que pediu as contas em 1997) de Athens, Geórgia, têm agora motivos para minimizar o luto prolongado: o lançamento de duas compilações com raridades do R.E.M., junto com os CDs que apresentam as íntegras de suas apresentações acústicas na MTV. No total, são 214 músicas englobando todas as fases do grupo e seu processo de amadurecimento, da obscura banda conhecida apenas no circuito universitário norte-americano até o megassucesso que rivalizaria com o U2 e uma apresentação antológica no Rock in Rio 3, em 2001.

Voltando aos primórdios do R.E.M., "Complete rarities: I.R.S. 1982-1987" (EMI) abrange o período do grupo no circuito independente a partir do EP "Chronic town" até o sucesso com "Document". Na verdade, a cápsula do tempo de raridades começa em 1981, pois as duas primeiras músicas do CD duplo são as versões do single de estreia pela pequena gravadora Hib-Tone, "Radio free Europe" (em versão ainda mais crua) e "Sitting still". A partir daí, são inúmeras as pérolas garimpadas nos anos em que estiveram sob o guarda-chuva da I.R.S. Records, algumas já disponibilizadas anteriormente em "Dead letter office". É possível encontrar outras versões de canções apresentadas no álbuns da banda, como "Gardening at night", "Finest worksong" e "Hyena". Outras, como "Mystery to me" e "Theme from two steps onward", não chegaram a aparecer na discografia oficial. A versão de "Bad day" não é a que saiu em uma coletânea na década passada, e sim a gravação ancestral da época de "Lifes rich pageant".

Entre as gravações do trabalho alheio, estão as versões de "Moon river" (Henry Mancini e Johnny Mercer), a surpreendente "Toys in the attic" (Aerosmith) e três do Velvet Underground ("Pale blue eyes", "Femme fatale" e "There she goes again"). A coletânea ainda reserva espaço para alguns lados B de compactos, remixes e versões de composições próprias direto do estúdio. Com tanta abrangência, é possível observar um R.E.M. que, aos poucos, vai amadurecendo seu som a partir de influências diversas, como Patti Smith, o já citado Velvet Underground, The Kinks e Television. Um período em que o punk rock, o new wave e o pop forneciam as bases sonoras para as letras personalíssimas de Stipe, com seu jeito quase incompreensível de cantar.

A segunda coletânea cobre o período em que o R.E.M. gravou pela Warner. Após vender mais de um milhão de cópias de "Document", seu último trabalho pela I.R.S., o grupo foi eleito pela revista "Rolling Stone" "a maior banda da América" - e com razão: foram milhões e milhões de álbuns vendidos, numa sequência de trabalhos excepcionais que começou ainda com "Lifes rich pageant" (1986) e prosseguiu até "Reveal" (2001). Esse é o período em que o R.E.M. rivalizou com o U2 pelo posto de banda de rock mais popular do planeta, mesmo produzindo discos mais acústicos que elétricos ("Out of time" e "Automatic for the people") e abrindo mão, muitas vezes, de realizar turnês. Nem tudo foram flores, porém: durante a turnê de "Monster" (1994), Bill Berry sofreu um aneurisma cerebral em show na Suíça (o que acarretou seu desligamento da banda após as gravações de "New adventures in hi-fi"), e Mike Mills e Michael Stipe passaram por cirurgias de emergência.

Se estes foram os anos em que tudo ficou gigantesco para a banda, "Complete rarities: Warner Bros. 1988-2011" reúne 131 músicas, entre lados B, covers, canções que não saíram em álbuns e versões ao vivo. Todo o material presente já havia sido disponibilizado em CD ou digitalmente, mas esta é a primeira vez que são reunidas em apenas um pacote. Inexplicavelmente, material relevante como faixas instrumentais do período de "Monster" e versões ao vivo no estúdio durante a produção de "Collapse into now" ficaram de fora, assim como outras músicas raras.

Independentemente das ausências, as oito horas e seis minutos de músicas reunidas na compilação valem cada centavo investido pelo fã. Há uma infinidade de covers, indo de "First we take Manhattan" (Leonard Cohen), "Dark globe" (Syd Barrett) e "Funtime" (David Bowie e Iggy Pop) à divertida "The lion sleeps tonight" (da trilha sonora de "O rei leão"). Também podem ser conferidas versões alternativas ("Star me kitten", recitada pelo escritor William S. Burroughs) e instrumentais ("Orange crush"), remixes ("King of comedy", pelo 808 State), demos ("The lifting") e aquelas que não saíram nos álbuns oficias ("Revolution", "The great beyond").

Para fechar o pacotão da felicidade, a Warner também lançou as duas aparições do R.E.M. nos programas acústicos da MTV, em 1991 e 2001. Sem se prender apenas aos standards, o grupo apresentou suas versões alternativas para as pouco conhecidas - pelo menos para os fãs menos presentes - "Half a world away", "I'll take the rain", "Find the river", "Radio song", "Sad professor", "Swan Swan H" e "World leader pretend". Hits como "Losing my religion" e "The one I love" também receberam roupagem mais intimista.

Disponibilizar mais de duas centenas de canções poderia soar exagerado para tantos artistas descartáveis que circulam por aí. No caso do R.E.M., porém, tal volume serve apenas para renovar a admiração dos fãs por um dos grupos mais criativos e originais que surgiram entre o final do século XX e o início do novo milênio. Saindo de cena antes de virarem caricatura de si mesmos, Buck, Mills, Berry e Stipe permanecem como referência do que de melhor o rock pode produzir.

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