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13 de Junho de 2014 - 06:00

Entrevista / Arthur Autran, professor e pesquisador

Por MAURO MORAIS

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Mesmo tendo público pequeno, filmes de arte são defendidos por Autran: "É importante que eles existam e sejam feitos"
Mesmo tendo público pequeno, filmes de arte são defendidos por Autran: "É importante que eles existam e sejam feitos"

Há muitos anos o Canal Brasil, da TV fechada, tem um faixa dedicada apenas a produção cinematográfica nacional pós-1990. Intitulada "Retomada", a faixa condensa lançamentos e obras exibidas pela primeira vez há mais de uma década. Afinal, quais foram os avanços desde o período em que a produção brasileira chegou próxima de uma falência, tal qual o Governo? Ainda há como reunir esses filmes sob a égide de um mesmo rótulo? Para o pesquisador e professor do Departamento de Artes e Comunicação da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), Arthur Autran, ainda caminhamos sob o névoa de um período ingrato.

Em seu mais recente livro, "O pensamento industrial cinematográfico brasileiro" (editora Hucitec), o estudioso demarca o lugar de onde parte o desejo por salas mais cheias e filmes brasileiros mais reconhecidos. "Resolvi me concentrar mais, partindo do pressuposto de que o cinema brasileiro buscou mas não conseguiu se industrializar ao longo da história, nas principais ideias em torno do que seria uma indústria do cinema no Brasil. Tinha uma hipótese, que se confirma no trabalho, de que, nesse período que vai de 1924 a 1990, há uma espécie de fio amarrando a história de nossa produção em diversas propostas de como industrializar esse cinema", diz.

Convidado pelo Programa de Pós-Graduação em Artes, Cultura e Linguagens e pelo Grupo de Pesquisa Historiografia Audiovisual, vinculados ao Instituto de Artes e Design da UFJF, Autran esteve em Juiz de Fora na última semana e conversou com a Tribuna sobre uma produção que se desejava reflexo de Hollywood e hoje segue original, mas com inúmeras dificuldades, entre elas a forte dependência das verbas públicas. Defendendo o olhar atento para o mercado, o pesquisador e professor acredita na necessidade de se repensar essa "retomada" de maneira mais crítica e propositiva, até porque é preciso enxergar com clareza o caminho a seguir após retomar.

Tribuna - O cinema começa a pensar em se industrializar muito cedo, ainda na década de 1920. Como isso acontece?

Arthur Autran - Essa questão era tão importante para os cineastas desde 1924 porque eles entendem que o cinema nacional não teria uma garantia de continuidade enquanto não houvesse indústria. Hoje temos um número de produção bastante grande, teve no passado também, mas em muitos momentos tivemos crises. Isso preocupava muito os diretores, e a solução seria criar uma indústria. As primeiras propostas começam a surgir em meados dos anos 1920, quando dois jornalistas cariocas, Adhemar Gonzaga e Pedro Lima, nas páginas de revistas de cinema da época, principalmente na "Cinearte", começam a defender que o Brasil deveria ter uma indústria cinematográfica. Eles partiam do nada. Antes deles, quase não havia reflexão, havia, apenas, filmes. Eles percebiam que o que funcionava em nível mundial era Hollywood, então, achavam que o Brasil deveria imitar, criando uma nova Hollywood no Rio de Janeiro. Eles defendem esse modelo baseado em estúdios. Adhemar e Pedro são importantes, também, porque percebem que há uma disparidade no mercado muito grande, no qual o produto norte-americano já dominava o mercado brasileiro. Eles defendiam, por exemplo, medidas legais de apoio, como a isenção do filme virgem (na época os filmes ainda eram feitos em película, que o país importava). Outra reivindicação, essa mais importante, era de que houvesse algum tipo de medida protecionista para a exibição do cinema brasileiro, o que chamamos hoje de "cota de tela". Isso só foi implantado nos anos 1930.

- Hoje já amadurecemos ou ainda perseguimos Hollywood?

- Não perseguimos mais. O Brasil amadureceu nos anos 1950. Naquela época já há outras propostas que não a de emular Hollywood. Alex Viany, Nelson Pereira dos Santos, Roberto Santos são cineastas que já nos anos 1950 propõem outros modelos de indústria. Hoje, certamente, estamos muito distantes de Hollywood, mas ainda não temos uma indústria cinematográfica. O que temos é uma indústria audiovisual no Brasil, capitaneada pela televisão, com outros produtos importantes, como a publicidade. O mercado do cinema continua em situação precária, mas não em termos de produção. Desde os anos 1990, graças às leis de incentivo e à criação de órgãos como a Ancine, temos de fato uma política do Estado, nos diferentes governos, para o aumento da produção. O Brasil é um dos países que mais produz longas-metragens no mundo. Porém, boa parte dessa produção é totalmente subsidiada pelo Estado, seja por leis de incentivo, repasse direto, editais e outras formas. O Estado em seus vários níveis, desde o Governo Federal, até governos estaduais e, em alguns casos, governos municipais, de grandes capitais. Tem muito dinheiro público sendo investido em cinema. Isso não é ruim. Em todo o mundo o Estado é fundamental para a produção cinematográfica, as exceções são Índia e Estados Unidos, mas nossa produção depende muito desse apoio. O pouco do cinema brasileiro que ainda tem alguma força de mercado são aqueles poucos produtos que ao mesmo tempo têm o apoio da Globo Filme e estão associados a alguma distribuidora "major". São poucos, em torno de 10 ao longo do ano, o que é muito pouco diante do conjunto, e não basta para garantir certa independência econômica do nosso cinema.

- O filme mais assistido não atinge mais de 3% da população, cerca de seis milhões. Isso enfraquece esse processo?

- O público cinematográfico, de qualquer maneira, é sempre muito menor que o da população. Quem vai às salas de cinema é, no Brasil e em vários países do mundo, muito elitizado. Claro que grande parcela da população que não vai aos cinemas assiste aos filmes em outros meios, principalmente pela televisão aberta e fechada, DVD, internet. Precisamos pensar, então, qual proporção o cinema brasileiro ocupa em termos de público no seu próprio mercado. Em se tratando de espectadores em sala de cinema, o nosso cinema varia em uma faixa de 12% a 18% do público total que vai aos cinemas. A média de 15% é bastante pequena. Nosso produto ocupa um lugar relativamente pequeno. O ideal é que se chegasse a 30% do mercado interno.

- De que forma a industrialização pode favorecer esse panorama?

- Tem uma forma com menos intervenção do Estado, que já existe e não é suficiente: a Globo, notando que há interesse em se envolver com o cinema, nos filmes em que ela tem uma relação mais intensa, sem colocar capital diretamente, coloca-os em uma esfera midiática, do consumo contemporâneo de imagens. O filme passa a circular na programação da TV Globo, nas revistas e jornais do grupo, o que dá uma visibilidade enorme aos filmes e faz com que alguns deles tenham um público expressivo. Evidentemente, a Globo não tem possibilidade e interesse em abarcar todo o cinema brasileiro. Então, de fato, tem que haver a intervenção do Estado. Uma das formas é como faz uma lei recente, que ainda está em processo de implantação e que obriga os canais de TV fechada a dedicar parte de sua programação ao produto nacional independente. Isso ajuda não apenas o cinema, mas toda a produção audiovisual, fortalece os produtores. Seria interessante, claro, que essas medidas fossem estendidas à TV aberta, mas não está no horizonte nesse momento. Há, também, ações da Ancine, que nos últimos anos tem buscado desenvolver políticas que não contemplem apenas a produção, mas a distribuição principalmente.

- Existe uma cena independente no Brasil. Qual a sua avaliação dela?

- Uma característica interessante da produção brasileira contemporânea é que ela transcendeu o eixo Rio-São Paulo. Hoje temos produção de longas em Porto Alegre, Belo Horizonte, Bahia, Pernambuco, Ceará, Amazonas, Brasília e em vários outros estados e municípios. Isso tem um significado cultural e de mercado de trabalho nessas regiões muito importante, além de uma relevância estética. Marcelo Gomes, Lírio Ferreira, Cláudio Assis, Jorge Furtado estão fora do eixo e são muito importantes. Infelizmente a maior parte desses filmes não tem resultado de público muito expressivo, com algumas exceções - como os trabalhos do Jorge Furtado, o "Cinema, aspirinas e urubus", do Marcelo Gomes, e "O som ao redor", do Kléber Mendonça Filho. Em geral, eles não têm relevância de público, mas isso não é mal. É importante que eles existam e sejam feitos. Defendo que o ideal para o cinema brasileiro é que nem todos os filmes sejam blockbusters, mas alguns continuarão tendo poucos espectadores porque são de vanguarda, outros, ainda, terão um público médio, que é o que o Brasil precisa ter. O objetivo é que tenhamos uma distribuição maior.

- Em Paulínia houve uma tentativa de criação de um polo de cinema, que deu certo inicialmente, mas acabou sucumbindo às questões políticas, o que mostra uma fragilidade dessa tentativa de industrialização cinematográfica. Qual a força desse processo?

- Não temos indústria de cinema, ele ainda é muito dependente do Estado, portanto, refém de embates políticos. Defendo que ele tenha uma relativa independência do Estado, que seria uma relação com o mercado. Paulínia é exemplo disso. Lá foi construído um complexo cinematográfico a partir da vontade política de um grupo que governava a cidade, com apoio de setores do meio cinematográfico, mas, com as mudanças de governo, outra gestão considerou que aquilo não era tão importante, que havia muito dinheiro sendo gasto, e aquela experiência se interrompeu. Agora querem retomar. Isso faz parte dessas incertezas na relação com o Estado. Quando uma atividade não tem força social, econômica e política, tende a ficar refém de determinada situação.

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