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04 de Dezembro de 2013 - 07:00

'Estive em Lisboa e lembrei de você', um dos dois filmes baseados na obra de Luiz Ruffato que deverão chegar às telonas em 2015, conclui gravações em Cataguases e segue para Portugal

Por MAURO MORAIS

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Luiz Ruffato: "Temos, no Brasil, quatro mil leitores. Seria ridículo eu ficar preocupado com
Luiz Ruffato: "Temos, no Brasil, quatro mil leitores. Seria ridículo eu ficar preocupado com 'o meu leitor'"

Tratava-se de um recurso literário, o famoso blefe do escritor. A nota que abre "Estive em Lisboa e lembrei de você" diz: "O que se segue é o depoimento, minimamente editado, de Sérgio de Souza Sampaio, nascido em Cataguases (MG) em 7 de agosto de 1969, gravado em quatro sessões, nas tardes de sábado dos dias 9, 16, 23 e 30 de julho de 2005, nas dependências do Solar dos Galegos, localizado no alto das escadinhas da Calçada do Duque, zona histórica de Lisboa". O livro do escritor mineiro, radicado paulista, Luiz Ruffato, conta a história de Serginho, um empregado da Seção de Pagadoria da Companhia Industrial Cataguases, que vive suas frustrações na cidade interiorana e em certo momento decide mudar-se para Portugal.

Com uma personalidade habilmente desenhada pelo autor, uma das faces do proletariado de Ruffato, Sérgio, chegará aos cinemas em 2015, pelos olhos do diretor português José Barahona. A passagem do personagem-narrador pela cidade na Zona da Mata mineira foi gravada até o último dia 20. Como Sérgio, a equipe segue (em fevereiro de 2014), então, para Lisboa, onde concluirá as filmagens.

Mítica nos romances do escritor, a cidade onde nasceu serviu não apenas como set, mas rendeu mão de obra à produção cinematográfica. "Estive em Lisboa e lembrei de você" conta com não atores, atores amadores e profissionais, além de um técnica preenchida por nomes da região. "Essa pegada documental de trabalhar com não atores é uma maneira de trazer o dia a dia das pessoas para o filme. O personagem da mãe do protagonista é uma não atriz que trouxe a sua história como ex-empregada da fábrica. Dessa forma, mostramos a realidade operária", explica Barahona, com seu forte sotaque lusitano. A narrativa, marcada pela migração, se passa em 2005, antes da crise europeia, e reúne cenas de um interior de Minas Gerais fabril. "Hoje, talvez, as indústrias não sejam tão fortes como antigamente, mas ainda têm um peso muito grande na vida da cidade e das pessoas. Principalmente a Companhia Industrial Cataguases, onde o protagonista trabalha, que está em pleno funcionamento e dá emprego a muita gente", comenta.

Orçado em R$ 1 milhão, o longa-metragem, uma coprodução com Portugal com o apoio do Polo do Audiovisual da Zona da Mata, ainda não captou a totalidade dos recursos, mas, ainda sim, segue as gravações. De acordo com a produtora geral do filme, Carolina Dias, da Refinaria Filmes, até agora foram captados apenas 40% do valor, mas, até a estreia, aguardada para 2015, a captação deverá ser concluída. Em mãos, Barahona e Carolina têm o aval de um dos mais prestigiados escritores da literatura contemporânea nacional. Mas, para eles, isso não significa uma fidelidade total. "O livro e o filme são sempre linguagens muito diferentes. Muita coisa se perde e muita coisa se ganha, principalmente com a materialização da imagem. Tive alguma preocupação em preservar a linguagem que o Ruffato usa. O livro é todo narrado em primeira pessoa, e, portanto, o filme também será", afirma o diretor, para logo completar: "Trabalhei o tempo todo com o livro aberto a minha frente, mas houve um momento em que o puxei e deixei que o roteiro tomasse a sua forma própria, com sua linguagem de cinema".

Segundo livro da pentalogia "Inferno provisório", encerrada no último ano com "Domingos sem Deus", a obra "O mundo inimigo" também ganhará os cinemas em 2015. Sob direção do global José Luiz Villamarim, de "Avenida Brasil", o longa intitulado "Cataguases" é orçado em R$ 4 milhões. Em fevereiro deste ano, o filme foi contemplado com R$ 1 milhão do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Outros R$ 800 mil também já foram captados, e as filmagens estão programadas para o próximo ano. Também contando com o apoio do Polo do Audiovisual da Zona da Mata, a produção fará gravações em Cataguases e nos municípios do entorno. A história conta o reencontro de dois amigos mineiros. Luzimar nunca saiu da cidade e trabalha na fábrica de algodão, enquanto Gildo foi para São Bernardo do Campo, em São Paulo, onde ele acredita que encontrou o sucesso. No Natal, regado a bebidas, eles se recordam o tempo passado e discutem o presente.

 

 

'A Cataguases que está nos meus livros não é Cataguases'

Não. A originalidade do escritor Luiz Ruffato propagada aos sete cantos após o discurso na Freira de Frankfurt não é atípica. Ele não é um profissional de muitas amarras. Tanto que agora mudou-se da Record, editora que lançou seus últimos títulos, para a Companhia das Letras. "Não tenho compromisso com ninguém do mercado. E mercado é mercado, não é amizade, é negócio", diz, com uma objetividade singular.

Esse ano acaba de sair do forno a 11º edição de "Eles eram muitos cavalos", seu premiado romance de estreia. No próximo ano, chega à livrarias a reedição de "De mim já nem se lembra", e, em 2015, será lançado o "Inferno provisório" em volume inteiro, sem os títulos intermediários que compuseram a pentalogia. Em 2014 também será publicado o próximo romance, "Flores artificiais", que, apesar de tratar do não pertencimento, sentimento presente em suas obras, terá novo foco. "Esse livro não tem nada a ver com o operário, nada a ver com o Brasil sequer. A única coisa que tem do país é que o personagem que narra as histórias é um engenheiro nascido em Rodeiro", comenta, referindo-se à pequena cidade na Zona da Mata mineira, próxima a Ubá. Para os que se assustam em não ver o proletário como eixo do discurso, Ruffato, que conversou com a Tribuna por telefone, adianta-se: "Não tenho compromisso com crítico, editora, jornalista, nem com o público. Meu único compromisso é que quero escrever os livros que gostaria de ler. Se gostam ou não gostam, não tem problema, continuarei escrevendo outras coisas".

 

Tribuna - Como você recebeu esses convites para o cinema?

Luiz Ruffato - Desde que me paguem, podem fazer o que quiserem. Digo isso porque são leituras. Eu querer buscar nos filmes ou no teatro algo que eu imaginei é uma bobagem. Para mim, não muda nada.

 

- Mas não há preocupação em relação a seu leitor?

- Temos, no Brasil, quatro mil leitores. Seria ridículo eu ficar preocupado com 'o meu leitor'. Tenho certeza de que quem leu meu livro tem uma leitura e, ao assistir ao filme, dirá se parece ou não com o que escrevi. Quem for ao cinema e não conhecer meus livros pode sentir-se atraído ou não.

 

- Você teve alguma relação com esses filmes?

- Não. A relação é só contratual. Quero ir ao cinema e dizer se gostei ou não como espectador e não para dizer se o diretor entendeu ou não o livro.

 

- O cinema tem sido um filão para os escritores. Você pensou nisso?

- Inclusive acho que meus livros não dão filme, e faço questão de que seja assim. Se algum maluco acha que ali tem cinema, eu tiro o chapéu. Nunca vou escrever achando que uma ideia dá filme. Não escrevo e não sei escrever roteiro. É uma linguagem diferente, e não quero aprender nessa altura da minha vida.

 

- A Cataguases que estão filmando, a de hoje, revela essa cidade que está nos seus livros?

- Para ser sincero, a Cataguases que está nos meus livros não é Cataguases. Fiz uma grande sacanagem. Coloquei o nome de Cataguases, coloquei o nome das ruas, o cenário, e as pessoas acham que a Cataguases dos meus livros é a mesma. Não é. É a minha Cataguases, que não é a que existiu e nem a que existe hoje. É a literária, que em alguns pontos se sobrepõe e em outros não. Tenho certeza que se colocar os livros nas mãos de uma pessoa que viveu na cidade na década de 1950, 1960, 1970 e pedir para identificar, ela não saberá. Eu inventei e poderia ter colocado o nome de Santo Felício. Foi um truque literário. Ela nunca existiu.

- Por falar em recursos literários, qual foi a repercussão do discurso em Frankfurt?

- Não fiz o discurso para agradar ou desagradar ninguém. Fiz em função de algumas ideias que tenho. Não são verdades definitivas, são reflexões. Acredito, inclusive, e fico com vergonha, que qualquer pessoa poderia ter subido ao palco e falado meu discurso. Qualquer pessoa que viva no Brasil, conheça o país e seja honesto faria o mesmo discurso, que é bastante anódino nesse sentido.

 

- E esse discurso legitima sua literatura como escrita do operário?

- Não ganhei nenhum cachê para fazer esse discurso, não conquistei uma editora a mais, pelo contrário, posso ter afugentado algumas. Só tive aborrecimentos. Mas não me arrependo porque meu papel como intelectual era fazer aquele discurso. Não teria coragem de voltar para a casa, olhar para os meus filhos e dizer para eles: "Estive em Frankfurt e falei que a literatura é coisa fantástica, tudo é mágica".

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