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24 de Abril de 2014 - 06:00

Livro de professores de arquitetura da UFJF chama atenção para a gradual mudança de coloração da paisagem urbana na cidade

Por MAURO MORAIS

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Parque do Museu Mariano Procópio se destaca entre as muitas construções de Juiz de Fora
Parque do Museu Mariano Procópio se destaca entre as muitas construções de Juiz de Fora

Ao longo da Avenida Rio Branco, principal via de Juiz de Fora, poucas são as casas, e ainda menor, o número de residências com jardins frontais. Dos muitos prédios, raros são os exemplares que preservam o verde. No decorrer dos anos, como em muitas outras cidades ao redor do globo, o cinza predomina, exterminando o colorido característico da natureza. Voltado para o público infanto-juvenil, o livro "Áreas verdes em Juiz de Fora", de autoria dos professores do curso de arquitetura e urbanismo da UFJF, Antonio Colchete Filho, Emmanuel Sá Resende Pedroso e Frederico Braida, joga luzes sobre alguns espaços arborizados na cidade, sugerindo a necessidade de sentimentos de pertencimento por parte da população na conservação e ampliação de jardins, praças, parques e reservas municipais.

"Percebemos que a questão das áreas verdes em Juiz de Fora tem sido descuidada. Tiveram iniciativas, em um tempo passado, sugerindo a adoção de algumas praças, em parcerias público-privadas, em que algumas empresas cuidavam desses lugares. Por um lado, é bom por ter alguém, de fato, próximo e cuidando. Por outro lado, é ruim porque, de alguma forma, 'privatiza' o espaço público. Acredito que falte o clamor da população por essas áreas de qualidade", afirma Braida.

Segundo Pedroso, a ocupação da cidade reflete não só as características da comunidade que a forma, como o tempo. "Fatores diversos podem atuar no processo de desaparecimento das áreas verdes junto às casas, principalmente nas áreas centrais da cidade, como por exemplo a valorização da terra, que influencia na ocupação e no uso de cada terreno. Outro fator que também deve ser considerado é a questão da segurança, já que os jardins atuavam na transmissão entre público e privado", explica.

"Acredito que passa pelo reconhecimento da população ter as áreas verdes, públicas ou privadas, como algo relacionado à qualidade de vida, ao bem-estar. Isso parece muito natural, mas à medida em que não fazemos esforço para que esses espaços continuem existindo, a especulação imobiliária e outros atores farão com que haja a preponderância de outros elementos construídos, que não os construídos verdes", acrescenta Colchete Filho. O livro - que tem lançamento hoje, às 17h, no hall do galpão da arquitetura na UFJF -, dessa forma, atua como formador de um lugar de consciência, além de incentivar a reflexão em torno das transformações paisagísticas e até mesmo sociais.

"As cidades, depois do modernismo, foram construídas para o automóvel. Brasília é um exemplo disso. O lugar que era do lazer fica, então, em uma área específica. Esse hibridismo entre a construção, o jardim, a praça e a cidade, com o tempo, vai sendo perdido. As construções de hoje quanto mais puderem colar na testada do lote, mais o fazem. Quando precisam recuar três metros, fazem sem criar espaços agradáveis, de transmissão entre público e privado", critica Braida. Para ele, espaços como o Parque Halfeld, a Praça Antônio Carlos e o Largo do Riachuelo (localizados na região central e tratados na obra) se configuram como lugares de respiro, propício a momento de apreciação estética e contato com a natureza.

De acordo com o professor e pesquisador Frederico Braida, os artifícios para encobrir a paisagem natural refletem o modo de ocupação do ser humano nos dias de hoje. "É preciso que a ficha caia, e rápido. Cidades que apostam na tendência de oferecer espaços públicos verdes, com qualidade e bem tratados, saem na frente no que diz respeito à oferta dessa qualidade de vida e respeito ao cidadão", observa Colchete Filho.


Mais verde, por favor

Em Juiz de Fora, até mesmo os jardins residenciais tombados têm sido alvo do descaso, como o do Palacete Colucci, situado no nº 3.263 da Avenida Rio Branco, cuja área verde frontal, protegida por decreto municipal junto ao casarão, mantém-se bastante descaracterizada e estéril. Outro exemplar, a Villa Iracema, localiza-se no nº 651 da Rua Espírito Santo e não apresenta mais a conformação original dos jardins que, assim como a casa, ajudam a contar sobre os tempos áureos da cidade. Antes uma área privada e depois transformado em museu, o Mariano Procópio (outro endereço tratado em "Áreas verdes de Juiz de Fora") é um dos espaços que mais se destaca na cidade, com seus jardins simétricos e sua flora diversificada. Para o naturalista suíço Jean Louis Rodolphe Agassiz, um dos maiores especialistas em geologia e paleontologia no século XIX, o parque era "o paraíso dos trópicos". "Como o próprio Conselho Nacional de Meio Ambiente coloca, as áreas verdes têm função ecológica, paisagista e recreativa, propiciando uma qualidade estética, funcional e ambiental à cidade. Precisamos bater na tecla dessas três vertentes. Não é uma mera questão ecológica, porque também vivemos das aparências, mas também não é puramente estética, porque há questões funcionais, como a substituição de um muro por cercas vivas", comenta Frederico Braida.

"Os anos 1980 foram de grande ebulição para a questão do verde como um todo. Houve um modismo de levar as plantas para dentro de casa, e isso repercutia até mesmo nas estamparias. Foi toda uma onda de movimento ecológico que ganhou força e se incorporou no cotidiano de diferentes faixas etárias. Hoje há preocupação, tanto que muitos empreendimentos ofertam o verde, a fim de ter mais valor", afirma Antonio Colchete Filho, apontando para o paradoxo atual: ao mesmo tempo em que não há uma ideal consciência de se preservar áreas verdes, existe valorização e prestígio quando são feitas.

Segundo Emmanuel Sá Resende Pedroso, pelo fato de a cidade ser de médio porte, ainda é possível alterar a situação e oferecer outra paisagem, mais natural. Para Braida, um bom exemplo é feito em Curitiba, pelo urbanista Jaime Lerner. "Ele propõe a teoria da acupuntura orgânica, que sugere que cada um coloque, ao menos, um vaso na frente de casa. Não necessariamente isso tem uma repercussão ecológica, mas estética e paisagista, que é uma das funções das áreas verdes."

"Ainda há muita coisa a ser feita. Destinar áreas tão extensas para o uso verde é uma questão complicada, que envolve direito à propriedade fundiária e planejamento urbano da cidade e da região. O caminho da preservação e a criação de corredores ecológicos, de novas instâncias de conservação, de criação de áreas de menor porte que podem ser implantadas onde já existem espaços públicos, ajuda a fazer com que essas áreas tenham um sentido real", sugere Colchete Filho.

De acordo com Braida, basta olhar para o próprio país, para os trabalhos de Roberto Burle Marx, um dos maiores paisagistas do mundo, que inseriu suas criações na história do urbanismo nacional. "Ele mostrou como espaços, até mesmo os modernistas que são caracteristicamente mais áridos e secos, podem servir à flora riquíssima do Brasil. Ele apontou como podemos nos apropriar disso para construir jardins mais bonitos, espaços mais humanizados, já que a vegetação traz vida para essas praças, parques e jardins."

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