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08 de Janeiro de 2014 - 07:00

Primeiro livro de contos do escritor moçambicano Mia Couto ganha edição no Brasil

Por MAURO MORAIS

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Mia Couto é moçambicano e considerado uma das principais vozes da literatura de língua portuguesa
Mia Couto é moçambicano e considerado uma das principais vozes da literatura de língua portuguesa

A língua é um mar, e, por ele, trafegam diferentes navios e barcos. De Moçambique, Mia Couto desancora sua nau para descobrir territórios dominados pela sensibilidade. Mesmo que em solavancos, já que a língua portuguesa falada em terras africanas apresenta léxicos e até mesmo construções diferenciadas, ler a produção do escritor vencedor do Prêmio Camões em 2013 é fazer uma viagem à complexidade dos sentimentos humanos. Cada palavra é burilada como um artista a levantar, do torno, um jarro frágil de cerâmica. Em "Vozes anoitecidas" (Companhia das Letras, 150 páginas), Mia Couto faz arte com o barro. Em seu primeiro livro de prosa, que acaba de ser lançado no Brasil, passados 27 anos de sua publicação original, 12 curtos contos dão voz a uma realidade que de tão dura e estéril mais parece ficção.

"Mia Couto faz-se (transfigura-se) vários seus personagens pela atenta escuta de pessoas e incidentes próximos de si, porque o homem-escritor quer-se testemunha ativa e consciente, sujeito também do que acontece e como acontece, já que desde a infância pôde saber-se objeto", aponta o poeta moçambicano José Craveirinha em prefácio da edição portuguesa da obra. "Vergados ao discurso grandíloquo, é bom esta descolonização da palavra, este experimentar de estruturas narrativas, este também sentencioso - mais persuasivo do que impositivo - modo de nos recordar as pequenas verdades dos pequenos e esquecidos personagens de cuja soma total, derrogados do que não interessa do seu valor intrínseco, o Discurso da História se faz", analisa o poeta e dramaturgo Luís Carlos Patraquim, também moçambicano, em outro prefácio do livro.

E para entender o discurso dos conterrâneos de Couto, que o exaltam por iluminar zonas sombrias e completamente esquecidas em um país já distante de ser destaque no mapa, basta conhecer a revolta que faz morada na singeleza dos argumentos do autor, expressos logo na abertura, quase panfletária, de "Vozes anoitecidas". "O que mais dóis na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e noitecer as vozes", reflete.


Em volta era o nada


Logo no primeiro conto de "Vozes anoitecidas", espanta a miséria humana transposta para a riqueza vocabular de Mia Couto. Nem excessivo, nem reducionista, o autor é exato ao narrar o drama de um casal de velhos desesperados com a morte um do outro e com a possibilidade de não terem força física para enterrar o parceiro. "As pernas sofriam o cansaço de duas vezes: dos caminhos idosos e dos tempos caminhados. // A fortuna dela estava espalhada pelo chão: tigela, cestas, pilão. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho." À medida que o velho ia cavando a cova da esposa, suas energias iam se perdendo, como uma metáfora ao próprio trabalhador, que se desgasta sem conseguir a recompensa de uma vida digna. "Procurou na penumbra o braço do marido para acrescentar força naquela tremura que sentia. Quando a sua mão encontrou o corpo do companheiro viu que estava frio, tão frio que parecia que, desta vez, ele adormecera longe dessa fogueira que ninguém nunca acendera", conclui o narrador.

E a morte é apenas um dos temas que permeiam os contos do escritor moçambicano. Assim como a vida desprezada, são muitos os infortúnios e as desgraças que se enumeram, relatadas com voz natural, sem sobressaltos. Como em "Saíde, o lata de água", no qual um homem finge bater na mulher e deseja, desesperadamente, saber o nome do pai do filho que não pode ofertar à esposa e, por isso, permitiu que ela se relacionasse com outro. "Sentiu a força do vento na porta e acordou da lembrança. Sempre que se recordava trabalhavam facas dentro da alma. Estava proibido de ir ao passado. E tudo por causa de Júlia, raio de mulher. Fechou a porta com a decisão da fúria." Entre a fantasia e a crueza do que é real, a primeira incursão de Couto pela prosa revela-se um exercício tocante do quanto as palavras conseguem dar conta do que ainda se deixa invisível.

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