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30 de Abril de 2014 - 06:00

No centenário de Dorival Caymmi, o filho e também músico Dori Caymmi fala sobre a vida e a obra do pai

Por JÚLIA PESSÔA

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Dorival Caymmi levou a Bahia ao resto do Brasil e do mundo
Dorival Caymmi levou a Bahia ao resto do Brasil e do mundo

Na Salvador do início do século XX, um típico baiano ora molha os pés à beira do mar, ora se diverte entre uma pescaria e outra, não deixando, entretanto, de ceder ao tentador chamado da rede estendida na varanda nos não raros momentos de preguiça. Por seu universo musical que remete a uma Bahia hoje folclórica, ou pelo hábito das inverdades se consolidarem como fatos no Brasil, Dorival Caymmi, que completaria hoje 100 anos se vivo - feito que quase atingiu. Morreu, aos 94 anos, em 2008 - é retratado em versões da alegoria acima descrita, engano que seu filho, o músico e maestro Dori Caymmi, desmente com conhecimento de causa.

"É tudo conversa fiada. Papai não era muito fã de ficar deitado em rede, nem era muito chegado em água,ou em pesca. Sua relação com o mar era muito mais contemplativa, poética", conta Dori em entrevista à Tribuna, acrescentando: "Mamãe, sim, era boa pescadora e boa companhia para pescar", relembra o músico sobre a também cantora Stella Maris, esposa de Dorival, que faleceu poucos dias antes do marido.

Um dos maiores baluartes da música popular brasileira, Dorival Caymmi exportou para o resto do país e todo o mundo mistérios, lendas e personagens de sua tão amada Bahia, além de ter influenciado amplamente gêneros contemporâneos como a bossa nova de João Gilberto e o samba-canção moderno.

Seu legado, relativamente pequeno em quantidade, mas grandiosa em relevância, acumula clássicos do cancioneiro nacional que destilam simplicidade e poesia, como "O que é que a baiana tem?", que consagrou Carmen Miranda; "Marina" ("Morena Marina, você se pintou", que até hoje muitos atribuem a Gilberto Gil), "Só louco", imortalizada na voz de sua filha Nana Caymmi, "Você já foi à Bahia?", um delicioso convite à Terra de Todos os Santos, "Sábado em Copacabana", que exalta o bairro carioca como "um bom lugar para se encontrar", a tão regravada "Maracangalha", entre outras.

 

Em comemoração ao centenário do pai, Dori e seus irmãos Nana e Danilo têm viajado por várias capitais do país com o show "Família Caymmi- 100 anos de Dorival Caymmi", baseado no repertório de um CD gravado pelos irmãos no ano passado. "São músicas com canções menos gravadas, que trazem uma visão dele sobre um universo da sua infância, com pescadores, mercadores de rua, tem uma tendência bem praieira e folclórica, remete a uma Bahia poética, completamente diferente desta de hoje, cheia de trios elétricos", explica Dori.

Segundo o maestro, a intenção é levar a homenagem a outras cidades do país, algo que a produção vem se esforçando em fazer, mas "é complicado em ano de Copa e eleição". Ainda assim, as apresentações têm lotado casas por onde passam arrebatando os fãs do patriarca e dos filhos artistas da família Caymmi. "É um show muito especial, muito íntimo da relação dele de pai conosco, os filhos. E ter centenas de pessoas compartilhando isso faz de cada apresentação algo muito auspicioso", diz Dori. Além destes shows, Dori divide com Mário Adnet os arranjos de um CD que terá, a convite da família, a participação de artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil e será o álbum que marca o centenário.

Dori escreveu também um concerto para a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) baseado na "Suíte dos pescadores" (Minha jangada vai sair pro mar/ vou trabalhar, meu bem querer), ainda sem data para ser apresentado. "Estou com um medo danado do resultado, é uma grande responsabilidade. Já ouvi uma gravação no computador, mas não é a mesma coisa", diz o maestro, um tanto avesso às tecnologias.

As honrarias incluem, ainda, a reedição da biografia "O mar e o tempo", de Stella Caymmi, filha de Nana, e shows individuais de cada um dos filhos de Dorival, além da neta Alice Caymmi, filha de Danilo. O Governo da Bahia também restituiu o Troféu Caymmi de música, que não era realizado desde 2008 e já revelou nomes como Daniela Mercury e Carlinhos Brown, e o estado planeja a criação de um museu em Salvador, com objetos pessoais, como a coleção de bengalas do músico, partituras, condecorações e o inseparável violão de Dorival.

 

'Pequeri era a salvação da lavoura'

Para Dori, é na ausência de afetação que reside a riqueza da obra de Dorival Caymmi. "Caymmi e seu violão. Era o que havia de mais forte na música dele. Apesar de simples, é difícil de se alcançar a genialidade nisso, principalmente com letras regionais sobre o mar e suas lendas, referências tão presentes para ele. Mas ele conseguiu", diz o filho, que herdou de Dorival não apenas o farto bigode, mas, assim como seus irmãos Nana e Danilo, carrega o vozeirão característico dos Caymmi. "Sempre fico emocionado ao ver o vídeo em que ele canta no programa de Andy Williams, nos Estados Unidos. Chega um momento em que ele está tão encantado com papai que você chega a pensar: 'gente, esse gringo vai dar um beijo na boca do velho'", diverte-se Dori.

Para ele, a simplicidade que permeia a obra de Dorival era reflexo de sua personalidade. "Acho que o que ele deixou, além de um acervo de obras-primas, foi a falta de ambição. Ele era contra essa coisa de que artista tem que ter muito dinheiro, ter posse, aquelas frescuras de não sei quantas toalhas brancas. Papai sempre foi muito modesto, deixou um apartamento no Rio e a casa em Pequeri, que era uma grande paixão em sua vida", conta Dori, explicando como o pai baiano se apaixonou pela pequena cidade mineira, a cerca de 30km de Juiz de Fora.

"Papai amava o silêncio, e Pequeri era a salvação da lavoura, onde ele via pássaros cantando, tinha contato com a natureza e encontrava uma tranquilidade que já não tinha morando no Rio de Janeiro, em plena Avenida Copacabana. Mas se alguém falasse na casinha em Minas, ele sorria de orelha a orelha, foi a alegria dos últimos 20 anos da vida dele", conta Dori, acrescentando que, atualmente, quem passa mais tempo na casa da família é Nana, que fica lá pelo menos uma semana por mês. "Ela não era muito pequeriense não, mas depois da morte de nossos pais ficou essa memória da paixão, as coisas estão exatamente como estavam quando eles eram vivos, as roupas, a cadeira de rodas. Acredito que ela vá se aposentar e viver lá."

Dori conta também que, nos últimos anos de vida, percebia uma certa tristeza do pai pela "aposentadoria compulsória" a que os artistas são submetidos. "Via que ele estava sem 'pega' no violão, além de um pouco surdo, enxergando mal, essas coisas que são inerentes à velhice e que tiram todo o potencial do artista. E era um tanto triste ver toda aquela aura, de uma inspiração atrás da outra se tornar de certa forma inútil, porque o corpo não permitia, fisicamente, que virassem criações", conta Dori, relembrando que, na reta final, o Parkinson impediu outra paixão e outro talento de Dorival, a pintura. "Ele foi amigo de grandes pintores: Di Cavalcanti, Portinari, entre vários outros. A pintura fazia parte da música dele, era um retrato da realidade que ele cantava, com pessoas, lugares e lendas."

Já sem se apresentar, Dorival chegou a assistir, em 2004, o show dos três filhos em homenagem a seus 90 anos. "Ele e mamãe ficaram apaixonados e choraram de emoção quando viram a prova do show em casa, mas foram também ao Canecão assistir à apresentação oficial. Tinha tanto jornalista em volta deles que em um momento pulei daquele palco alto para mostrar que quem estava do lado deles era eu, o Dorivalzinho, como mamãe me chamava. Meu joelho se arrepende disso até hoje", brinca o músico.

Para Dori, o segredo da longevidade de Caymmi, que viveu 94 anos, estava em sua serenidade. "Papai teve uma vida dura, e trabalhou muito, daí o fato de não gostar muito da ideia de nós três sermos músicos. Mas não se aporrinhava com nada, e por isso viveu tanto. Era falastrão, adorava contar um caso, mas se via que o pau ia quebrar, se retirava e ia buscar algo para fazer", conta o filho.

Para ele, a personalidade de Caymmi é sintetizada por uma das mais belas composições do artista centenário, "João Valentão", nos versos "E assim adormece esse homem que nunca precisa dormir para sonhar/ Porque não há sonho mais lindo que sua terra", cantarola Dori ao telefone. "Isso era papai escrito. Sempre canto esse trecho emocionado, e costumo substituir 'esse homem' por 'meu velho'", completa o maestro.

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