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16 de Abril de 2014 - 06:00

O musical 'Paixão de Cristo' reúne representantes de diversas denominações religiosas no palco do Pró-Música

Por MARISA LOURES

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No espetáculo musical "Paixão de Cristo", a história de Jesus ganhará repertório que vai do canto gospel ao rock
No espetáculo musical "Paixão de Cristo", a história de Jesus ganhará repertório que vai do canto gospel ao rock'n'roll
O grupo Redentorarte, da Igreja da Glória, trará a paixão de Cristo para o mundo real
O grupo Redentorarte, da Igreja da Glória, trará a paixão de Cristo para o mundo real

Acreditando que a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo pode ser retratada independentemente de religião, Bárbara Simões e sua trupe decidiram encabeçar a proposta de representar seguindo o caminho cultural e social. Em 2014, o espetáculo, encenado há 19 anos no Bairro São Pedro, ocupará o Teatro Pró-Música, um dos palcos mais tradicionais de Juiz de Fora. Em cena, estarão profissionais e amadores de diversos credos. "Trabalhamos na perspectiva de que é uma história aberta, sempre passível de ser reinterpretada", comenta Bárbara, adiantando que o musical conta com figurino, dança, produção, maquiagem, patrocínio e preparação vocal dignos de grandes produções teatrais. A apresentação conta com participação do Coral da Igreja Metodista do Bairro Bela Aurora. O repertório vai do canto gospel ao rock'n'roll.

"É uma história de esperança, de alguém que vai voltar. Também tem um aspecto social. Várias pessoas vivem do nosso lado e são mortas pela sociedade, pela exploração, pelo trabalho. Percebemos que, às vezes, é preciso ajudá-las a reviverem, a darem um sentido para a vida", diz Bárbara, ao refletir sobre os elementos que fazem a antiga história emocionar multidões. A diretora e autora do texto, que será narrado pela perspectiva dos discípulos de Emaús, comenta ainda que o tema escolhido para este ano é "Eu vou ficar". "Queremos mostrar que o caminho é mais importante que o próprio percurso da nossa vida. Focamos na questão da tolerância, de trabalhar com quem é diferente de nós."

O objetivo é deixar de lado as características sacras e ganhar novos contornos. Por isso, ultrapassar os limites da igreja. "A gente pensa que o evangelho tem que ser aberto para todos, ser uma opção cultural", completa. Segundo Bárbara, o que será visto começou a ser preparado em julho de 2013, dentro de um trabalho envolvendo jovens da periferia. Em setembro, o grupo partiu para os testes de elenco e ensaios divididos por equipe. A partir de janeiro, os atores se juntaram para o ensaio geral.

 

Na Paróquia Santa Luzia, há quase 50 anos, os passos de Jesus também são relembrados. Intérprete do protagonista há cinco anos, Robson Ribeiro diz que a meta é inovar. "Vamos inserir o papel de Satanás, que vai permear todo o espetáculo. Continuaremos dando ênfase a Herodes e Pedro, como no último ano. São personagens de grande importância para entender o contexto da época e que, às vezes, são colocados em segundo plano pelo fato de existirem poucos relatos sobre eles", afirma o ator.

Robson diz que os encontros de elenco acontecem desde março. Trinta atores, na faixa etária dos 6 a 65 anos, se desdobram em ensaios duas vezes por semana e na produção do figurino. A apresentação está marcada para sexta, às 20h, na igreja matriz. O público sai em procissão para o local da crucificação, que ocorre em uma área ao ar livre.

Na Igreja da Glória, a tarefa do grupo Redentorarte é "trazer a paixão de Cristo para o mundo real". "Ela é mostrada na violência contra a mulher e no racismo", diz Marilene Loures, uma das coordenadoras do grupo, nascido há 15 anos. A encenação acontece também na sexta, às 19h, dentro do templo. Hoje, o Redentorarte participa de Via Sacra, às 19h. As celebrações se estendem para outros bairros da cidade. Na paróquia Beato João Paulo II, no Bairro Nova Era, 20 pessoas farão a encenação, na sexta-feira, às 20h, em um "palco natural", conforme ressalta Willian Mascerson da Silva, organizador do evento. Em outro ponto, em Vila Ideal, os integrantes do grupo Josac (Jovens Seguidores do Amor de Cristo) se apresentarão na Igreja Matriz de Sant'Ana, às 19h, também na próxima sexta-feira.

 

 

O último herói trágico

Embora acreditem que o "salvador" não esteja morto, nessa época do ano, cristãos de várias partes do mundo choram diante da imagem de Jesus sem vida na cruz. "É o momento de reflexão do ser humano diante da máscara da morte. A pessoa repensa a vida e percebe que ela não termina neste processo. Todo mito se torna mito porque vence a morte. Ele dá uma esperança para as pessoas", reflete o diretor do Grupo Divulgação José Luiz Ribeiro, para quem Cristo é considerado o último herói trágico da história. "Isso porque, depois da Idade Média, temos o livre arbítrio", completa o diretor.

Para Bárbara Simões, professora de literatura inglesa da Universidade Federal de Juiz de Fora e autora do livro "Escritura do Deus e do Diabo: ensaios de religião, história e literatura", no sacrifício de Jesus, pode ser destacado o mesmo estoicismo presente na obra de Sêneca (escritor que inspirou o desenvolvimento da tragédia na dramaturgia europeia renascentista). O filho de Deus aceita a missão que lhe é imposta: morrer para salvar a humanidade. "Assim como os heróis de Sêneca, Cristo tem uma postura estoica, que pode ser lida como resignação", afirma Bárbara.

Reitor do Seminário Santo Antônio, Padre Geraldo Dondici Vieira observa que o líder judeu não é revestido das mesmas características que fazem os "heróis gregos serem considerados quase semideuses". "O herói judeu é muito diferente do herói grego. Ele é revestido de fragilidade, não conhece seu destino, dá um voto de confiança", destaca o pároco.

"Jesus foi preso às 23h35, e ao meio-dia estava crucificado. Às 15h, estava morto. Passou por três processos muito velozes. Os detalhes da vida de Jesus são surpreendentes. Mostram que não estamos no mundo do mito, estamos no mundo da memória. Mito não tem hora, funciona em qualquer lugar. Na história de Jesus, há personagens comuns, com nome e endereço", enfatiza o padre, para logo justificar o fato de a história descrita na Semana Santa ainda encantar o público, já ciente de seu desenlace.

"É o mesmo que a criança que espera de novo para contar a história do patinho feio e dos três porquinhos. Faz parte da nossa memória cultural. Para os budistas, é a história do Buda. A história de Jesus é a história do Ocidente. Quem é católico, ao ver uma encenação, um quadro, um ícone, vê ali espelhada a sua verdade. Mesmo quem não tem fé sabe que Jesus, o cristianismo, o judaísmo são a base da cultura ocidental, são a base dos nossos valores. A pessoa se emociona ao ver um inocente morrendo pelos outros sem cobrar nada e morrendo com dignidade. Jesus não se revolta, perdoa, morre silencioso, aceitando aquilo que lhe é proposto, aquilo que nós chamamos de missão, uma missão catártica mesmo, de recuperação da humanidade", finaliza o padre Geraldo Dondici.

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